<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852</id><updated>2012-02-10T04:38:33.726-08:00</updated><category term='ensaio'/><category term='nota'/><category term='rascunho'/><category term='crônica'/><category term='correspondência'/><title type='text'>Grau zero</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>94</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-3633227369895012423</id><published>2012-02-10T04:38:00.000-08:00</published><updated>2012-02-10T04:38:33.739-08:00</updated><title type='text'>A poesia que não disse nada mas que retornou o homem à sua casa</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Carminha,&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;br /&gt;É sábado, o frio que faz e a saudade que dá. Escrevo-te para contar que estou alegre, que conto os dias e sei que estaremos juntos em tempo breve, mas que já vejo por trás desta brevidade e posso colecionar as saudades como rosas; não te entristeça que são flores que ornam meu jardim e dão perfume. Ademais, é bom o cheirinho que fica das tuas partidas tristes; é um cheiro fresco e úmido de abraços constantes e de grama chovida. Saiba também que já preparei a chuva para tua chegada: fiz berço e coloquei-a em sesta, nós te aguardamos aqui nesta terrinha longínqua que, por sinal, continua tristonha. Hoje, na praia, avistei um poste que solitário dava luz ao negrume que se avizinhava no crepúsculo, um pequeno soldadinho intrépido o suficiente para lembrar-me de meus passos e apontar-me a casa onde acho que tudo me espera, menos tu. Neste caso, digo que sou eu que te espero aqui, como o postezinho que enfrenta a repetição da noite, como se consciente de sua missão. O meu embate, entretanto, é com a tristeza aconchegante e com o abraço cálido da solidão: quando me espreitam, sei o que tenho de fazer e vou-me para o jardim de rosas, onde sei que já não sou mais aquele menino solitário e que agora tenho tuas flores para cuidar. No entanto, quando o dia cai — e a noite o veste —, acho sempre e ainda que sou este garotinho triste caminhando pelas calçadas como se voltando para casa. Os meus pés descalçam-se na aspereza da pedra e do barro e, com o pouco de maciez que lhes resta, acarinham o batido da vida. Não são (isso eu sei) mais pés de menino, mas pés duma tristeza em cujo caminhar brota o solitário e cujo destino é sempre as paredes brancas e aquelas velhas janelinhas de madeira. Sabes, Carminha, pelas inúmeras vezes que estiveste comigo, que a casa está vazia quando estou aqui dentro e que, portanto, seria torpe preenchê-la com tua presença somente para que eu pudesse morar. Há muito que volto para cá só para cuidar das flores que todos plantamos e para deitar-me na areia à espera do sol: lá de cima ele vem adormecendo comigo até nos encontrarmos em sonho. Aqui eu me relaciono com o mundo no diminutivo. As flores, garanto, estão bonitas. Embora eu nada tenha plantado, creio que tenho sido bem zeloso em dar a cada uma o pouquinho de sol e de água que coleto durante o dia. Entristece-me apenas ter de deixar este lugarzinho, mas o faço toda noitinha, quando encontro minha mãe para o chá. Tenho certeza que encontrarás a casa bem parecida como a deixaste. Não sei, no entanto, se me reconhecerás, pois acho que estou um pouco mudado. Não deixei a barba crescer nem ganhei peso; ganhei, contudo, alguns anos e estraguei a pele com o sol. Disseram-me que meus olhos estão mais tristes e que meu andar tem estado mais devagar, mas elogiaram-me também pelo bonito jardim. É bom, Carminha, é bom. É sinal de que estou desaparecendo e de que assim está ficando clara a vista das flores. É bom, Carminha, pois poderemos encontrar-nos e então conseguirás ver toda a alegria que este jardim deixou brotar em mim; é bom porque poderemos dançar à tardinha enquanto as rosas cantam aquela cantiga de ninar que tanto gosto e porque poderás, no embalo docinho do entardecer, colocar-me para dormir na mudinha serena. Eu prometo, Carminha, que mesmo depois de nos despedirmos, lembrarei do teu cheirinho e guardarei para sempre este jardim. Eu juro juradinho.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-3633227369895012423?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/3633227369895012423/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=3633227369895012423&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/3633227369895012423'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/3633227369895012423'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2012/02/poesia-que-nao-disse-nada-mas-que.html' title='A poesia que não disse nada mas que retornou o homem à sua casa'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-1153242604357720921</id><published>2012-02-06T09:35:00.001-08:00</published><updated>2012-02-06T09:38:57.517-08:00</updated><title type='text'>Prosa rosa em galhos finos</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia; font-size: x-small;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="font-family: Georgia; font-size: 9pt;"&gt;Há um pequeno recanto em minha janela onde os seres me são; no seu pousar, os pássaros me pássaram e repousam; em quietude a árvore me arvora e aquieta e, quando silencio, o vento me sopra e me venta em pen-&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia; font-size: x-small;"&gt;  &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormalCxSpMiddle" style="text-align: justify; text-indent: 36.0pt; text-justify: inter-ideograph;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia; font-size: x-small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormalCxSpMiddle" style="text-align: justify; text-indent: 36.0pt; text-justify: inter-ideograph;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia; font-size: x-small;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="font-family: Georgia; font-size: 9pt;"&gt;-sa-&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormalCxSpMiddle" style="margin-left: 72.0pt; mso-add-space: auto; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; text-justify: inter-ideograph;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia; font-size: x-small;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="font-family: Georgia; font-size: 9pt;"&gt;-men-&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="margin-left: 144.0pt; text-align: justify; text-indent: 36.0pt; text-justify: inter-ideograph;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia; font-size: x-small;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="font-family: Georgia; font-size: 9pt;"&gt;-tos&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia; font-size: x-small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Georgia; font-size: x-small;"&gt;&lt;span lang="PT-BR" style="font-family: Georgia; font-size: 9pt;"&gt;à toa em um rosa de primavera e de sorrisos de sono. O lençol me casa e me berça a manhã no cedinho da infância; estou sozinho no azul que empresta o céu e no través dos galhos fininhos tenho destino: o mar me chama, o azul convoca. No desbrotar rosa o menino enfim nada.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-1153242604357720921?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/1153242604357720921/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=1153242604357720921&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/1153242604357720921'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/1153242604357720921'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2012/02/prosa-rosa-em-galhos-finos.html' title='Prosa rosa em galhos finos'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-5875125112838776770</id><published>2012-01-30T16:51:00.001-08:00</published><updated>2012-01-30T16:51:49.386-08:00</updated><title type='text'>Deixa, dança, dama.</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Menina, vamos pintar as paredes, dançar nos corredores e fazer amor na cozinha. Como crianças, vamos brincar e reinventar: a casa, o mar e o amar. Vamos deitar, vamos sonhar — abra as cortinas e deixa o sol desnudar tudo, deixa o desejo cair e a calmaria chegar, deixa o mar, mansinho, embalar a gente como crianças na rede. Deixa brincar, não é pecado! Deixa, deixa tudo!, deixa essa vida, deixa essa casa, deixa ser tudo. Deixa a mim, menina, deixa eu te amar — vamos deixando, dançando, vamos onde o vento deixar (são coisas nossas). Me deixa, minha linda, me deixa te deixar, enquanto fico deixado em teu abraço de algodão e em teu cafuné de gatinhos; envolve minhas pernas e diz-me: te quiero mucho, mas diz-me em ronronar. Não temos nada a perder, essa vida não é nossa, não é nada, senão a deixa pra sermos felizes, a deixa pra deixar, com vontade fraca e coração nobre, de peito aberto e sol no olhar. Essas paredes, essa casa, esse amor, essa vida, deixa tudo, deixa desabar — dança, dança com esse menino que se deixou apaixonar.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-5875125112838776770?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/5875125112838776770/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=5875125112838776770&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/5875125112838776770'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/5875125112838776770'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2012/01/deixa-danca-dama.html' title='Deixa, dança, dama.'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-1277970317676063325</id><published>2012-01-18T20:48:00.000-08:00</published><updated>2012-01-18T20:48:54.281-08:00</updated><title type='text'>Prece da solidão</title><content type='html'>&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt; 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Há muito tempo que não nos víamos e, ainda assim, parece que passamos cada um desses dias juntos, de mãos dadas sob o sol — embora realmente não haja muito que eu possa dizer-te hoje. Lembra-te, no entanto, o quanto gostávamos de fazê-lo e de espraiar aquele momento aos confins da memória. As águas abençoavam-nos e as ondas arrastavam para longe o que quer que intentássemos consagrar. O que era do mar, nós sabíamos, não nos pertencia — não nos dava alcance — e, porquanto nós éramos do mar, creio que também não nos pertencíamos. Um ao outro, ao menos. Ainda vejo os barcos passarem quando, deitado na areia, conto as nuvens e sei que nada do que sinto poderei comunicar-te. Não que as coisas fossem diferentes outrora, que a nossa presença não redundasse em um problema e que não necessitássemos tirar da vista o dizer com que nos queríamos aproximar. Éramos das águas e, além de não nos pertencermos — cada um a si mesmo — nada daquilo nos dizia respeito. Não consentíamos nisso e, na poesia, encontrávamos sepulcro; que as palavras não fossem lúgubres, as ondas traziam-nos a suave tristeza, e ela nos chegava como tristeza, sim, e dela podíamos partilhar, como irmãos que dividem o pão — e a fome. Lembro-me da felicidade em teu rosto; com certo pesar, é verdade, visto que nem tempo nem memória podem desfazer tudo aquilo que, parece-me, deu tão errado. Nem que lembrássemos juntos, onde quer que estivéssemos, e permanecêssemos felizes. Tua felicidade, recorda-te, sempre me foi motor de lágrimas, pois bem sabes que eu não podia conter o choro quando me encontrava pequeno em teu sorriso, que me sentia criança quando perdido no encontro do teu abraço querido. A incúria dos braços colocava-nos a distância, em soluços baixinhos, e deixava-nos à solidão um do outro; tudo que dizíamos redundava em um nada tão opulento que somente a imansidão do mar poder-nos-ia receber como filhos — e abençoar-nos. Deus não nos veria; não veria nosso amor ou nossa ignorância; esquecer-nos-ia como opróbrio com perdão morno (talvez para não perturbar nosso silêncio). Já faz tanto tempo; eu sinto saudades e retorno a estas terras — talvez nossas preocupações se encontrem aqui — como se tudo se tivesse passado hoje (ou como se nada tivesse se passado de hoje) e vejo, mesmo que tudo tenha errado, que nada mudou; talvez meu choro aflore em teu sorriso novamente e talvez meu encontro se desencontre em tantos braços. Desejo-te, e acho que só, a benção das águas em aurora; estarei sentado à margem para ver-te hastear e tremular o sol a cada dia que me deres à e a luz. Esperar-te-ei, sempre, de braços abertos — olhos cerrados para conter-me e, com o frescor tímido da brisa, estivar do teu sorriso a escuridão, pois vi o negrume da solidão e ele também em abraços envolveu e recebeu-me como filho. Dá-me, pois, tua mão e caminha comigo que aqui temos casa, eis que aqui nascemos, separamo-nos e tornamos a encontrar-nos. Vai com Deus, meu irmão.&amp;nbsp;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-1277970317676063325?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/1277970317676063325/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=1277970317676063325&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/1277970317676063325'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/1277970317676063325'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2012/01/prece-da-solidao.html' title='Prece da solidão'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-1287212395472195731</id><published>2012-01-17T15:03:00.000-08:00</published><updated>2012-01-17T15:05:08.247-08:00</updated><title type='text'>Queria te escrevinhar</title><content type='html'>Menina,&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Queria te escrevinhar um poetar, mas não sou poeta. Então pedi ajuda para minha mãe e escrevi um monte de palavras bonitas pra tentar te arrancar um suspiro. São essas:&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Gatinho, coração, nuvem, sorvete, pantufas, macio, abracinho, carinho, sorriso, covinhas, carneiro, olhar, cabelos, cosquinha, flor, cachorrinho, edredon, perfume, sublime, suspiro, panquecas, pequenino, banzo, brinquedo, estátua, riacho, praia, soneto, moreno, estrela, pirlim-pimpim, docinho, tardinha, canção, cachimbo, enseada, melancia.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Com amor,&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Guilherme&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-1287212395472195731?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/1287212395472195731/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=1287212395472195731&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/1287212395472195731'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/1287212395472195731'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2012/01/queria-te-escrevinhar.html' title='Queria te escrevinhar'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-5862626059653189789</id><published>2012-01-17T08:44:00.000-08:00</published><updated>2012-01-17T08:47:27.951-08:00</updated><title type='text'>Introdução à casinha da praia</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Os muros brancos e a prainha vazia lá donde se vinham estendendo às sombras os sonhos macios. A memória caminha descalça sobre os paralapedipidos quentes e toca com aspereza o sol que faz ninho na calçada. As crianças correm e brincam e, como gato gordo e manso, dorme a praia sob as carícias de seus pés. Gostosinha, a memória se encobre com sol de sorvete, adormece e nos sonha. Se pudesse, pedia carinho na barriga.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Só que a gente não tem bola, mas tem inocência e docilidade. A gente tem saudade, mas já não brinca e nem acarinha por causa da idade. É tudo sonho sonhado pela memorinha dormida. Dizqui a vida é sonho, até que alguém acorda e lembra: a gente não jogou bola porque naquele dia choveu; e a memória tem que levantar casa. Me deixa, quero ser menino dormido — é poeta! não, é só sono! Minha memória não lembra; joga bola e faz castelo. Me deixa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-justify: inter-ideograph;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal"&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-5862626059653189789?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/5862626059653189789/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=5862626059653189789&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/5862626059653189789'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/5862626059653189789'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2012/01/introducao-casinha-da-praia.html' title='Introdução à casinha da praia'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-7624674959736912584</id><published>2011-12-06T16:54:00.001-08:00</published><updated>2012-01-09T19:11:30.023-08:00</updated><title type='text'>Flor</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Flor era de luz fria como a chuva e, de uma maneira só dela, caia entardecendo o dia dando noite à luz. Flor caia em nossas vidas como cai a chuva em tardes de verão: sem presságio, sem sinal. Não há, também, abrigo ou mesmo qualquer vontade de se proteger — também quando a chuva passa, tudo passa. Aqueles que tiveram uma Flor em suas vidas saberão do que estou falando.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não podemos prendê-la. Talvez sequer entendê-la. Não que eu tenha deixado de tentar, no entanto. Flor era instável de um modo que revelava toda minha instabilidade e, quando chovia, &amp;nbsp;era a noite azul. As estrelas encobriam-se e o desespero avizinhava-se. Flor chovia sobre mim com lágrimas e liberdade. Quando me deixava, assim, era para não voltar, mas, como a chuva, sempre voltava. Deixava outra vez os cabelos negros decaírem na minha insensatez. Não que Flor fosse sensata como aquela que traz à luz com a razão; quando digo que decaia em minha insensatez, refiro-me ao fato de que Flor conseguia colocar ela mesma esta insensatez para eu decair; não me tirando a razão e me abandonando a uma paixão delirante, mas trazendo ela mesma o desejo e a dimensão desta insensatez. Era a única medida, e ainda assim desmesurada.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Flor é a razão por que muitos caras apreciam dias chuvosos. Não apenas por causa da semelhança irrecusável, mas porque a chuva era o mais próximo dela que poderiam chegar. Uma lembrança da chegada sempre já chegada; no seu cair, era impossível que Flor já não estivesse lá, indo embora, chegando. Chuva era tudo que restava, como as lágrimas da memória, lágrimas pela memória. Dizia-se que até o céu chorava naquele entardecer. Mas quem se preocuparia com isso? Flor florescia como nuvem negra e, em seu brilho, encobria a tarde. Quem tomasse o brilho e a escuridão em separado, no entanto, talvez esse alguém nunca se tenha aproximado das flores. Mas era o mais difícil não entender.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-7624674959736912584?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/7624674959736912584/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=7624674959736912584&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/7624674959736912584'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/7624674959736912584'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/12/flor.html' title='Flor'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-2555710264028244387</id><published>2011-10-22T14:41:00.000-07:00</published><updated>2011-10-22T14:41:47.997-07:00</updated><title type='text'>Envio da Pri</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;"Bia não gostava de sair do lugar. Sempre preferiu a quietude que seu quarto amarelo lhe dava. Estantes cheias de lembranças, a maioria criadas por ela, um guarda-roupa com roupas em tons pastel, uma escrivaninha e computador velhos e a cama, com revistas e livros por cima. Bia não ouvia música, sempre que podia ficava em silêncio."*&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas não era Bia; era o quarto. Naquele esconderijo, Bia sumia, e não porque tinha a possibilidade de desaparecer, mas porque o próprio quarto a engolia. As paredes eram amarelas, as estantes cheias de lembranças, o guarda-roupas, de roupas e a escrivaninha, de revistas e livros. Demasiado ocupado, demasiado cheio, tudo era sempre em silêncio. Até mesmo Bia, e não porque ali ela podia silenciar-se, mas porque podia ficar em silêncio — e talvez nem precisasse ser nada, pois lhe contentava assistir as paredes sendo amarelas e tudo mais. Fora do quarto, Bia estava abandonada a si mesmo. E como tudo era barulhento! Tudo lhe falava! As paredes já não eram amarelas, mas bravateavam-se de sua espessura, revestimento, capacidade de absorver a humidade, reter calor. Mas Bia sequer podia fazer-lhes alguma pergunta, pois elas tinham todas as respostas — e também as davam antes que a menina pudesse inquirir, vangloriavam-se disso até mesmo. Não que Bia desejasse fazer alguma pergunta (talvez ela nem soubesse perguntar algo!), mas lhe estranhava que as paredes lhe dissessem tanto e nunca lhes dissessem sua cor (talvez até para não lhe dizer). Por isso admirava as paredes amarelas de seu quarto, que pareciam contentes em ser amarelas; não precisavam alarmá-lo, nem ser amarelas, talvez, apenas eram, como Bia, em silêncio. No quarto, desapareciam.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;*O texto veio acompanhado desta notinha: "Posso mudar um pouco tua ideia? Coloco o início de uma narrativa e tu finaliza ela ˆˆ".&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Enviado pela Pri. &lt;a href="http://palavra-oculta.blogspot.com/"&gt;Aqui&lt;/a&gt; e &lt;a href="http://twitter.com/prici"&gt;aqui&lt;/a&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-2555710264028244387?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/2555710264028244387/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=2555710264028244387&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/2555710264028244387'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/2555710264028244387'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/10/envio-da-pri.html' title='Envio da Pri'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-7709844875900506188</id><published>2011-10-22T14:39:00.000-07:00</published><updated>2011-10-22T14:39:00.089-07:00</updated><title type='text'>Envio do Cuca</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Desenrolou o tempo. Estendeu-o sobre uma tábua de passar roupa. Desamassou com ferro os enrugados. Contornou as casas com o ponta quente. Fez o mesmo com os botões. Borrifou água onde estava mais conturbado e alisou várias vezes. Virou do avesso e repetiu o processo. Dependurou no cabide e guardou no armário. E lá ficou o tempo, perfumado, à mercê do mofo outra vez, pronto para a próxima necessidade. Torceu para que fosse logo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Enviado pelo Cuca. &lt;a href="http://www.cuca.in/"&gt;Aqui&lt;/a&gt; e &lt;a href="http://twitter.com/CucaKletz"&gt;aqui&lt;/a&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-7709844875900506188?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/7709844875900506188/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=7709844875900506188&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/7709844875900506188'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/7709844875900506188'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/10/envio-do-cuca.html' title='Envio do Cuca'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-4928120134663942094</id><published>2011-10-14T21:37:00.000-07:00</published><updated>2011-10-14T21:37:59.382-07:00</updated><title type='text'>Um novo pedido a quem ler</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Amigos e conhecidos leitores, eu tenho escrito há alguns anos e isto tem-se tornado uma ocupação. Com efeito, ocupo-me e preocupo-me com o que escrevo aqui de uma maneira que não posso explanar sem deslocar aquilo que lhes quero dizer nesta ocasião.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Assim, porque sinto que há uma distância insuprimível que, cada vez, faz-se nova e de modo novo quando tento alcançá-la e porque é inevitável que como escritor, para este caso, eu me sinta sempre solitário, gostaria que vocês me enviassem algo escrito, temática livre, para que eu o publique aqui. Aqueles que quiserem contribuir, podem enviar-me o que desejarem pelo e-mail guilhermetortelli@gmail.com ou através do link para comentários logo abaixo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Obrigado.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Cordialmente,&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Guilherme&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-4928120134663942094?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/4928120134663942094/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=4928120134663942094&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/4928120134663942094'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/4928120134663942094'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/10/um-novo-pedido-quem-ler.html' title='Um novo pedido a quem ler'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-1402458592129662024</id><published>2011-09-26T13:23:00.000-07:00</published><updated>2011-09-26T18:21:22.012-07:00</updated><title type='text'>Uma breve consideração de "Uma breve taxonomia dos textos acadêmicos"</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Deparei-me ontem com este texto do professor Erick Felinto (&lt;a href="http://poshumano.wordpress.com/2011/09/26/breve-taxonomia-dos-textos-academicos/"&gt;http://poshumano.wordpress.com/2011/09/26/breve-taxonomia-dos-textos-academicos/&lt;/a&gt;) e esboço as linhas que se seguem de modo algum para dizer o que o texto é ou não é, mas como uma tentativa de reflexão pessoal — a única pretensão que acredito poder levantar, e ainda sem saber bem de onde, para podê-lo pensar. Disso e de uma desejada brevidade seguem-se a incompletude e a arbitrariedade desde as quais se principiam estas linhas, pois não acredito que possa dirigir-me com propriedade ao texto como um todo e, portanto, opto por um enfoque bem particular. De resto, desculpo-me com o leitor pela falta de rigor conceitual sob o pretexto furado de tentar pensar o texto sem outro anteparo que ele mesmo. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Antes de mais, creio que a ideia de taxonomia não pode deixar de ser uma possibilidade de se aceder a uma perspectiva autocrítica que toma as rotinas dos autores como caminho para se questionar os motivos acadêmicos, tanto no sentido corrente daquilo que serve como motivação pessoal (crítica que acredito manifesta nos tipos listados) quanto no sentido daquilo em que se transforma o próprio movimento desta vida acadêmica (que acredito estar mais claro na observação final), duas interpretações que não podem dar-se na ausência uma da outra. Assim, se o humor é possível ao menos em dois aspectos (ao menos no que posso percebê-lo), primeiro em relação à adequação daquilo que se diz ao que de fato ocorre sem exaustiva sinalização das contradições ou do humorístico, quase que se restringindo a uma descrição, e segundo sob a pungência com que o texto quase que nos obriga a rir de nós mesmos, creio que é porque a ideia de um método programático pressupõe e aproxima essa mesma risibilidade, irrecusável da parte de qualquer autor, com que o método se esgota em si e termina por não fazer muito por si mesmo (além do humor, julgo que seria uma ótima metáfora para a vida). Nada disso, porém, é o que está em questão aqui.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Naquilo que me concerne o texto, parece-me, antes de uma crítica mordaz ao estilismo, uma exortação do bem pensar que põe a delimitação metodológica ela mesma como caminho (aqui a importância do riso) para a deslimitação. É o que, nesses poucos minutos em que escrevo, posso intuir das palavras do professor quando, ao encerrar o texto, posiciona-se dentro da própria taxonomia e indica o que há de instrutivo nela. Assim, se faço este recurso ao termo deslimitação não quero acenar a um livre flutuar na esfera do pensamento como se bastassem uma simples decisão e a manutenção de um hábito para acedermos à esfera de um pensamento ilimitado; antes, creio, o deslimitar é uma possibilidade que só se pode colocar a partir da delimitação — e inexoravelmente deve recolocar o pensamento dentro de certos limites. Não se trata, como vejo, da busca de um estado perpétuo de emancipação, como se todo estilismo fosse abominável e, já que “nenhum de nós escapa inteiramente à sujeição a algum tipo de maneirismo”, seria obrigação resignarmo-nos a aceitar nossos vícios como marca que está sempre lá para lembrar e rir de qualquer esforço empreendido pelo autor. O que está em questão, parece-me, é a perícia relativa à colocação de limites — não como se cada caso exigisse seu próprio método, como se este apenas flutuasse no ar e restasse ao pesquisador a aposta de escolher aquele que é certo: tal conjectura não seria própria ao caráter criador do método. Assim, o enfoque não recai sobre a proscrição de qualquer estilismo e, se se apregoa qualquer estado perpétuo, creio que este é um estado de exploração vigilante que procura sempre os limites e o limitar-se, não apenas em uma simples objetivação autoconsciente que quer toda empresa reconhecer e justificar, mas uma exploração vigilante que não se deixa cercear e acuar e sabe que precisa construir o acesso ao seu pensamento sempre de novo e de novo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Por fim, sei que esta perspectiva é bastante óbvia e redutora. Pela obviedade, desculpo-me com a crença de que este é um conselho que sempre vale a pena reencontrar — nem que seja para a ocasião de criticá-lo. Pelo reducionismo, com as pretensões (instáveis) que levantei no início do texto. Também não posso julgar com precisão se empreendi aqui tudo que mencionei acima (também não imagino que se possa dar conta disso tudo sem se abrir à perspectiva de outro, daí a necessidade da redação). De resto, a comemoração deste texto foi ocasião para algo diferente do que eu estava acostumado a empreender, pois confesso que senti a pancada dolorosa do texto que, logo depois de me atingir, retirou-se e deixou-me em maus termos comigo mesmo, sem entender direito o que me golpeou.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Cordialmente,&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Guilherme&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-1402458592129662024?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/1402458592129662024/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=1402458592129662024&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/1402458592129662024'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/1402458592129662024'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/09/sobre-uma-breve-taxonomia-dos-textos.html' title='Uma breve consideração de &quot;Uma breve taxonomia dos textos acadêmicos&quot;'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-4315290075795341789</id><published>2011-09-20T17:38:00.000-07:00</published><updated>2011-09-20T17:39:11.814-07:00</updated><title type='text'>A última poesia do planeta em um fim de tarde de setembro</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Havia um tempo já sem resposta de quem ou do que quer que fosse; que eu deixara de inquirir-lhes, porém, também era verdade, de vez que o silêncio deveio em murmúrio. Julguei, portanto, que decalcar o julgamento em poesia seria não sublimar o profano ou profanar o sublime como grosseira estratégia irônica; antes, seria o comprometer-se do autor com a própria ironia através do qual não se perde o poema ou o julgamento, mas oblitera-se ele mesmo na catedral de um intermúndio onde deita seu catre de morte; é a passada inexorável do irônico sob o singelo convite do sedutor, como a lápide do ente querido ornada com flores que, no reconhecimento da morte, entrevê a eternidade — eis ali insculpida a sentença do eterno recuo. “Aqui ele jaz”. É, talvez seja isso: porquanto o prende, liberta. Se sim, talvez na determinação das condições da própria liberdade fustigue pela eternidade ou (es)conjure-a na marca e marque a vitória do nada em uma antecipação simulada que seduz o princípio do real. Talvez também possa ser essa a mesma chaga do questionamento, e acredito que é isso que sangra na última poesia — mas não o posso arguir; cabe ao leitor a decisão relativa a acompanhar-me. Esta última poesia de que falo, de que se trata então? (E acaso aí pode chegar o questionar ou o poetar?) Creio, no que posso respondê-lo simplesmente com o recurso a um pouco de franqueza, estar em questão o emprego derrisório da poesia como extermínio poético enquanto se puder entendê-lo como um passar além dos termos, não de modo deletério (senão talvez aquele sorridentemente pressuposto já na palavra ‘emprego’), como se perfizesse a supressão da barreira no passo, mas irônico, tanto porque, de fato, põe as terminações para encobrir o passo e a si mesmo, quanto porque toma essas terminações como a intuição de um transcendental. Compõe-se assim, a poesia, como o passo e a marca do desaparecimento; dormita como a senha e a senda enquanto se projeta neste e através deste encobrimento. Eis porque tomo a expressão extermínio aqui, não sei se com propriedade, mas isto também não haverá de constituir problema, de vez que estou mais próximo da certeza de não empregar o termo da poesia com igual propriedade. Desta pressuposição de um passar além não se pode, porém, abstrair a aniquilação, e, outra vez, entram em jogo as terminações: ao franqueá-las é difícil precisar se o autor chega a saltar ao absoluto ou se somente consegue ilaqueá-lo na terminação, o que caracterizaria uma armadilha mortal porquanto deixa a destruição penetrar pela fenda aberta, fechando-a no poema e apagando a si mesmo. Não sei quais as condições de validade ou de verdade destas conjeturas — muito provavelmente nenhuma —, mas restaria à poesia afigurar-se não como a fonte onde Narciso (Νάρκισσος) se afoga por ver seu reflexo, mas onde o faz exatamente por não ver ali porra nenhuma — aí onde se precipita o poeta sob o estratagema do sedutor, aí onde já não se tem mais notícias do autor, justamente aí se encontra o testemunho do irônico, mas que também não tarda a se retirar e deixa somente o poente dum fim de tarde do domingo dezoito de setembro. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-4315290075795341789?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/4315290075795341789/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=4315290075795341789&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/4315290075795341789'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/4315290075795341789'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/09/ultima-poesia-do-planeta-em-um-fim-de.html' title='A última poesia do planeta em um fim de tarde de setembro'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-1572977924473956848</id><published>2011-08-22T07:05:00.000-07:00</published><updated>2011-08-22T07:07:48.384-07:00</updated><title type='text'>Madrugada de um verão</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu tinha quinze, ela tinha um carro, malícia, uma garrafa de vodka e o banco de trás livre. Já aí era evidente que ela trazia muito mais para essa relação do que  eu e, com isso, bom, creio que estávamos preparados para praticamente tudo, de uma fuga em alta velocidade à remoção de uma bala, exceto, é claro, para um relacionamento: ela gostava de meninas; eu, de embarcar no carro de desconhecidas na madrugada. Quando buscávamos o oposto, ela flertava com garotos e eu pegava carona com meu pai. Ainda assim, sentado no banco do carona, eu tentava parecer maduro e falava-lhe como as pessoas estavam se distanciando e, de certa forma, tornando-se desconhecidas umas para as outras, mesmo quando compartilhávamos as mesmas questões sobre a vida e tudo mais. Enquanto segurava uma fita K7 do Aerosmith entre os dentes e removia outra do aparelho de som, ela sinalizava que sim com a cabeça, dizia-me que tudo aquilo era muito interessante e mandava-me repetir tudo sem a camiseta. Eu tirava e repetia tudo enquanto ela continuava com o olhar fixo na rodovia, controlando a direção com os joelhos e tateando os botões do aparelho de som, apertando fast forward, em busca da faixa que desejava, e, com a outra mão, tentando apanhar algo sob o banco. Eu dizia a ela que gostava muito de Aerosmith, que Jaded era uma de minhas canções favoritas e que eu havia feito uma pequena versão acústica  envolvendo um violão e uma gaita de boca e, que se ela quisesse, eu poderia tocar para ela sob a lua, na areia da praia. Ela não gostava muito da banda, a fita era de uma amiga, até achava o guitarrista “gatinho”, mas concordava com a parte da praia. Era uma noite de verão com poucos carros e ainda menos pessoas na qual alguns postes perfilados pelo calçadão simplesmente diziam-nos para dirigir por ali e, bem certo, fazíamos, porque não sabíamos bem o que estávamos fazendo ali; talvez eu tentasse conversar para poder beijá-la e ela tentasse beijar-me para poder conversar comigo em algum ponto. Dadas nossas máscaras, elas revelavam mais do que escondiam qualquer coisa sobre nós e, se considerarmos apenas essa falsidade, estava claro que éramos almas gêmeas um para o outro naquela hora da noite. Bom, ao menos para mim as coisas funcionavam daquela maneira e eu poderia bem dizer tudo isso para ela, que responderia: “Sim. Uhum. Legal. Vamos transar.” E perguntava-me: “Olha, tu és tão novinho, já fizeste isso antes?” É claro que eu não tinha feito; eu lhe dizia “Sim, sim” e, no fundo, ela sabia que era mentira, mas queria mais rodar comigo e dar algumas risadas e aquele era o único jeito de mover-me de qualquer outra conversa. Nós ríamos e alternávamos uma bebida e ela terminava por me contar sobre suas amigas, viagens e sonhos. Eu, bom, eu não tinha muito para contar a ela, mas podia dar-lhe a oportunidade de falar de verdade com alguém. Mas, quando as coisas chegaram nesse ponto, acho que eu só queria passar para o banco traseiro com ela; ela, por outro lado, queria uma boa conversa. Dizia-me: “Lembro de um verão em que nós voltávamos da praia com o sol se retirando por trás do mar e tocava essa música.” Era Aerosmith no rádio. Àquela altura, eu já nem gostava muito da banda, mas era claro, sendo falsos, gostávamos muito um do outro. Ou que o outro nos dava espaço para sermos nós mesmos. Até o fim da noite, ao menos. Depois nos separaríamos, eu desceria do carro, abanaria para ela e me encarregaria de me livrar das embalagens de bebida. Nós ainda nos encontraríamos em outras festas. Ela sempre com as amigas, eu sempre sozinho.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-1572977924473956848?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/1572977924473956848/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=1572977924473956848&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/1572977924473956848'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/1572977924473956848'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/08/madrugada-de-um-verao.html' title='Madrugada de um verão'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-976577602965432555</id><published>2011-08-14T11:26:00.000-07:00</published><updated>2011-10-15T22:07:00.517-07:00</updated><title type='text'>Lieberdade</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;(ou um pouco do que acredito)&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Lieberdade é um pequeno trocadilho com o verbo lieben (ou verlieben que, se fosse dar continuidade a essa brincadeira, creio que relacionaria com verdade) e, com ele, intento não delinear um neologismo, mas adentrar um pouco mais essa escuridão onde mantenho o pensamento na diferença e tento trazer a diferença ao pensamento (ou à diferença o pensamento) — consciente dos riscos, dos erros e das incertezas de tal veleidade, no entanto. Assim, creio que tenho essa necessidade de dizer o quão desconfortável me sinto ao escrever um texto como este, porque não me é fácil pensar o que penso; ao tentar expressar minhas ideias sob uma luz que não tenho, sinto-me ab-rogá-las no mesmo ato em que as tento encontrar, como se só restasse um pastiche, um rascunho derrisório ou o manequim de tal ideia. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Há algumas horas eu conversava com um amigo e ele me perguntou: “Supondo que tu morras amanhã, o que teria te faltado na vida?”. De pronto respondi-lhe: “Um propósito.” Sim, um propósito seria bom para começar (outros talvez digam que é preciso começar e, daí, encontrar um propósito). Mas, decerto, minha resposta tornou-se incômoda para mim — e digo até mesmo que funcionou como um propósito, eis que a atirei na minha frente e pus-me a correr atrás dela. Creio que há aí alguma semelhança em relação à maneira como lidamos com nossos propósitos. No mais, apenas tentei entrever algumas coisas que me advieram este ano e que, mais ou menos, tenho como norte. Supondo, claro, que é para o norte que todos nós nos dirijamos. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Volto, então, ao lieberdade. Bom, acho que aqui é importante ter em mente o seguinte: a ideia de liberdade, a ideia de lieben e o fato de que esta palavrinha que utilizo trata-se de um trocadilho. Comecemos por este último: tomei como paradigma a busca dessa aptidão para tratar alegremente com tudo aquilo que, em minha opinião, há de mais sério. Creio que se trata menos de uma recusa de assumir a seriedade de tudo (sim, em algum ponto ainda se trata disso), mas uma tática de resistência à aspereza, ao desespero e à sofreguidão. Vir à luz nas coisas na jovialidade tornou-se uma manobra de resistência contra mim mesmo, um meio (que terminou por tornar-se fim) de não me deixar possuir por mim mesmo, por minhas ideias (salvo, exceto, pela ideia de lieberdade que tomo aqui pra ilustrar este paradigma noológico possessivo), por minhas ambições e encontrar um caminho para recuar ante isso tudo. Por fim, creio que aprender a rir de si mesmo e de seus assuntos seria uma admoestação razoável para muitos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sobre liberdade e lieben, não é meu intento esquadrinhar ou excogitar tais palavras aqui e, portanto, permito-me utilizá-las em um sentido mais ou menos usual. Mas, de reboque, desenvolvi enorme apreço por esta pequenina disposição a escutar e a atentar, de forma que ela mesma é elementar a este trocadilho (e creio que complementa e contrapõe-se a essa mesma ideia). Bom, sobre a liberdade, então, creio que a tomo menos em um estado ser e manter-se livre do que em um viés que procura a autonomia, ou seja, a aptidão de libertar-se. Novamente, esta ideia faz parte da dança (dá um passo atrás e põe-se a frente) e enleia-se com a ideia de criatividade. Trata-se menos de ancorar-se no porto seguro da liberdade do que se esforçar para nadar neste mar de incerteza, de tomar os entraves como condição (e motor) para travar com o que for. É, de alguma forma, uma assunção dos limites, mas de forma alguma uma assunção resignada, sempre irrequieta e aguerrida, mas, ainda assim, uma assunção.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Por fim, creio que lieben acaba meu pequenino esforço. Um amar que, ao mesmo tempo que complementa, volta-se contra tudo aquilo recém exposto, que faz medrar (e medra em) as ideias de compreensão, religação, comunhão. Não como tentame de encontrar e estabelecer um harmonioso meio-termo, mas como auto-atribuição conflitual, uma responsável por alentar a luta, incender o espírito, fazê-lo voltar-se, de chofre, contra o que empreende, acoroçoar uma autocrítica e uma inquietude assentadas sobre a capacidade de não perder o humano no homem. Amar, aqui, é com-preender(-se), é uma estranha inquietude carinhosa que quer ser e deixar-ser, que reconhece a alteridade e devém na diferença, não perdendo a vista e não perdendo de vista.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;São estas as partes.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eis um pouco daquilo que acredito.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Cordialmente,&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Guilherme&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-976577602965432555?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/976577602965432555/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=976577602965432555&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/976577602965432555'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/976577602965432555'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/08/lieberdade.html' title='Lieberdade'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-1142191143628203489</id><published>2011-08-08T21:34:00.001-07:00</published><updated>2011-08-13T20:51:49.746-07:00</updated><title type='text'>Genialidade</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não posso escusar-me da maior idiotia do homem: querer ser gênio. Ah, sim, atormentaram-me  esta pequena insensatez e a perspectiva de um texto que lhe almejasse tratar e desvelar, tal qual a pronunciar pronunciasse também o exato inverso e, dispondo-me no lugar daquele que reconhece sua própria idiota, acedesse-me à condição da genialidade. Sim, sim, parece-me agora que aquele (eu) que se encontra com o próprio gênio encontra-se também com a própria idiotia e tem, talvez por uma primeira vez, o ensejo de endossá-la. Ainda assim, é o gênio que põe o homem à frente e o refuta ao convocá-lo uma pergunta, de modo que, em vez de perguntar a ela, o homem pergunta a si mesmo e escamoteia o estranhamento (com o) que lhe é presenteado para por, ele mesmo, a sua medida (como medida de todas as coisas). Mas, peço que entendam a dificuldade e a angústia que tenho em escrever um texto como este; peço, porém, que entendam também a extrema necessidade que tenho de fazê-lo; peço que me desculpem por utilizar-me de “os homens” para referir o meu caso e peço, por fim, a clemência e a força de espírito do leitor para que, sem deixar de me julgar, não me julgue; para que saiba que, para enfrentar esta sombra insistente, precisei abraçá-la e deixar-me dilacerar por ela. Sei que são muitas as solicitações que faço, mas não desejo mais que uma compreensão que me compreenda sem deixar de compreender a ignomínia do que faço. Sim, é isto que desejo: a justa compreensão que me entenda sem absolver meus pecados, eis que respondo por eles. Assim, creio (e digo) que bem sei ser vasto o matiz de gênios e penso, até mesmo, que me dirão não dispensarem o homem todas as coisas do homem, passarem por ele todos os seus assuntos, e, portanto, que aquilo que coloco aqui não teria lugar senão em uma imaginação febril. Sim, bem sei disso e, como tal, anuo a esta opinião; estou igualmente cônscio do opróbrio que é pronunciar, em minhas palavras, o homem — tanto por simular conhecer o que desconheço, quanto por pretender ser mensageiro do mistério para o homem e do homem para o mistério, quanto por solicitar clemência por isso. Para mim e, creio, para tantos outros, isso é o que há de mais abominável, mas novamente trato do homem aqui quando queria dizer apenas eu. Quero dizer eu (ou Queria dizer eu) (ou Queria dizer eu quero dizer eu). Mas como? E, outra vez, não é essa a pergunta que dissolve o gênio? E não é através dela que recua e põe-se a um passo de perguntar-se “que é isso?” ou “como tratar com isso?” Sim, sim, parecem duras essas palavras sobre uma das mais magníficas potências criadoras e que, no concernente ao verdadeiro gênio, isso não se aplica. Sim, mas não é o que falamos de tudo que é verdadeiro? Parece-me, assim, que não há a possibilidade de um poetar que ablega a destruição; arrisca sempre dissipar tudo ao dissipar-se a si mesmo — e ainda assim faz a aposta. Quanto a isso, creio, em nada diferem a genialidade e a idiotia, à exceção de essa resguardar-se no querer postar-se incólume ao termo de tudo que empreende e aquela exterminar-se para encontrar a si mesmo e dizer “ah, sim, eu sobrevivi a mim mesmo” (ou bem "eu sobreviveu") aquando se dá conta de nada mais ter e deixa já tudo para trás. Mas, por fim, e outra vez, esta não é senão a minguada opinião de alguém que não pode escusar-se de querer ser gênio e de querer, ele mesmo, eu mesmo, por a genialidade. Por favor, perdoem-me. Peço com sinceridade.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-1142191143628203489?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/1142191143628203489/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=1142191143628203489&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/1142191143628203489'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/1142191143628203489'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/08/genialidade.html' title='Genialidade'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-6753599547478962038</id><published>2011-07-19T22:35:00.000-07:00</published><updated>2011-07-20T10:26:20.312-07:00</updated><title type='text'>Pequenino manual de como não chegar em uma mulher</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Abordar mulheres, tanto na rua, em plena luz do dia, quanto em ambientes festivos, não é uma ciência exata. No entanto, há algumas práticas ótimas e outras não tão ótimas, que devem ser evitadas a qualquer custo. Certo, não há método infalível e, justamente por isso, este pequenino manual de como não chegar em uma mulher procurará ocupar-se brevemente dos ‘nãos’. O intuito é minimizar eventuais pontos negativos e, dessa maneira, deixar o caminho livre para que o leitor possa desenhar suas próprias estratégias com maior lucidez e segurança. Assim, em primeiro lugar, é desejável que você jamais discorde de uma mulher. Discordar é uma maneira de repeli-la e, assim, caracteriza uma afronta àquilo que ela acredita. Da mesma maneira, também é desejável que você jamais concorde com uma mulher, de vez que o simples ato de concordar deixa transparecer uma possível falta de personalidade que facilmente dará a entender que você apenas está concordando com ela para obter algo em troca. Porém, isso pressupõe que você já a tenha abordado. Em caso negativo, uma boa abordagem deve dispensar elogios à aparência dela. Na verdade, deve dispensar quaisquer elogios, uma vez que você mal a conhece e não dispõe de intimidade suficiente para elogiá-la com autenticidade. Sendo assim, qualquer ato de autenticidade está igualmente descartado, pois o que quer que você faça autenticamente remete a você, você e você, e o assunto jamais deverá ser você, já que isso demonstra indiferença, egocentrismo e certa arrogância. Igualmente, o assunto também não deverá ser ela; você não quer interroga-la, inquirir sobre sua vida e entrar em detalhes específicos pelo simples fato de você não a estar investigando, o que a assustaria. O próximo passo é não sorrir. Não, não sorria. Não sorria de modo algum. Sorrir de imediato é um artifício baixo e claramente desesperado. Não o faça a menos que haja algo estranho com a maquiagem dela. De fato, não o faça nem assim. Também é desejável que você não fique sério. Ficar sério demonstra indiferença e indiferença, neste caso, quer dizer que você não dá a mínima para o que ela pensa. Porém, não pergunte o que ela pensa. Soará estranho como uma intrusão, uma invasão à intimidade dela. Do contrário, também não diga o que você está pensando, de vez que pouco interessa a ela o que você pensa ou deixa de pensar. Portanto, não cometa erros. Mulheres não se sentem atraídas por homens que erram. Errar demonstra uma certa nebulosidade de raciocínio ou de personalidade que a levará impreterivelmente a ver através de você e possivelmente repeli-lo. No entanto,  não seja perfeito. Você estará se esforçando demais. Você estará tentando agradar a qualquer custo, sacrificando sua naturalidade para fingir ser algo que você não é. Dessa maneira, não seja rígido, pois certamente as mulheres não desejam alguém que lhe dá ordens. Porém, também não acate às decisões dela, uma vez que ceder demonstrará falta de personalidade e de iniciativa própria. É importante também que você não tente ser humano. Na verdade, é importante que você não tente ser coisa alguma. Não tente até mesmo não tentar. Não se esforce de maneira alguma, pois esforçar-se é demasiado agressivo e incomodativo. Porém, não deixe de fazer alguma coisa, já que ela não chegará sozinha em você. Por fim, não demonstre qualquer dúvida ou insegurança. Mulheres detestam homens inseguros. Boa sorte.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-6753599547478962038?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/6753599547478962038/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=6753599547478962038&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/6753599547478962038'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/6753599547478962038'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/07/manual.html' title='Pequenino manual de como não chegar em uma mulher'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-756739790276844203</id><published>2011-07-19T14:40:00.000-07:00</published><updated>2011-07-19T14:52:24.275-07:00</updated><title type='text'>Fazemos o que temos de fazer</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;18 de julho&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Enquanto digito estas linhas, estou com a mochila pronta e também prestes a pular num ônibus sem muito dinheiro. Isso não é importante. Também não é como se, pelo simples fato de eu registrar algo aqui, este algo torne-se importante. Isso, contudo, já é conhecido do leitor. Acontece que senti vontade de escrever sem, entretanto, vontade de qualquer outra coisa, anteparo de qualquer outra coisa. Dir-se-ia que tenho apenas meio caminho andado para a escrita, ou nem isso, e que, em tantos casos, escrever é meio. Que escrever, neste momento, seja o caminho de uma busca que se encaminha ou en-caminha. Talvez, ainda, o problema não seja a escrita, mas o que fazer com minha vontade. Ou, mesmo antes disso, a senda que abre esta própria questão — de modo que recuar sempre seja uma possibilidade. Foda-se.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;19 de julho&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Bom, abandonei o texto ontem. Faltou-me dinheiro para o ônibus, mas consegui uma carona até a praia. Na verdade, eu havia chegado do hospital ontem à tarde, juntado uma muda de roupas e decidido pular fora para qualquer lugar. Dei sorte. Cheguei à noite com a casa ainda vazia, preparei a lareira e, com a chegada de meu pai, tomamos café juntos. Depois de visitarmos minha avó, ateamos fogo em alguns poucos tocos de lenha na lareira, na frente da qual permaneci até as primeiras horas da madrugada ouvindo uma rádio AM local que, entre as notícias e os anúncios da temperatura, atendia às solicitações musicais dos ouvintes. Acordei ao cantar dos pássaros e ao marulhar das ondas. Desde a noite, o frio sistia junto a uma brisa leve que me dizia para continuar sob as cobertas ao acordar. Até o entardecer, caminhei vagarosamente na praia tomando chimarrão quente, sopesando todos aqueles problemas que nos afligem tão costumeiramente: amizade, amor, destino, fortuna, tempo — em ordem alfabética. Não que eu tenha uma doutrina assertiva sobre a vida. Ao contrário, creio que minhas dúvidas são mais assertivas do que quaisquer convicções que eu tenha hoje, que resplandecem apenas por alguns poucos segundos antes de me dizerem, nesta ordem: “Você é um completo idiota por pensar isso”, “Você é um completo idiota por pensar”, “Você é um completo idiota”. De fato, dizem-me apenas: “Você”, “Você”, “Você” ou, em primeira pessoa, “Eu”, “Eu”, “Eu”, de modo que apenas quero escusar-me de eu dizer eu e, por conseguinte, eu dizer, até que sejam apenas a “Praia”, o “Sol”, a “Areia”, o “Mar”, as “Ondas”, a “Solidão”, o “Frio”, o “Chimarrão”. Daí penso nisso tudo e vejo que, embora esta seja minha maior preocupação, preparei-me a vida inteira para a morte enquanto trilhei o caminho do desaparecimento que deixa brilhar por um momento antes de dizer “Você foi um idiota por viver”, mas ainda eu vivi e convivi com o viver e sou culpado por isso. E assim eu observo o céu, como quem observa o teto da vida, e assim eu converso com o horizonte, como quem conversa com as paredes da vida, e assim eu procuro um velho sentimento, como quem procura a vida dentro da vida. E assim eu penso, mas não falo, em todos que pensam, mas também não falam. Naqueles que pensam “eu te amo” e brigam, naqueles que querem se conhecer e se cruzam evitando o olhar, naqueles que se perguntam a si mesmos pelos outros e perguntam-lhes apenas sobre os jogos, os carros, as vestimentas, os livros e os filmes. Não que haja algo errado com isso, mas é algo que me incomoda. Como também me incomoda pensar isso. Como também me incomoda pensar. No final, acho que fazemos o que temos de fazer e rimos de nós mesmos e de nossa idiotia.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-756739790276844203?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/756739790276844203/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=756739790276844203&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/756739790276844203'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/756739790276844203'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/07/fazemos-o-que-temos-de-fazer.html' title='Fazemos o que temos de fazer'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-1722576732927187624</id><published>2011-07-13T12:04:00.001-07:00</published><updated>2011-07-13T12:05:11.163-07:00</updated><title type='text'>Um dia, num bar</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;(ou Uma história que não é redonda)&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Essa história começa em algum bar, mais ou menos uns dois ou três anos atrás. Não porque tenha, de fato, acontecido lá, mas porque bares são bons lugares para se iniciar histórias. Eu acho, ao menos. Também porque “um bar” define mais do que identificar uma cidade, um horário, uma estação e daí um bar, como Pub Noturno, mesmo porque os bares agora viraram pubs. “Um bar” quer dizer que essa merda toda não interessa e que poderíamos estar tendo aquela conversa em qualquer lugar simplesmente porque aquela conversa era qualquer conversa. Falamos um pouco da vida, tomamos algumas cervejas, não interessa como chegamos lá. De fato, não interessa nada de nossas vidas antes de nos encontrarmos no bar e dar ocasião a esta história. É isso que se diz com “falamos um pouco da vida”, que quer dizer o mesmo que “tomamos algumas cervejas”, que diz: “Um dia, num bar, mais de vinte anos velhos, bebendo cerveja. Nada disso interessa.” A hora é agora. Ele me diz:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;— Estou caindo fora.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Diz como quem realmente está caindo fora. Isso me preocupa, quando as pessoas dizem aquilo que dizem. Isso não estava incluído em “um dia, num bar, mais de vinte anos velhos, bebendo cerveja” e talvez seja aí que essa história se inicie. Menos por começar uma série de eventos extra-ordinários; mais por pontuar, embalar e descartar tudo aquilo que precedia aquele dia, naquele bar. Assim, colocamos o antes na mesa. Já não sei o que é importante e empalmo a garrafa de cerveja para conversar com o rótulo:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;— Isso é engraçado. Cair fora. Cair... fora — sinalizo com uma mão como se estivesse separando uma palavra da outra e pesando-as em separado. — Somos bons nisso, em beber cerveja e cair fora.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele também olha para o rótulo e busca o que eu busco. Mas o rótulo só me diz: mantenha as coisas no bar. Pelo vidro marrom, a diferença traz a melancolia. Não é a cerveja, é o vidro; olhamos de fora e, pelo vidro, dizemos: estamos todos caindo fora porque é olhando pelo vidro que o podemos dizer. E ainda assim o rótulo diz: mantenha as coisas em “um dia, num bar, mais de vinte anos velhos, bebendo cerveja.” Mas já há mais coisas na mesa e a história deixou irromper-se por tudo aquilo que não era propriamente da história mas anterior e necessário a ela, atirando-a para trás e cobrindo-a com o lençol de tudo aquilo que já tinha rolado até o momento e tinha possibilitado aquele encontro, como quem diz: “Um dia, num bar. Qualquer dia, em qualquer bar. Foda-se.” A verdade é que aquilo poderia ter acontecido em qualquer dia. Mas o dia era aquele, era o dia de cair fora, era o dia em que ele cairia fora, esse era o pior de tudo. Era o que me ofendia: até a frase, até a decisão, era eu quem estava narrando esta história e me cerceando lentamente de todos os atos, de todos os fatos, do rebolar da garçonete estranhamente prestativa que deixava transparecer um quê de verdade sob seu sorriso programado, do garçom que, postado a poucos metros de minhas costas, mirava os quadros que refletiam a nossa conversa. Daí o cara fala:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;— Estou caindo fora. Foda-se o garçom, foda-se a garçonete, foda-se essa história, foda-se esse bar, esse dia, foda-se. Estou caindo fora.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Era isso que eu via através da garrafa de cerveja, era isso que estava escrito no rótulo. Verti a garrafa sobre o copo de vidro, enchi-o e passei a  garrafa adiante. Não há o que dizer nestas situações. Na verdade, não há nunca o que dizer. A maioria dos caras percebe isso e compensa mantendo os copos sempre cheios. Mas, creio que não era o caso ali. Algo já havia sido dito e pairava suspenso no ar. Eu precisava apanhá-lo, era o meu movimento. Eu mirava-o através do vidro, como quem se aproxima sorrateiramente da presa sem deixar que ela perceba e, no instante instantâneo, ataca. Mas a frase não me vinha, o algo escapava... aliás, eu sequer havia-o avistado e, quando me apercebi, enchi o copo. Disse-lhe, sorrindo:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;— Um dia, qualquer dia, nesse bar. Aliás, você volta?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;— Se tudo der certo, não.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Que pergunta estúpida. Eu era estúpido. Ninguém cai fora para voltar. Essa é a ideia do cair. É quase natural, é um escorregão, é o lugar, é a cidade, é o bar que te expulsa e, quando você está na margem, na estrada, na porta, ele dá um tapa nas costas dizendo: “Foi bom te receber aqui”, já te empurrando para fora e, quando você cai, ele diz: “Opa, você caiu.” Ninguém cai fora para voltar porque nós não temos mais negócios nas redondezas, ou talvez nós mesmos nos expulsemos dos lugares. Isso eu não saberia dizer, mas eu formularia assim: “Eu acho que somos nós mesmos que nos expulsamos dos lugares. Nós nos modificamos vagarosa e imperceptivelmente enquanto o lugar permanece imutável.” Eu formularia assim porque é assim que as pessoas formulam as coisas: primeiro nós dizemos uma coisa que achamos; depois, dizemos outra coisas que também achamos, mas dizemos como se aquilo reunisse todos os fragmentos da certeza neste mundo. “Eu acho que você deveria tomar uma cerveja. Cerveja cura a gripe” ou “Eu acho que eu também quero cair fora. Não há nada mais para mim aqui” como quem escreve: “um dia, num bar, mais de vinte anos velhos, bebendo cerveja, caindo fora” em qualquer lugar — cidade, estado ou país — e para qualquer lugar, fazendo qualquer merda. Outro dia, outro bar, outra cerveja. Ele levanta, eu levanto. Apertamos as mãos. Deixamos o bar. A grana e o passado ficaram na mesa. O garçom interpela-nos:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;— Como acaba?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Corta para semana passada. Num bar.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-1722576732927187624?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/1722576732927187624/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=1722576732927187624&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/1722576732927187624'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/1722576732927187624'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/07/um-dia-num-bar.html' title='Um dia, num bar'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-3461873377857067556</id><published>2011-07-12T16:47:00.000-07:00</published><updated>2011-07-12T17:07:42.648-07:00</updated><title type='text'>À sombra</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Chegamos nas cidades, pegamos algumas cervejas e vamos procurar o mar. Não estou dizendo que isso deva ser incluído em um manual das boas práticas ou que deva ser motivo de admiração. Certo, não é motivo de admiração nem para nós mesmos. Talvez de espanto, um espanto morno com nossa própria ignorância que se achega na calada da noite, como se suplicasse para que alguém falasse algo. E, ainda assim, quando alguém fala o que se segue é um: Não, não fale. Como quem diz: você sabia que deveria falar, nós o pedimos, mas ainda assim não o deveria ter feito. Não há uma boa resposta que se possa dar nessas horas. Insistir, demonstrar caráter, afrontar-nos com nossos erros; é mais do que isso que está em jogo. O caráter que nos interessa é aquele de quem se recolhe no silêncio que acolhe o próprio erro e o demonstra com um gesto de humildade, de humanidade. Nas nossas rodas, essa atitude vale a cerveja mais gelada do isopor, mas isso porque somos mais ignorantes que essa escuridão, mais escuros, mais espessos e dizemos: nossa burrice termina aqui. Terminar, no entanto, não significa um deixar de insistir sobre nós, mas antes encontrar os próprios limites; não para ultrapassá-los; para não deixar que nos ultrapassem. Nos círculos somos aqueles que somos e dali, na condição de não podermos escapar, escapamos. Certa vez deixamos a noite avizinhar-se e preparamos uma fogueira à beira-mar. A madeira foi coletada de antemão e carregada no porta-malas de nosso carro premeditadamente; quando já não havia luz, acendemo-la e revivemos os fantasmas de algumas histórias passadas. Dissemos isso: Chegamos nas cidades, pegamos algumas cervejas e vamos procurar o mar. Às vezes somos procurados. Não pela polícia, no entanto. Também não somos problema, creio, senão para nós mesmos possivelmente. Digo, algumas pessoas nos procuram e dizem com suas bocas: vocês chegaram na cidade, pegaram algumas cervejas e encostaram aqui no mar. Mas perguntam-nos com seus olhos aquilo que ninguém pode perguntar e que o fogo faz pronunciar assim: o que é a vida? ou qual é o segredo? ou como vocês fazem isso? ou simplesmente faz com que as pessoas deem uma sonora risada com os mesmos olhos depois de um bom gole de cerveja. Nesses casos, nossa noite costuma terminar aí, porque aquilo que não pode ser perguntado também não pode ser respondido e, para quem não tem essas perguntas, todas as respostas estão erradas ou todas as respostas são perguntas, mas essas perguntas também não podem ser formuladas e assim respondemos a nós mesmos como quem não diz nada e anuímos a isso de bom coração — é o que se afigura no rompante de silêncio que inevitavelmente se impõe e solicita-nos o respeito de não lhe encobrir — mas os outros, eles não nos entendem e dizem: são um bando de desocupados que não dizem as coisas com clareza e que, quando se deixarem levar pelo mar, ainda nos darão o trabalho de recolher estas latas e garrafas de cerveja. Mas ainda assim sentam conosco, bebem da nossa bebida, cantam nossas músicas, aquecem-se ao nosso fogo e compartilham de nossos segredos. Depois, às vezes, deixam-nos ofendidos com nossa ignorância. Não fazem isso de má índole, no entanto; fazem-no em respeito ao nosso pacto que diz: “nenhuma ignorância sairá daqui”; fazem-no porque procuram a música, o fogo, a bebida e o mar e, quando estes lhes falam, eles lhes dizem: “Com licença, não estás me deixando ouvir a música, aquecer-me ao fogo, saborear a bebida e enxergar o mar” e fazem-no, principalmente, porque nada podemos fazer senão rirmos uns dos outros, e o riso, por muitas vezes, é intolerável. Juntamos os resíduos e as cinzas, dormimos no carro e pela manhã nos tornamos invisíveis, pegamos nossas ondas, escrevemos nossas poesias, fazemos nossas músicas e desaparecemos em nossas sombras.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-3461873377857067556?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/3461873377857067556/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=3461873377857067556&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/3461873377857067556'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/3461873377857067556'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/07/sombra.html' title='À sombra'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-5221850889707194150</id><published>2011-06-26T14:06:00.001-07:00</published><updated>2011-06-28T11:43:17.749-07:00</updated><title type='text'>Os casacos do inverno</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;As mulheres e seus casacos de inverno. Sim, sim, eu mesmo fiquei alguns anos preso nestes casacos. Não que isto me incomode. Não, de modo algum. Mas nestes anos conheci alguns bons casacos de inverno e, claro, algumas boas meninas que os traziam. Mas sempre me chamaram a atenção os casacos. Eram imensos e cobriam o corpo inteiro os coats. E os botões. Formam figuras geométricas equilibradas e simétricas mais ou menos à altura do peito, donde alguns conseguem suster-se devido a um pequeno cintinho, normalmente do mesmo material do casaco, que espreme a cintura e insufla o espaço entre os tais botões. Eles dizem: tá tudo bem, e apertam nossas mãos. São os olhares ou o sorriso dos casacos, supondo que você seja uma pessoa de olhares ou de sorrisos, claro. Outros já não tem o tal cinto nem os tais botões; um zíper, neste caso, cumpre função parecida, mas termina por eliminar um pouco do mistério dos próprios casacos. Eles dizem: você pode abrir ou você pode fechar. Mas os botões perguntam: você prefere com botões à mostra? E quantos botões você prefere? E ainda sugere: fechado pode ser tão atrativo quanto aberto. Eu gostava de ver quatro, mas com o tempo comecei a gostar de seis e hoje prefiro os de oito botões. No entanto, nunca gostei de zíperes, e esse era meu segredo compartido com os casacos, pois a maioria também não gostava deles. Alguns até mesmo tinham excertos que permitiam escondê-los. No início eu via isso com maus olhos e reputava os casacos de insinceros e falsos casacos. Com o tempo, porém, passei a respeitar esses artifícios; era a tentativa dos casacos de se dissimularem como casacos. Nesse aspecto, os botões ofereciam uma dissimulação quase completa, somente complementada, pelo que me lembro, pelo par de meias ideais. Aliás, quanto mais botões, menos eram os casacos e mais eram as mulheres, e este índice mesmo era acabado pelas texturas. Por um tempo só me atraiam as texturas lisas com uma única cor sólida, mas passei a apreciar igualmente texturas xadrezes ou riscadas mais ásperas, com cores harmoniosas. As meninas me diziam: olha. Eu respondia: o casaco está bonito. E eu? Você também. Às vezes elas me perguntavam por elas e eu dizia: você está bonita. Você gostou do casaco? Sim, o casaco é muito belo. Eu me perdia nessa confusão; ora eu olhava o casaco, ora eu olhava a menina que o vestia. Nunca tinha, porém, a resposta certa. Também analisar os dois não era mais certo. Também não era mais errado. Mas elas não queriam dizer: como eu fico com este casaco? Perguntavam só: como eu estou? ou: que tal? ou: você vê a mim ou ao casaco?, mas como quem pergunta: este casaco desaparece o suficiente? Não era uma questão de escolher um ponto de vista, de optar pela menina ou pelo casaco. Os bons casacos eram menos casacos. Sim, sim, com o tempo eu passei a apreciar mais os casacos do que as mulheres os apreciavam. Quero dizer, desenvolvi uma terna simpatia pelos casacos que as meninas vestiam e, quando elas os tiravam, eu dizia: você é muito bonita, deixe-me apanhar este belo casaco para você. Eu dizia: está tudo bem para vocês dois. Você é bela, tem também um belo casaco. Ao final de tudo, as coisas corriam mais ou menos como os bons sorrisos ou como os grandes olhares, isso quando você costuma passar direto por esses sorrisos ou por esses olhares. Ou esbarrar neles. Mas os bons sorrisos eram aqueles que desapareciam melhor e deixavam aparecer as mulheres escondendo-as mais. Assim como as grandes mulheres eram aquelas que desapareciam melhor e deixavam aparecer os sorrisos escondendo-os melhor. Como os bons casacos. Mas isto também depende se você for uma pessoa de sorrisos e de olhares. Ou também de casacos, como acontece de ser o meu caso.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-5221850889707194150?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/5221850889707194150/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=5221850889707194150&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/5221850889707194150'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/5221850889707194150'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/06/os-casacos-de-inverno.html' title='Os casacos do inverno'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-7959584226101754411</id><published>2011-06-11T14:17:00.000-07:00</published><updated>2011-06-28T11:44:22.021-07:00</updated><title type='text'>Os lobos</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Esta história, de fato, não ocorreu comigo; fui apenas ouvinte presente numa roda onde meu a pai contava. Considerado isto, não a recordo com precisão, mas será desta maneira que a passarei adiante, imprecisamente, pois creio que assim poderei fazer-lhe mais jus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do velho em questão sei pouco. Sei que mantinha uma humilde cozinha em uma esquina um pouco escondida na rua Sete de Setembro — era um cômodo modesto e desajeitado que os frequentadores, entre eles meu pai, designavam por bar e pelo qual tinham grande apreço. Os homens reuniam-se ali, usualmente já ao cair da noite fria, para beber e cozinhar. Eu estive presente lá, ao que me recordo, duas vezes no ano de 2010, as duas para realizar entregas, sendo a primeira uma sacola com os ingredientes de um mondongo e a segunda a garrafa de um vinho chardonnay encomendado pelo velho na ocasião de uma viagem que empreendemos a Rio Branco. O cômodo era de proporções bem humildes: abrigava, além de umas cinco cadeiras recostadas nas duas paredes laterais imediatas, uma mesa mínima que suportava duas cadeiras dispostas frontalmente. Uma bancada abstraia este pequeno espaço de uma cozinha na qual poderiam transitar, não sem certa dificuldade, duas pessoas. Atrás desta bancada o velho firmava sua cadeira e acalentava as discussões que tomavam conta do ambiente, normalmente aos berros e palavrões, deixando que sua mulher operasse a cozinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O boteco e o velho eram um mesmo: o aspecto do senhor era tão definhado e desabrido quanto o estabelecimento que pretendia controlar; era um velinho já passado dos oitenta, macilento e esquálido de trajes pobres cujo pouco cabelo que lhe restava tratava com desleixo e mantinha escondido sob uma vetusta boina, companheira de anos. O cômodo transmitia a mesma impressão: lembro-me do reboco da parede já deteriorado e das cadeiras de plástico também antigas, do piso recoberto por tijoletas cor terracota e da senhora que sempre me presenteava com balas de menta. Para mim, é tudo parte da mesma memória. A despeito da índole indócil e do trato difícil, eram boa gente; aquando minha mãe e meus tios estiveram internados no hospital, ligavam regularmente aqui para casa a fim de oferecer seus préstimos e de averiguar a condição de saúde de meus familiares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A última vez que ouvi falar do velho foi por meu pai. Revelou-me que, embora ocupasse o local havia uns seis anos, a propriedade não era sua e que pouco tempo atrás perdera a ação de usucapião; tendo em vista sua minguada condição financeira, encontrou-se sem possibilidade que não abandonar o bar e mudar-se para uma bairro às margens da cidade juntamente à sua esposa. Decerto, tinha pouco mais que uma malinha com roupas para levar, afora alguns móveis que pode transportar em viagem única na caminhonete de um afiliado. A despedida, contudo, não foi tão fácil. Junto de meu pai, fui despedir-me do senhor e lembro-me do olhar melancólico na face do velho ao dar adeus à morada, já de costas para evitar que o que quer que fosse lhe acometesse a memória de última hora. Perguntou à esposa se pegara tudo e, após a confirmação, embarcaram, ela na cabine e ele na caçamba, segurando o mobiliário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há pouco tempo, meu pai foi visitá-lo em sua nova morada. Contou-me que o local parecia compreender um cômodo único em cujo centro de atenção armava-se a cozinha. O restante das peças — uma cama com um criado mudo que funcionava como um quarto — armava-se à volta deste pequeno círculo imaginário. Lá encontrou o velho, recostado sobre o catre alguns metros distantes de um fogão metálico arcaico, daqueles que tanto já não se fabricam quanto não se descrevem mais, onde queimavam os tocos de lenha que mantinham o lugarejo aquecido. A casa era tanto ou mais humilde que a velha cozinha, à exceção de que agora havia ali pouca conversa e pouca bebida que não café ou o mate amargo que o velho gostava de tomar. Conversaram por algumas horas e retomaram algumas boas histórias de todos aqueles anos, revezando a cuia. Foi numa destas trocas que ambos hesitaram e que se assomou o silêncio. À exceção do crepitar da madeira, ouvia-se somente o vento batendo as janelas de madeira contra suas respectivas armações; era o ruído da noite fria. O velho apanhou a cuia com cuidado e disse ao meu pai com um misto de calma e de preocupação: "Shhh! São os lobos." Em seguida, o silêncio instalou-se por detrás das labaredas e do vento e, quando a chaleira chiou sobre o fogão, o fogo extravazou a portinhola e eles sentiram o calor em seus ossos. Deixaram que o fogo fosse um instrumento para chorar; o velho abraçou meu pai e chorou em absoluto silêncio pela eternidade de um minuto. Com os olhos estivados de lágrimas, agradeceu-lhe pelo companheirismo verdadeiro e por tudo que havia enfrentado em sua causa. Meu pai foi firme e disse-lhe que nada precisava agradecer, retribuindo o abraço. Com o rosto então às costas do homem, pode também chorar em seu silêncio por alguns poucos segundos. Antes de soltarem-se, enxugou rapidamente os olhos e deu a conversa por encerrada, despendido-se já enquanto apanhava seu casaco do encosto da cadeira e trilhava seu caminho fora do local agradecendo pelo chimarrão. Ao cruzar a porta, chorou mais uma vez e, depois, sentado no banco do carro, apanhou um terço e orou pelo homem. Pediu a Deus que o cuidasse e que o protegesse dos lobos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite engoliu a casa e jogou lá para dentro a solidão. O velho dormia todas as noites ao lado do fogo esperando o ataque dos lobos, mas não sei se eles o pegaram. A última vez que soube do senhor foi pelo jornal: o fogo devorou seu tugúrio na madrugada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi assim que meu pai me contou a história.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-7959584226101754411?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/7959584226101754411/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=7959584226101754411&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/7959584226101754411'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/7959584226101754411'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/06/os-lobos.html' title='Os lobos'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-8444267877339752771</id><published>2011-06-07T16:18:00.000-07:00</published><updated>2011-09-24T20:34:33.759-07:00</updated><title type='text'>O deserto das almas</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;No frio uruguaio, em um recanto absconso, conheci um senhor que perdeu sua vida nas dunas e tornou-se condutor de almas enquanto ele mesmo conduzia-me para a mais desconhecida das praias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aconteceu recentemente. Eu e um amigo próximo empreendemos uma viagem à Cabo Polonio, uma espécie de vilarejo esconso na província de Rocha no Uruguai. Eu falharia radicalmente se tentasse descrever com precisão uma motivação comum que nos levou a viajar, mas, de fato, nós dois, embora nada tivéssemos em comum, compartilhávamos uma dúvida idêntica que frequentemente nos solicitava. O destino fora-nos aventado por sua avó materna que, poucos dias antes, mostrava-nos fotos do pequeno vilarejo escondido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao que lembro, nossa última parada registrada foi em pouco mais de 440km ao sul de Pelotas, adentrando o Uruguai pela BR 471, onde abandonamos o carro em um cercado de choupanas chegado à margem da estrada, um terminal onde paramos para fazer uma rápida refeição e, em seguida, procurar um guia que nos possibilitasse o acesso até o local, eis que ali se concentram os únicos veículos autorizados a empreender o camino al cabo. No mesmo casebre onde comemos, a senhora encarregada do atendimento acenou a um senhor sentado ao outro lado do pátio. Fez sinal para que fôssemos até ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele aparentava ter certa idade, mas a incúria com sua fisionomia desmazelada poderia facilmente enganar-nos e adicionar, creio, uns bons dez anos àquele senhor. Sem embargo, arrisco que se avizinhavam já os 60 e, pela presteza com que a outra senhora lhe acenou, já trabalhava no local há uns bons anos. Tinha cabelos brancos, a pele maculada e roupas que pareciam terem-lhe sido doadas; lembro-me de seu blusão de cor clara, rasgado na costura que junge a manga ao tórax, e de sua jaqueta comemorativa de alguma competição de desportos local. Demorou-se quando lhe pedimos por transporte. Analisou-nos dos pés à cabeça, levantou-se do banco de madeira batendo as calças para livrar-se da serragem e, tateando os bolsos tanto da calça quanto do casaco como se à procura de algo, perguntou-nos quanto tínhamos de dinheiro, em dólares. Quando mencionamos que não tínhamos mais que alguns poucos trocados, obtidos mesmo como troco no Chuy, mandou-nos embora dizendo que não havia nada para nós ali. Mudou de ideia, entretanto, quando lhe oferecemos uma garrafa de pinot noir comprada na fronteira. Apanhou-a com um sorriso e apontou-nos o "dromedario". Embora o jipe pudesse acomodar tranquilamente umas 30 pessoas e nós fôssemos apenas 2, mandou-nos, com um português tão descuidado quanto sua aparência, embarcar na frente. Disse-nos que o tempo não lhe ajudava os negócios e que a garrafa de vinho era o suficiente para o transporte e para o frio, afinal não haveria muito mais por ali naquele dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No caminho, perguntei-lhe dos leões marinhos. Falou-me, em tom rude, que não era guia turístico e que, se estivesse tudo bem para mim, preferia não falar sobre Cabo naquele dia, já que o fazia exaustivamente. Achei engraçado como, de certa forma, atropelava-me e requisitava cordialmente minha condescendência. Disse-lhe que tudo bem e, continuando o assunto que parecia ter-se esboçado, perguntei sobre sua vida ali. Respondeu que fazia a travessia desde os 22, mas acompanhava o pai desde os 7 anos. Demorou-se um pouco nas contas, mas concluiu que eram 57 anos fazendo aquela travessia. Acho que fui um pouco indelicado, mas tornei a mencionar a cidade; perguntei-lhe se não gostava de lá já que, com tantos anos fazendo a travessia, podia considerar-se praticamente criado em Cabo Polonio. Respondeu-me que nada tinha contra a cidade, mas que eu estava enganado em minha conclusão. Quando perguntei o porquê respondeu-me o seguinte em seu idioleto, que transcrevo aqui em português:  Estás equivocado, filho, porque não fui criado nem em Cabo nem em cidade alguma. Meu lugar é aqui nesta estrada, pertenço "al camino" que enterrou meu pai e que desde os 7 dedico-me a atravessar. Talvez tu e teu amigo vejam somente estâncias e estações e, enquanto estejam aí sentados, sejam somente aquilo que consigam identificar, mas minha estância é, de fato, a estrada em que vocês estão em trânsito. Eu vivo aqui e já não me há lugar para aportar. Já vi Cabo com olhos de amigos e de amantes, de adultos e de crianças, de pais e de professores. Se escolho não falar de lá é porque meu testemunho só pode ser o de um homem invisível que, naquele vilarejo, tem sempre o caminho de volta para empreender ou o do desencanto de quem vive nisto e sabe que "su paraíso natural" será também "su sepulcro".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntei-lhe se vivia no deserto. Disse-me que não, que apenas transportava almas para o paraíso. Rimos juntos e perguntou-nos de onde vínhamos. Falei que morávamos em Pelotas, no Rio Grande do Sul, mas que eu nascera em uma cidade do interior. Falei que também vivia em trânsito e que entendia o que ele tinha me dito. Olhou-me nos olhos com semblante de desaprovação, mas contorceu os músculos da face e conseguiu extrair dali um sorriso. Percebi que eu verdadeiramente não havia entendido nada e que minha falsa complacência com seu relato era-lhe um grande opróbrio. Creio que ele também notou-me recuar ante seu sorriso e, assim, prontamente disparou: "Maradona és muy mejor que Pelé". Respondi: "Maradona, hombre? Eres uruguayo! Tienes de hablar de Forlán." "Forlán también és muy mejor que Pelé!", retrucou de batepronto. Rimos e seguimos o caminho das dunas, donde ele nos apontava a paisagem e, em guinadas rápidas, esquivava-se do caminho batido para nos mostrar alguns pontos interessantes. Durante alguns minutos, encostou à sombra e deixou com que caminhássemos descalços na areia fria e que trilhássemos nosso caminho alguns morros abaixo, enquanto nos observava do seu jipe como quem cuidava, com olhar amargo, duas crianças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais tarde, caminhamos todos no frio da praia até o entardecer. O homem ensinou-nos a abrir garrafas de vinho utilizando o vão de suas botas e, enquanto bebíamos para aquecermo-nos e olhávamos o sol se por ao mar do velho farol — cortesia daquele uruguaio —, notei que o homem detinha-se com muita atenção na nossa expressão de encanto. Perguntei a ele o que se passava e ele me disse que tentava ver o mar dentro de nossos olhos, pois havia muito que nada via naquelas águas e, ruborizado, um pouco constrangido de ter sido apanhado, perguntou-me o que eu via ali. Disse-lhe que via a minha infância, que eu tinha sido criado à beira das águas. O homem respondeu-me que eu não precisaria ter ido tão longe de casa para ter-me reencontrado e, enquanto eu passava o vinho para meu amigo, concordei e respondi-lhe que, de fato, não precisava, mas precisava "del camino al cabo" para resgatar a estranheza. Concordou com a cabeça e retornou os olhos ao mar. Em seguida, falou para as ondas em bom espanhol: "El camino al cabo és el camino de la muerte."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficamos os três em silêncio por mais alguns minutos, observando a noite espraiar-se e revezando a garrafa de vinho da qual o senhor uruguaio havia abdicado, já que precisava dirigir. Era consenso tácito que uma palavra ali seria falar demais.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-8444267877339752771?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/8444267877339752771/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=8444267877339752771&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/8444267877339752771'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/8444267877339752771'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/06/o-deserto-das-almas.html' title='O deserto das almas'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-7957614341316310830</id><published>2011-06-02T14:31:00.000-07:00</published><updated>2011-06-02T15:16:30.335-07:00</updated><title type='text'>- terrinha</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um menino encontrou uma flor. Uma pequena e encabulada flor que gentilmente afeiçoava-se à sua mão e ao seu toque, enlaçava-se ao seu braço e fazia com que o menino sorrisse. Agachou-se e, com a palma da mão, sentiu a terra fresca e macia como se esquecera de sentir por esses anos. Fechou os olhos e deixou a terra arrastar sua mão em seu próprio ritmo. Assim, sentiu o vento soprar e a tarde lhe pareceu um pouco mais fria. As nuvens estavam no céu, as árvores estavam ao seu lado e o sol continuava lá. A terra estava no céu, ele estava nas nuvens, o frio estava ao seu lado e o sol soprava a alegria em seu dia. Caminhou à beira da praia, próximo das ondas, e dançou em silêncio pelas sombras. As ondas dançavam e as sombras também caminhavam. Deixava nele a areia as marcas do mar. Encontrou uma senhora e disse-lhe:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;— Oi, senhora. Eu me chamo menino. Este é o dia, esta é a vida.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Dançaram pela tarde e, quando cansaram, sentaram na areia e trocaram histórias e chimarrão.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;— Eu nasci aqui e hoje vivo aqui. Toda esta terra é minha e dela tiro pouco. Em troca, ela me deixa existir e me dá um sorriso, um sol, as árvores, esta prainha e me deixa ver. Eu venho do norte e lá me apaixonei por uma mulher que tem um nome. Ela está vindo para esta terra ser menina, tomar chimarrão e dançar conosco, caminhar pela praia, molhar os pés e contar histórias. Meu pai era poeta na terra dos homens e deixou a velha estância para mim. Mas lá eu não moro, só cuido das flores.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-7957614341316310830?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/7957614341316310830/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=7957614341316310830&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/7957614341316310830'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/7957614341316310830'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/06/terrinha.html' title='- terrinha'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-8704254485711074821</id><published>2011-06-01T13:38:00.000-07:00</published><updated>2011-06-01T13:51:25.794-07:00</updated><title type='text'>Hologramática dos relacionamentos</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;(Um rascunho de resposta ao &lt;a href="http://www.cronicasdoapendice.blogspot.com/"&gt;Sr. Apêndice&lt;/a&gt;)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fins introdutórios, é uma premência designar, mesmo que grosseiramente aqui, a índole desta resposta. Responder, antes de mais, é aqui uma reiteração e uma exortação dos escritos basilares que constituem uma condição sine qua non desta mesma resposta. Assim, a resposta não deixa de ser uma comemoração da sua condição de possibilidade que, justamente ao comemorar, reafirma essas condições prévias. Neste sentido, este escrito não é uma refutação, mas uma retomada dos textos que o possibilitaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;—&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ideia de hologramática aqui não é (tenta esquivar-se de ser, ao menos) uma noção à qual se possa reduzir ou mesmo exaurir o entendimento dos relacionamentos; esta expressão, ao contrário, matiza o horizonte que, por conseguinte, dá a visão e à visão alguns dos aspectos que tenho como fundamentais quando procuro tratar de relacionamentos, porém estes fundamentos são senão condições — e condições muitos instáveis — de fecundidade para um pensamento complexo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um relacionamento é uma existência autônoma. Porém, para que se conceba esta autonomia é necessário perceber todas as dependências que a condicionam e possibilitam. De um lado, aquele que se pode tomar como evidente, apresentam-se cada uma das partes relacionadas; de outro, tudo aquilo que condiciona cada uma dessas partes. Ainda assim, creio que seria demasiado cômodo afirmar que, a partir das interações, o relacionamento suscita-se ex nihilo. Entretanto, há originalidade, mas, ao mesmo tempo, há também memória, ambas retroagindo uma sobre a outra e formando um ciclo recursivo cujo clímax é justamente o próprio relacionamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em parte, todo relacionamento parte da memória de outros relacionamentos — se não a utiliza como um padrão ótimo, do contrário, fá-lo como padrão péssimo e procura fugir à própria memória cristalizada — que se atualiza em um novo relacionamento, este original, que, por fim, restabelecerá uma atualização na própria memória. Isto quer dizer que a genética do relacionamento, grosseiramente, constitui-se dos seus relacionamentos prévios, dos relacionamentos dos seus amigos, dos relacionamentos que você presenciou em filmes e por aí vai. Isso simultaneamente configurará o motor e o risco do relacionamento; no mesmo movimento que o faz operar, ameaça extingui-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, tomar esta perspectiva como um esboço de explicação total seria novamente reducionista, de vez que se faz necessário considerar a construção múltipla dos relacionamentos e a forma como estas mesmas construções viverão e farão viver cada um dos envolvidos em um relacionamento que, ao mesmo tempo que retroagem sobre estas mesmas ideias, empenham-se na atualização de um relacionamento conjunto que, por si mesmo, retroagirá sobre cada um dos indivíduos e, consequentemente, sobre as próprias ideias que os agitaram para a constituição deste mesmo relacionamento. Pode-se, portanto, entrever um ciclo complexo, onde um relacionamento destroi-se e reconstroi-se a cada segundo, assemelhando-se mais a uma efervescência quase-insondável do que a uma entidade apreensível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, creio que o termo hologramática é senão como um rabisco de uma criança que se aventura a desenhar pela primeira vez. Vê-se, em seu desenho, bonecos constituídos por figuras geométricas elementares que, embora sejam representações grosseiras, deixam entrever os contornos de seu mistério. Neste sentido, a gramática contribui para que se aceda ao conjunto de leis que, ao mesmo tempo que enrijecem os relacionamentos, permitem que eles se expressem em suas potencialidades criativas. O holon grego, em uma descrição grosseira, é aquele do todo onde está inscrito e circunscrito o relacionamento, é, em certo sentido, o próprio relacionamento como emergência de uma existência autônoma engendrando um novo actante no ciclo de inter-retro-ações e, assim, um holograma, onde cada ponto da imagem, embora dotado de autonomia própria, contém também a compreensão e o esquema do todo, possibilitando que a própria relação regenere-se constantemente no ritmo da complexificação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, pode-se dizer que namorado e namorada, cada um, tem uma ideia complexa de relacionamento que se atualizará em uma terceira, esta vivenciada, experienciada e compartilhada a qual retroagirá diferentemente sobre cada um, a partir das capacidades de compreensão e abertura individuais, atualizando aquelas ideias mesmas que condicionaram a existência de um relacionamento único e, assim, extinguindo-o e reconstruindo-o desenfreadamente, o que torna amar, de um lado, impossível; de outro, desafiador, eis que aquilo que arrasta o clímax, ou o estado estacionário do relacionamento, é aquilo que traz, na mesma tração, a morte do próprio relacionamento, pois é onde ele estará mais frágil às constantes desregulações e degradações que lhe acometem incessantemente. É também, parece-me, a própria impossibilidade de um amor firmar-se de acordo com um plano — deve incorporar e tratar obstinadamente o acaso e a incerteza, sem jamais expugná-las.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;É a sina do amante não reconhecer nunca o seu amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cordialmente,&lt;br /&gt;Guilherme&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-8704254485711074821?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/8704254485711074821/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=8704254485711074821&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/8704254485711074821'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/8704254485711074821'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/06/hologramatica-dos-relacionamentos.html' title='Hologramática dos relacionamentos'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-1832178983436208546</id><published>2011-05-26T15:02:00.001-07:00</published><updated>2011-05-26T15:23:18.028-07:00</updated><title type='text'>Num bar</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Estou neste bar bebendo pinho com sol com uma pedra de gelo tentando me persuadir de que trato com um uísque importado. Também, de alguma maneira, estou escrevendo este texto, e o bar, de alguma forma, é o meu quarto, o que estabelece uma equivalência estranha entre a mesa de sinuca e a mesa da cozinha. Talvez este seja o motivo pelo qual o cozinheiro está aprontando panquecas na minha escrivaninha e também pelo qual as panquecas são, na verdade, um único caderno de capa mole. Sinto que eu deveria alertar o cara, mas aí eu teria que me confrontar com uma terrível questão: como todas as pessoas que estão nesse bar cabem no meu quarto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Convenhamos, isto não seria tão problemático se eu já não tivesse ficado com três mulheres; a primeira foi fácil: perguntou-me se eu tomava marguerita, disse-lhe que sim e logo ofereci um gole. Disse que estava excelente, mas que faltava o sal e desmaiou. Dada sua condição, não ofereceu resistência. Depois da primeira, eu já firmara minha prova social no bar e o esforço com as demais não ultrapassou alguns minutos de conversa. Preocupa-me, contudo, que não saberei onde procurar o corpo daquela primeira assim que eu acordar e, mais ainda, o que eu encontrarei quando discar os números de telefone obtidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um rapaz me interpelou. Perguntou-me se a mesa estava vaga. Perguntei-lhe se ele era meu pai. Foi logo me dando um socão e puxando o taco de sinuca; julguei tratar-se de um berimbau ou de um violão que guardo ao lado de uma cômoda e, como de costume, a exatidão de um juízo não alivia em nada o impacto da pancada. Antes de cair, pensei três coisas: que meu pai estava escroto, que talvez eu não estivesse em casa e que agora eu precisaria de um novo copo de pinho sol. Fui ao chão sinalizando para o garçom encher 8 dedos. Ocorreu-me que talvez o garçom pudesse ser meu pai, já que estava fornecendo as bebidas. Apaguei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei no chão do meu quarto. Com um copo de pinho sol ao meu lado, embora o gelo já tivesse derretido. Entornei-o e fui até a cozinha, onde pedi para o meu pai que me preparasse um ovo frito. Falou-me que pai era o caralho e que ele era o garçom do estabelecimento, depois atirou-me um livro. Não questionei e comecei a mastigar. Fiquei intrigado, no entanto, com o fato de a consciência de zeno ter gosto de batatas fritas. Adicionei um pouco de sal e ketchup, requisitei um prato de iscas de filé e uma cerveja. Lançou-me mais alguns livros e um clipe do Tom Waits. Imaginei que fosse algum tipo de tropo escroto com cerveja. Por fim, requisitei mostarda e maionese; chamou-me uma puta e atirou-me uma bucha de cocaína. Era uma metáfora mórbida para a vida. Perguntei-lhe se ainda estávamos no bar. Disse-me que sim. Perguntei pela mesa de sinuca e apontou-me o banheiro. Agradeci e fui até lá.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Frente a frente com a privada, fiquei um pouco confuso quanto ao que deveria fazer para jogar sinuca. Arriei as calças e sentei-me, achei que seria o uso equivalente. Senti uma mão caçar-me pelo braço e arremessar-me, com as calças arriadas mesmo, para fora de minha casa. Creio que já não tinha destino e, assim, tinha-me declarado oficialmente no fundo do poço. Restava-me, contudo, um desejo de explorar aquele mundo; apanhei o celular e disquei para mim mesmo. Eu mesmo atendi. Falei: "Sério, cara. Mostarda e maionese por putas e cocaína? Quando tu bebe tu escreve umas histórias escrotas." "Alô, aqui quem fala é Édipo."&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;div align="justify"&gt;—&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Este escrito provém de uma agora constante solicitação de que eu retomasse alguns de meus escritos de três ou quatro anos. Quando me propus a atender tais solicitações, encontrei-me dividido entre um novo empreendimento e a publicação de logs com conversas sobre a vida, em geral. Fiz a primeira opção.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-1832178983436208546?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/1832178983436208546/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=1832178983436208546&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/1832178983436208546'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/1832178983436208546'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/05/num-bar.html' title='Num bar'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-2879888832412344569</id><published>2011-05-24T08:22:00.000-07:00</published><updated>2011-05-24T08:26:52.757-07:00</updated><title type='text'>Predições de uma vidente</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Certa vez acompanhei minha mãe a uma vidente que ela tinha por hábito visitar. Na época, minha mãe já insistia havia um tempo para que eu fosse consultar a senhora e pudesse, enfim, apreender o destino no horizonte. Quando no local, escutei-as conversarem por alguns minutos. Tratavam da vida e de algumas vaticinações precedentes; a senhora corroborava seus votos e, mais do que lançar qualquer preconização, desejava-nos tudo de melhor. Nesta altura, minha mãe recortou o diálogo e introduziu-me à senhora com maior propriedade, disse-lhe que eu gostaria de antecipar alguns aspectos concernentes ao meu futuro. A senhora virou a face para mim e solicitou que eu me levantasse do assento. Em seguida, pegou uma tesoura, algumas ervas e, de pé, me benzeu. Então, perguntou-me: "Pois bem, filho, que queres saber?"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele instante, silenciei. Eu procurava palavras que não existiam e, de fato, nada pude perguntar-lhe. Isso, contudo, não era sinal de que eu nada tinha a perguntar=lhe; tinha, ao contrário, muitas dúvidas e desejos, mas, pela primeira vez, pude ver ali que meus desejos e dúvidas nada tinham a ver com este mundo e, assim, percebi o silêncio interpolar-se no ronronar incessante que tentava extrair uma dúvida dos sulcos da alma. De fato, disse à senhora: "Eu quero saber algo que não sei o que é. Eu quero saber se eu vou conseguir fazer, sei lá, uma coisa que, não sei. Eu tenho vontade de ser algo. Só isso."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A senhora parecia mais confusa do que eu. Olhou para minha mãe e encontrou nela a mesma expressão, embora ela tenha ido logo adiantando: "Senhora, ele quer saber do futuro profissional. Ele anda infeliz com o que está fazendo atualmente." A senhora encarou-me de volta: " Pois bem. Senta-te." Questionou-me algumas vezes sobre o trabalho, falou-me que eu começaria o ano sem emprego e ficaria nesta situação durante algum tempo, mas que depois ganharia bastante dinheiro e orgulharia minha mãe. Era uma boa predição, eu estava feliz em colocá-la à minha frente. Minha mãe também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não era, não obstante, o que eu pretendia saber. Tampouco é como se eu pudesse buscar esta pergunta em qualquer lugar; não porque distante, mas porque demasiado próxima, porque intimamente presente. Foi ali que, pela primeira vez, encontrei-me com a pergunta numa dupla destinação: ao mesmo tempo em que ela abriu-se, cerceou-me: "Escuta a senhora e escuta-me. Vieste aqui de-cidir-te."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;—&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma pequena curiosidade: o que vocês perguntariam a uma vidente?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-2879888832412344569?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/2879888832412344569/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=2879888832412344569&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/2879888832412344569'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/2879888832412344569'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/05/predicoes-de-uma-vidente.html' title='Predições de uma vidente'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-7583003207007745424</id><published>2011-05-18T21:27:00.000-07:00</published><updated>2011-05-19T14:11:58.586-07:00</updated><title type='text'>Protótipo de RPG para rascunhar um pensamento complexo criador</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Ainda não sei bem como surgiu esta ideia nem consigo apreender seus contornos com precisão, mas nessas últimas semanas tem me fascinado e me movimentado a ideia de construir um RPG como um sistema de pensamento complexo. Como o disse, não sou capaz de empreender uma descrição exata deste sistema porque ele mesmo me falta. Porém, é meu credo que isso não me impede de compartilhar alguns esboços fragmentários com os leitores e de esperar de vocês alguma ajuda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu intento é de irisar a narrativa sobre a mecânica, sem, contudo, derrogar absolutamente as regras do jogo. Estas são, e o digo com certa tranquilidade, o fundamento para que os jogadores possam engajar-se nesta construção; são os limites, mas é através desses limites que se é capaz de pensar no próprio jogo. Contudo, creio que isso é importância irrisória no momento, mas cumpre com simplicidade a finalidade de introduzir a ideia de um pensamento complexo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Advirto de antemão que esta não é, sem embargo, uma tentativa de consenti-lo ou desconsenti-lo, mas uma pequena introdução àquilo que me vem à mente na intersecção da ideia de complexidade e da ideia de role playing game, no que um tange o outro e, assim, conjugam-se. Assim, talvez a própria ideia de conjunção seja satisfatória para que se possa entender o pretenso caráter deste jogo: a narrativa é con-juntural. Com isso quero acentuar tanto a composição conjunta da trama quanto o fato de esta mesma trama insistir sobre tal conjuntura. Melhor: é a composição que põe a conjuntura. Isso reencontra a ideia de abertura já mencionada. Não poderia ser diferente. O jogo vai do game master ao jogador, do jogador ao game master e então retorna a si.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-j3k84DNXaKc/TdSe2v8jo3I/AAAAAAAAAN0/Q9zMeeWkimk/s1600/Eberron%2Bcg.jpg" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px; height: 290px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-j3k84DNXaKc/TdSe2v8jo3I/AAAAAAAAAN0/Q9zMeeWkimk/s320/Eberron%2Bcg.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5608282099403694962" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há muito eu procuro uma possibilidade interessante de criação conjunta e, mesmo que este projeto ainda seja incipiente, julgo que os resultados são, no mínimo, eufóricos. A palavra é pertinente: há tempos que não via um entusiasmo tão grande por parte dos jogadores, que passam a tramitar também nos afazeres do mestre. Creio que esta é ideia essencial do jogo: nuclear a importância de cada participante e desenvolver um mundo como que orbital. Os investimentos criativos de cada um dos participantes, ao enriquecerem suas histórias e ao detalharem suas personagens, sempre num processo de discussão com os narradores, tem constituído o motor de criação do mundo de jogo, inflectindo as regras e evidenciando o risco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para que me entendam melhor, o jogo emprega a matriz de jogo do d20 e utiliza majoritariamente as regras da versão 3.5 do D&amp;amp;D, mas com inovações e hibridizações. Aqueles que estão familiarizados ao mundo d'O Senhor dos Anéis saberão o ambiente em que se passa o jogo. A proposta, porém, é encontrar o ponto onde se encontram o fantástico e a contemporaneidade. O ano de jogo é 2011. Creio que não há como apontar grande originalidade aqui: já vimos tal processo em filmes como Batman Begins, Super Mário Bros. e X-Men, para citar alguns exemplos de adaptações. Porém, como era de se esperar, a grande contribuição criativa tem vindo dos jogadores que, cada vez, tem relativizado as regras para darem à luz suas criações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Consequentemente, o núcleo da narrativa, menos do que deixar de ser o conflito entre personagens e mestre do jogo, extrapola esse próprio conflito e dá poder de jogo para que cada um dos jogadores torne-se mestres de sua própria partida e resolva seus conflitos com os demais jogadores. Há consonância do jogo com o meta-jogo e é em ambos os níveis que se assume o conflito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, isso que tem constituído minha principal alegria tem também suscitado a maior dificuldade até então: abrir o jogo em seu fechamento, fechá-lo em sua abertura. Com tantas adaptações e flexibilizações é de se supor que o risco de a estrutura esfumar-se seja sempre crescente. O jogo descentra-se, policentra-se, amplifica-se e multiplica-se. Nesse sentido, concebe histórias concorrentes, antagônicas, mas também complementares e faz com que toda a narrativa se desenrole em um limite que flerta com o caos e cujo grande risco é inviabilizar o próprio jogo ao demandar um esforço super-humano para sua articulação. É o preço que se paga por uma diversão criativa.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;* A ilustração é do cenário Eberron, que introduz a ideia de steampunk no D&amp;amp;D.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-7583003207007745424?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/7583003207007745424/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=7583003207007745424&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/7583003207007745424'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/7583003207007745424'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/05/prototipo-de-rpg-para-rascunhar-um.html' title='Protótipo de RPG para rascunhar um pensamento complexo criador'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-j3k84DNXaKc/TdSe2v8jo3I/AAAAAAAAAN0/Q9zMeeWkimk/s72-c/Eberron%2Bcg.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-4310060095604672777</id><published>2011-05-09T09:11:00.000-07:00</published><updated>2011-05-09T09:26:06.519-07:00</updated><title type='text'>Sobre escrever e elogiar</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Hoje fui surpreendido por uma amiga que me solicitou a leitura de um de seus escritos. Confesso que detesto o papel de crítico, mas aquilo que escrevem e me enviam leio com o coração; julgar, em contrapartida, tomo como um empreendimento demoníaco e exaustivo. Esta foi a resposta mais sincera que pude dar:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Di,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é como se eu vá te dizer nunca: "Este texto está ruim".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Creio que manter um nível não é um requisito essencial nesta atividade e, mesmo em alguns textos que julgamos terríveis, há um investimento super-humano. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não sei se me farei entender corretamente, mas eu gosto dos teus textos pela forma como tu te colocas neles e como tu os coloca. Tem gente que, ao avaliar um texto, avalia a pertinência das questões tratadas. Diz-se que a literatura medra na crise de noções fundamentais: sujeito, realidade, essas coisas. As obras consideradas "mais relevantes" parecem tratar disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas tem gente que nada sabe disso, mas sabe escrever sobre uma flor. E escreve de um jeito que o mundo vira aquela flor e aquela flor vira o mundo. Nesse sentido, como eu entendo, o texto é uma dupla obsessão: é algo que persegue a pessoa e que a pessoa persegue de volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para mim, o texto é um pouco disso: perseguir aquilo que te persegue, ver-se perseguido por algo e lutar com todas as forças contra esse algo — a luta ainda é maior para dominar isso em palavras e arranjos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas aí entra um grande problema: quanto tu falas para alguém algo como "Não curti este texto", isso equivale a dizer "Isso que tu persegue não me afeta" ou, sendo mais radical, "O que tu é não me interessa" e, assim, o que seria uma incompatibilidade de gosto vira um injúria pessoal. Isso sim é incompreensível e desolador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa é minha resposta. Desculpa ela ser complicada e eu ser reducionista, mas gosto muito de ti e gosto muito dos teus textos. Na forma como vejo, essas duas ideias são inseparáveis. Espero que me entendas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sinceramente,&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Guilherme&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-4310060095604672777?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/4310060095604672777/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=4310060095604672777&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/4310060095604672777'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/4310060095604672777'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/05/sobre-escrever-e-elogiar.html' title='Sobre escrever e elogiar'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-169954996855038593</id><published>2011-04-22T17:51:00.000-07:00</published><updated>2011-04-22T17:52:16.272-07:00</updated><title type='text'>Carta ao filho</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Encontrei esta carta enquanto navegava pelas postagens de um conhecido no Facebook. A primeira versão estava escrita em francês e intitulava-se "Une lettre au fils". Uma busca por referências revelou-me tratar-se de uma carta anônima manuscrita, originalmente em espanhol, sem qualquer título. A pessoa que a publicou pela primeira vez — fico devendo sua identidade ao leitor — atribuiu-lhe a epígrafe "Carta al hijo". A versão que publico é a tradução para o português brasileiro do escritor Paulo Almeida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;—&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Filho,&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Sei que é a primeira vez que te escrevo nestes anos, mas hoje me acordei e floresceu-me na pele a necessidade de dar-te motivo e explicação para meu abandono; não que tenha sido esta a primeira vez que me bate à porta esta vontade, mas consegui enxugar minhas lágrimas hoje no cantinho da noite e, finalmente, empunhar firmemente um lápis, como o homem que eu deveria ser. Gostaria de poder apagar o passado, a dor e o sofrimento, mas sei que é muito para esta cartinha. Escrevo, então, filho, meu desejo te estar contigo hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há doze anos, eu fugi do Uruguai na caçamba de um caminhão à procura de uma existência endinheirada; isso tua mãe bem deve ter-te dito. Não sei, porém, se isto ela te revelou: parti sob as juras do amor eterno e sob a promessa de um retorno, este que não consegui cumprir até hoje. Creio que talvez ela não te tenha falado, acho que para não nutrires qualquer expectativa e nem desperdiçares nenhum pensamento com este velho. Então, foi assim que cheguei ao Brasil; era um imigrante com uma dupla impulsão, uma forte ambição e um grande amor, mas nenhum dinheiro no bolso — para mim, esse último fato era trivial e temporário, mas ele terminou por dilacerar ambos os outros e reinar não apenas em minhas ideias, mas em mim como um todo: a realidade me lembrava diariamente que eu era apenas um uruguaio evadido com um péssimo português e sem nenhum aptidão para trabalho que não na terra. Com a impossibilidade de ganhar qualquer dinheiro veio a impossibilidade de retornar ao meu amor; com esta dupla impossibilidade, agarrei-me com o pouco que era em minha ambição. Porém, sem aquilo que lhe alimentava, deixa-a devorar-me do interior e tornei-me um homem mau.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui, filho, encontrei a morte. Dei meu corpo no trabalho com a terra e, sob ela, com estas próprias mãos, enterrei minha alma. Amontoei um punhadinho de poeira e marquei o local com uns galhinhos secos, olhei para o céu e vi deus, pensei em ti, em tua mãe e sonhei com uma vida boa para nós em Nueva Palmira. Nós tínhamos uma vidinha simples, comíamos o que a terra nos dava, caminhávamos pela praia à beira da manhã e íamos dormir ouvindo o rádio do teu falecido avô com a escuridão da noitinha se avizinhando. Sei bem que não é a vida que queres, mas é a vida de que vais sentir saudade, eu acho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Digo isso porque me sinto assim; aqui a vida é uma competição e nós não podemos ser homens em nosso trabalho. Esses dias o Válter faleceu no meio da mata e só fomos ordenados a continuar trabalhando que as devidas medidas seriam tomadas. Foi nesse dia que eu chorei e tomei coragem de te escrever; fomos privados de nossas faculdades mais humanas, filho, éramos bichos. Não deixa nunca que façam isso contigo. Não deixa nunca te tirarem a humanidade. Queria um dia te apresentar o Válter, e também todos os rapazes aqui. Como não é possível, prometo que quando nos encontrarmos eu te contarei umas boas histórias nossas, da nossa terrinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui, filho, onde encontrei a morte, também achei a vida. Aqui fiz amigos, aprendi um pouco de gaita e também a filosofia dos homens. Trabalhamos para sentar um pouco sob o crepúsculo e falar da vida que deixamos para trás; isso quando a noite não cobre depressa o céu e nos deixa à luz de um velho lampião, com uns versos e uns livros que nos deixa um senhor da estação. Os rapazes compartem muitos sonhos e muitas dores, mas, de alguma forma, somos felizes nesse pouquinho de felicidade que medra no coração solitário. A alegria é mais simples e apertada, tem sempre um ar de saudade e angústia, mas, sabemos bem, é esse pouquinho que lhe acende e nos deixa ter fé — fé que é a têmpera e a tela de nossos sonhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não quero que, com esta carta, fiques achando que teu pai é poeta. Não tenho muito o que poetar, filho. Teu pai é trabalhador do campo e mensageiro da morte; já não tenho alma. Ninguém aqui tem mais; somos homens que seguimos uns aos outros e que encontramos a nós mesmos para dar umas risadas. Fico contente em não ter perdido a capacidade de rir, mas já não é aquela risada que vem da ingenuidade que a gente tem quando criança, mas uma risada de falação que, como emerge, esvai-se. Não somos nem homens mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por fim, espero que esta cartinha chegue em tuas mãos. Não há nada demais aqui, mas meu carinho e minha saudade. Peço desculpas por te tratar por filho; não sei nem se me tens como pai, mas garanto que te tenho como filho e isso é o pouquinho que sou. Sinto tua falta — a única coisa que não desaprendi a sentir.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-169954996855038593?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/169954996855038593/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=169954996855038593&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/169954996855038593'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/169954996855038593'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/04/carta-ao-filho.html' title='Carta ao filho'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-3187026846201836518</id><published>2011-04-15T07:21:00.000-07:00</published><updated>2011-04-15T18:43:53.910-07:00</updated><title type='text'>Carta aberta em resposta a um periódico pelotense</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Em resposta a um artigo o qual submeti a um periódico pelotense de renome, no qual eu expunha acerca do desfasamento entre as convicções propugnadas pela editoria em questão e o caráter objetivo de seu empreendimento, resultantes em uma cisma pragmático-ideológica, recebi, por e-mail, uma recusa formal sem qualquer argumentação e, no suporte material da publicação, a surpresa de uma nota de compleição irônica e mordaz, para não dizer agressiva, tangente às minhas colocações. Assim, em respeito à recusa, opto não por tornar pública minha crítica, mas deixo esta carta aberta à guisa de resposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;—&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senhores,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrementes vos redijo estas linhas, por favor entendei que o sentimento que me possui é aquele da afeição fulgente de uma criança maravilhada com um presente pois, talvez isso vos seja evidente, só vos pude redigir minha primeira mensagem circunscrito e definito por minha condição de leitor assíduo e também de apreciador de vossa editoria. Assim, desta disposição, gostaria de acreditar sinceramente na possibilidade da má interpretação de minha crítica. Este juízo, porém, talvez caiba melhor a uma criança e, aqui, não posso escusar-me de uma breve defesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desconheço a lide da equipe e, portanto, não entrarei no mérito de inquirir os limites do profissionalismo de vosso trabalho que, é meu credo, foram postos e transpostos no último número de vosso periódico, esse o qual tenho agora em minha frente. Sabei, porém, que não vos credito inclemência, de vez que creio ser exatamente isto que encontrastes em minhas palavras e, sob bons auspícios, concedo-vos minha compreensão, eis que assumo esta ignomínia, como já o disse, não como atitude antiética, mas como uma singular derrapagem de profissionalismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em respeito à vossa decisão, não retomarei aqui minhas colocações, mas, sob a acusação de "não conhecer o mínimo acerca daquilo que se propõe a defender",  digo-vos que não pretendia então, e também não pretendo agora, desvelar com precisão mestra as vicissitudes de um sistema de ideias a fim de acusá-los de faltar com alguns de seus pressupostos capitais ou mesmo de denunciar tal sistema como maquinaria sicária. Peço-vos, assim, uma simples reconsideração seletiva e atenciosa de alguns de vossos métodos, já que, retomando aqui minha intenção primordial, a repercussão concreta de vosso trabalho configura-se de maneira divergente, para não se dizer integralmente contraditória, àquilo que vós vos propondes a fazer — ou que mesmo considerais já fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, como autor que "parece, entusiasticamente, rechaçar (v)ossas convicções através de uma linguagem sibilina e de uma convicção sobremodo cômico-obscurantista sem, contudo, demonstrar maior interesse naquilo que verdadeiramente se desenrola no seio de nossa comunidade, buscando mais um espaço em (v)ossas páginas do que uma autêntica contribuição à (v)ossa causa", só posso vangloriar-me, mesmo que ingênua e futilmente, de ter atingido o objetivo que vós me atribuís. Ressalto, contudo, que não é esta minha intenção e que, embora isto não constitua um mérito solene, não deixa de constituir, na contramão, indício de vossa incúria no manejo com questões tão delicadas. Esta pergunta é retórica: se um comentário tão soberbo e pretensioso como o meu, cujo escopo parece ser unicamente figurar nas páginas de vosso periódico, atinge facilmente seu objetivo por furtar-se ao pensamentos dos editores, que poderemos imaginar então do impacto social de textos que se assentam sobre e edificam uma base de irreflexão impetuosa e de desleixo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Independentemente de nossa presença, nossa luta se sustenta", vós dizeis. Sem entrar nos méritos de refutar tal assertiva, é de minha opinião, também, que ela vai na esteira contrária àquilo que se propõe, canonizar vossa causa, e depaupera eo ipso a luta em questão. Dois pontos: primeiro, se a luta pode sustentar-se sem vosso apoio, parece-me que o oposto simétrico não é verdadeiro: vós ruireis na ausência de tal suporte ideológico; segundo, recursivamente, se o trato com a luta for descuidado, o próprio descompasso pode mirar e deslocar-se sobre uma causa vazia que virá, consequentemente, a refusar vosso engajamento, de vez que já não será a causa que estará deslocada, mas vós próprios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, isso nos conduz de volta a vossas invectivas: meu tentame seria por uma figuração em vossas páginas. Porém, creio ser justo considerar aqui, retomando os dois pontos recém dispostos, que, por um lado, o apreço público por vossas convicções permite exatamente que elas sejam publicadas. Minha frase vos parecerá circular ou mesmo tautológica; é essa minha intenção. Podemos considerar que a demanda deste público vos cede sua própria força pública para publicar vossas páginas. Então, caso tais páginas votem-se ao desvio deste público, parece-me sensato cogitar, ao menos em parte, se tal desvio não desencadeia uma mudança de demanda ipso facto que,  passado algum tempo, dirimiria não apenas vossas páginas, mas também vossas crenças. Vossas páginas, então, arrogam uma posição capital na defesa desta dupla inscrição: vos sustentais vossa causa e vossa causa sustentai-vos. Logo, parece-me razoável arguir que vossa luta tem como mira não apenas o referido sustento de vossa ideologia, mas que este mesmo passa pela segurança de vosso periódico e, assim,  é de suma importância também que vossa opinião figure em tais páginas para que possam alimentar a luta como tal. Nossos esforços não se encontrariam nisso? Ambos, segundo vossas colocações, procuraríamos a publicação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora essa colocação não seja suficiente para malograr as invectivas que me foram lançadas, creio serem-no para construir uma dúvida acerca da consciência que vós nutris quanto a vossa importância social. Portanto, na contramão do que afirmastes, a ideologia, não diferente de qualquer deidade, não se sustenta sem o calor humano e, parece-me, é exatamente este calor humano que vós incitais. Sendo assim, vossa condição torna-se ainda mais frágil, eis que vós estais situado no entremeio desta relação e, assim, tanto o descompasso com o público quanto com a causa vos poderá  por a singrar em águas tempestuosas. Eis, então, a solicitação que faço por detrás de quaisquer críticas: assegurai-vos da causa a qual advogais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por fim, despeço-me dizendo que me sinto duplamente empobrecido: uma vez como autor, dada a falta de trato e a arrogância com que não apenas minhas palavras, mas mesmo eu fui recebido por vós — vossa luta é exponencialmente humana e, parece-me, tais atitudes não refletem esse caráter mas ressaltam, novamente, a discrepância a que me tenho referido; outra como leitor-interessado, eis que vosso conteúdo degradou-se criticamente: qualquer notinha prepotente agora é digna de resposta em vossas páginas. Não é por isso que lutamos, senhores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem mais,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guilherme&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-3187026846201836518?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/3187026846201836518/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=3187026846201836518&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/3187026846201836518'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/3187026846201836518'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/04/carta-aberta-em-resposta-um-periodico.html' title='Carta aberta em resposta a um periódico pelotense'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-2312050875355510144</id><published>2011-04-08T08:07:00.000-07:00</published><updated>2011-04-08T08:14:17.194-07:00</updated><title type='text'>O frio destas manhãs de outono</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Revirado nas cobertas, o quarto fecha-se sobre si e permite a passagem de uns poucos raios de luz através dos vãos da persiana que recobre a janela. Com a manhã, o frio. Com o frio, uma imensa vontade de se bagunçar e se revirar no entre-mundo dos lençois. É claro que a gente entende que o dia já vem chegando, mas nos aproveitamos da timidez dos raios e nem pedimos licença para uns quinze minutinhos a mais de umas três vidas que se passam neste quase-sono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na cozinha, o café aguarda quentinho sobre a mesa central. Na verdade, nós nem sabemos como ele foi parar ali e, por incrível que pareça, não tínhamos nem percebido que estávamos acordados. E a gente fica rindo disso enquanto mexe o açúcar, leva a caneca à boca e mira através da janelinha um pouco translúcida porque ainda fechado o mundo-lá-fora e ainda fechados neste mundo-aqui-dentro que, nesse momento, não é nada senão o casaco de lã de um gigante de faz-de-contas em que podemos morar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pantufas. Não há nada melhor que pantufas para descrever essa sensação. Nós não as calçamos, mas verdadeiramente saltamos da cama e mergulhamos nelas. Depois, e só depois, nós as dirigimos. No cedinho da manhã, são elas que levamos do pé da cama ao pé do dia. Ou melhor ainda: são elas que nos levam, porque tem que ser assim: o dia, embora ainda não começado, encaminha-se rápido e, nesses pouquinhos minutos, simplesmente ficamos absortos no conforto e deixamos que as pantufas conduzam mecanicamente nossas ações, enquanto nos reviramos nos sonhos que recenzinha começaram a se dissipar..&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, creio, é sair e trabalhar. Mas, até aí, tudo é cama; só as roupas, lençóis. E pantufas que viram gatinhos! Gatinhos que fazem: &lt;em&gt;minhau-minhau-minhau-minhau&lt;/em&gt;. Depois disso, só depois disso, a gente tem que ser macho. Não para trabalhar, mas para sair da cama. Aí mulher tem que ser macho também. Abraçar o dia, dar cara a tapa, bom dia de mau-humor e essas coisas. Até aí, respirar o frio da manhã, encolher-se no casaco e, para aqueles que usam manta, dar uma puxadinha no lado menor— não para apertar o pescoço, mas para nos certificarmos de ainda ter um. E daí deslizar para dentro das roupas.  Talvez um bom chimarrão. Sem amigos, sem ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por quê? Porque o verão passou e as férias passaram e daí já não é mais o mundo que nos sustenta mas a gente que sustenta o mundo e acorda cansado mandando ele já ir tomar mesmo, meio sem modos, porque quinze minutos são quinze minutos e a vontade é condescendente e o café é quente e a vida pode esperar. Não é a vida ainda. Por isso é tão bom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Frio de outono, vontade grande, café fumegante, pouco de sono.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-2312050875355510144?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/2312050875355510144/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=2312050875355510144&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/2312050875355510144'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/2312050875355510144'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/04/o-frio-destas-manhas-de-outono.html' title='O frio destas manhãs de outono'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-8331585732049021044</id><published>2011-04-06T12:08:00.000-07:00</published><updated>2011-04-14T07:34:13.535-07:00</updated><title type='text'>Quanto devo me aprimorar?</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Não tenho por hábito publicar a correspondência que remeto, senão excertos acerca daquilo que me endereçam — em sua maioria por e-mail. Neste caso abro uma exceção; a angústia que me porta pode servir de algo ao leitor. Assim, a fim de contextualização, esta mensagem é a terceira de uma sequência cuja finalidade era a busca de uma resposta para uma miríade de questões que sintetizo aqui através desta única sentença: Quanto devo aprimorar-me?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mensagem inaugural estendia-se por mais de duas páginas. A resposta que recebi foi sintética:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Basta-te o suficiente&lt;br /&gt;Um abraço do teu amigo, Abel.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;—&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prezado,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comecei a redação deste texto com uma enorme frustração. Escapava-me qualquer vulto da compreensão de teu intento e eu só o podia conceber como uma imensa indiferença — para não dizer como uma piada — quanto à minha angústia. Não entendo como se pode condensar tantas questões em uma única resposta e, por te conhecer... não sei; esperava mais. Redigi algumas páginas e, quando realizei-me irritado, só fiz abandonar minha mesa e tomar um bom chimarrão ao abrigo do sol e do vento. Decidi ponderar tua resposta e dirigir-te uma mensagem própria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Creio que eu estava cego ao não notar que respondeste àquilo que se recolhia em meu esforço, a saber, a angústia. Porém, identificando isto, poderia eu dar-me por satisfeito com tua resposta? Nem um pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Concentrei-me, então, na pergunta pela propriedade da angústia. Neste ponto, fiquei um pouco indeciso e confuso, já que não enxergava um fio condutor que me capacitasse a aceder à resposta. Optei, assim, por deixar falar tua frase e perscrutá-la. Confesso que ela ribombou aos meus ouvidos, mas seu apelo tão gritante ainda era surdo. Ou, melhor: eu estava surdo ao apelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiro, entendi que a mensagem fora endereçada a mim, e a mim exclusivamente. "Basta-te", eu lia. Porém, falava-me mais aquele que, creio, é o termo chave de teu dizer: o suficiente. Com meu chimarrão, conjeturei longas horas sobre isto sem chegar a qualquer conclusão. O que é o suficiente? Percebi então que tratava com um termo simultaneamente determinado e indeterminado. Esta indeterminação, por sua vez, reduplicava-se em como o suficiente permanecia indeterminado para mim e também em como sua própria falta de determinação articulava-se na frase. Poderia, assim, considerar que somente o suficiente, se isolado, constituiria a resposta que me endereçaste, sendo os demais termos supérfluos? Isto passou-me pelo pensamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, notando que o suficiente vigorava não determinado, ocorreu-me que talvez eu devesse perguntá-lo fora de tua frase. Isso, creio, era um sinal precedente de que aquela mensagem endereçava-se a mim e que somente eu poderia responder ao seu apelo. Porém, o que me convocava? A angústia — e isto fizeste bem em apontar. Antes de meus questionamentos, era a angústia que me convocava e somente eu, nesta condição, poderia recolher-me a este apelo. Porém, ainda não sabia em que medida isso se relacionava a o suficiente. Recorri a um dicionário e chamou-me a atenção a seguinte acepção: Tanto quanto necessário; bastante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto devo aprimorar-me? Baste-te bastante. Diz-se, contudo, no senso comum, bastante como diz-se muito. Deveria aprimorar-me muito, sendo muito aqui equiparado ao necessário encontrado no dicionário? Quanto devo aprimorar-me? Basta-te muito, o necessário. Era essa tua resposta?  Mantive esta possibilidade suspensa e deixei que minha própria incerteza articulasse uma nova exegese.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sendo assim, minha reação mais imediata foi a intuição da circularidade da frase. Ou de sua pretensa redundância: basta-te, bastante. Ora, a qualquer um parece óbvio que basta o bastante. Nisso, senti teu riso silencioso na errância de meu pensamento. Talvez fosse um sinal de que eu não poderia analisar a frase — conforme se pode entender análise pela diferenciação de seus termos — sem dissolver aquilo que ela mesmo encobria e desencobria. Na análise eu perderia a síntese e a síntese parecia-me inacessível sem a análise. Fiei-me na circularidade para poder continuar a conjeturar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O suficiente, porém, continuava não ouvido em sua originariedade e consequentemente continuava pungente em meu questionar. O que se evidenciava nesta reunião e nesta diferenciação entre o suficiente e o bastante? Bastante dizia até bastar. Bastar, por sua vez, reencontrava o suficiente, mas com o apêndice não ser preciso mais do que; satisfazer. Assim, "Basta-te o suficiente" diz "Basta-te a satisfação" e "Basta-te bastar-te"? Era isso? Eu deveria aprimorar-me até me satisfazer? Embora fosse uma possível resposta, dei por certo que não, pois isso seria o equivalente a devolveres minha pergunta como quem diz: eu não tenho a resposta, ela deve estar em ti e, se pretendeste dizer isso, creio que terias sido muito mais direto e incisivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até bastar deixa ver uma medida que o suficiente oculta parcialmente, mas que grita devido à presença do até. Que então me diz este suficiente, uma vez que jaz não determinado na frase? Diz: a medida com que me meço, basta-te a medida com que te medes, a medida com que te medes te basta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fica claro para mim, então, que a circularidade da frase não iguala os termos e não diz "Basta-te o bastante", como intuí inicialmente; a frase, do contrário, ela grita: "Basta-te!", como quem grita: "Mede-te"! no sentido de "Toma a tua medida!", "Assume-te!" ou "Escuta-te!" O recurso à circularidade, por sua vez, diz: "Mede-te! Faz de ti a tua medida, pois é esta medida que te mede!"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, entendo que tua resposta é um apelo a mim mesmo ante minha angústia e, com isso, a asserção de que, antes de ser eu a por minha própria medida — o que difere completamente de encontrar minha própria medida; eu só posso ser através dessa mesma medida. Mas, até onde posso por esta medida ou, melhor, o que me diz esta mesma medida? Diz "basta-te (a simplicidade do) suficiente", diz "Seja a tua medida, à medida do su-ficiente, não te percas." É até aí que devo me aprimorar, agora vejo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Muito obrigado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teu amigo,&lt;br /&gt;Guilherme&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-8331585732049021044?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/8331585732049021044/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=8331585732049021044&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/8331585732049021044'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/8331585732049021044'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/04/nao-tenho-por-habito-publicar.html' title='Quanto devo me aprimorar?'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-32287475542350064</id><published>2011-03-26T17:11:00.001-07:00</published><updated>2011-03-26T17:47:14.957-07:00</updated><title type='text'>Esse é para os meus amigos</title><content type='html'>&lt;p&gt;Esse rascunho é para os meus amigos, para aqueles que tenho e também para aqueles que não tenho. Na verdade, os amigos que tenho são justamente aqueles que verdadeiramente não tenho. E imaginar os que não tenho é apenas uma representação que tenho. No momento, porém, tudo que tenho é a vaga sensação de que não tenho amigos. Terei eu? Penso que, se não tivesse, não estaria escrevendo para eles, mas, se os tivesse, talvez não precisasse escrever para eles. Mais sensato, talvez, seja considerar que porque os tenho não os tenho e que não os ter é justamente a maneira de tê-los. A modalidade que tem a amizade, portanto, é o não-ter, que faz com que, quando não se tem amigos, deseje-se ter amigos e quando não se tem os amigos, verdadeiramente se abra uma possibilidade de tê-los que termina por conduzir outra vez ao não ter que abre uma nova possibilidade de tê-los. Também, quanto mais amigos tenho, menos tenho meus amigos e mais tenho a sensação de não ter amigos. Mas quanto menos tenho meus amigos, mais também os tenho. Penso, então, que, porque não tenho verdadeiramente meus amigos, escrevo este pequeno texto para poder tê-los. Assim, a única coisa que importa aqui é:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;em&gt;Como tenho me saído como amigo para vocês e como posso me tornar um amigo melhor?&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Agradeço a todos que responderem a pergunta. Abraços.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-32287475542350064?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/32287475542350064/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=32287475542350064&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/32287475542350064'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/32287475542350064'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/03/esse-e-para-os-meus-amigos.html' title='Esse é para os meus amigos'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-3191844011435603880</id><published>2011-03-21T21:36:00.000-07:00</published><updated>2011-03-21T21:37:46.392-07:00</updated><title type='text'>"Eu te amo"</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Todos os dias, esse desejo de viver um amor maior. Um sorriso num rosto desconcertado e beijos e abraços que já não suficientes para dar conta de uma história. O "eu te amo" é lançado ao ar, não como constatação indicativa, mas como apelo superlativo daquele amante apaixonado submetido pelo amor. Quer amar mais, mas não lhe é possível. Resta-lhe render-se ao seu próprio sentimento e resignar-se na humildade de reconhecer um sentimento que lhe excede, mas que só pode encarnar-se através dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas paredes brancas reverbera a pequena frase. Os braços apertam o abraço e os corpos deslizam no destino que se desenha, como se tudo acabasse ali. Pelas costas, um sorriso solitário. Por maior que seja a entrega e por maior que seja a cumplicidade, o sorriso às costas do abraço é sempre só. Mas já é o próprio amor que o sorri, tornando-se mesmo maior que os beijos e as carícias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na frase, o vazio. Com o vazio, a dúvida. E o olhar descai e os olhos se fecham. As paredes agora contemplam uma lágrima que escorre vagarosa por um rosto triste, mas que não apaga o sorriso. Evidencia-se a falta. Não aquela dos buracos negros e das incertezas da relação, mas aquela de um futuro antecipado que traz de antemão um amor que ainda não tem vez. Não há por onde fazer-se e não há meio de o conceber e, em sua condição atual, o amante nada pode fazer senão pressentir este sentimento que se aproxima e que o fascina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Eu te amo". As palavras ecoam no ar. Perdem-se. Faz-se o silêncio e os corpos calam-se no abraço quieto. O vazio é preenchido por uma dúvida insistente. Sem possibilidade, talvez seja melhor abandonar. O amor cogita findar-se através do corpo dos amantes. As portas e as paredes se fecham. Já não enxergam nada. A incerteza ecoa somente na mente e alimenta-se de um sentimento crescente. É porque o amor é grande que essa incerteza também é grande.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O abraço se desfaz. Os olhares são indecifráveis. A dúvida tem seu paroxismo. É porque se quer mais que se adivinha a separação. E é pelo sorriso outrora solitário que se reencontra o fio condutor dessa mesma paixão. O abraço retorna e beijos entornam-se. Na marca solitária encontra-se a possibilidade de reconciliação e, quando se refazem os carinhos, dispara-se novamente o antigo "Eu te amo" que ecoa novamente sozinho pelas paredes brancas e desfaz-se feliz quando encontra seu par.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Eu te amo", responde a menina ao garoto.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-3191844011435603880?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/3191844011435603880/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=3191844011435603880&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/3191844011435603880'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/3191844011435603880'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/03/eu-te-amo.html' title='&quot;Eu te amo&quot;'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-4453510277713972794</id><published>2011-03-21T14:28:00.001-07:00</published><updated>2011-03-21T14:29:27.191-07:00</updated><title type='text'>"Das amizades passadas e dos quilômetros rodados" e "As nossas velhas angústias"</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Das amizades passadas e dos quilômetros rodados&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Na cerveja gelada do sol que nasce do vento vem as lágrimas frias do tempo justo onde deixamos para trás os amigos e rasgamos na pele as marcas de uma identidade implacável que ninguém nos deixa ser senão nós mesmos.&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sabem os amigos de estrada que o sol logo se porá e que o caminho findará e que vidas são solitárias mesmo quando decidem juntar-se por instantes já perdem-se no amanhecer e o que fica é o amargo e o gelo de um copo que não quer ficar cheio de uma cerveja que é a memória das conversas e dos bons momentos que agora precisam ser ultrapassados e entornados no retorno constante das garrafas que mantém sempre nossos copos cheios de lembranças.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;As nossas velhas angústias&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Perco a vida que jamais floresce nas águas cristalinas do amanhã e que me deixa partido nos sonhos quando se desdobra em outra no hoje mas não me deixa num ser que se reduplica e vive numa angústia já velha e companheira a marca de uma diferença ambígua e retroagente que vê no que é as reentrâncias do que não é num desaguadouro cristalino e fluido que porque vive ambos os reduplica e destroi os dois.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Dir-se-ia tratar da duplicação do duplo que desmutiplica uma vida fragmentada côncentrica no frágil de um instante que é senão a linha média de onde se pode apreender a descontinuidade e a policontinuidade do ser.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-4453510277713972794?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/4453510277713972794/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=4453510277713972794&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/4453510277713972794'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/4453510277713972794'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/03/das-amizades-passadas-e-dos-quilometros_21.html' title='&quot;Das amizades passadas e dos quilômetros rodados&quot; e &quot;As nossas velhas angústias&quot;'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-345397371607840787</id><published>2011-03-11T09:37:00.000-08:00</published><updated>2011-03-15T06:44:51.330-07:00</updated><title type='text'>Ilhado em São Lourenço do Sul</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Uma breve narrativa sobre aquilo que vivi e presenciei na enchente de São Lourenço do Sul.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;—&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Acordei à sinfonia da chuva moderada e do vento insistente, acompanhados por folhagens drapejantes e raios de sol exíguos, porém hábeis, capazes de esgueirar-se através das frestas da janela e iluminar timidamente o quarto. Ainda deitado, eu assistia minha namorada preparando suas malas para retornarmos à Pelotas. Era uma quinta-feira e ainda não passavam das dez horas. Para o leitor, a cena só pode ser risível. Não tenho a pretensão de refutar tal consideração; eu mesmo tinha consciência disso e agora só posso confirmá-lo: minha felicidade era tamanha que, antes de levantar, encontrei-me com um único desejo: queria ficar ali para sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como de costume, vaguei pelos aposentos da casa para checar se já havia alguém acordado, mas apenas encontrei um grande número de malas na cozinha e todas as entradas da casa já fechadas, excetuando-se uma pequena abertura na sala principal por onde se podia entrever a praia. Sem preocupar-me muito com aquilo, apenas contemplei a lagoa por alguns minutos; meu olhar pairava sobre aquelas águas tranquilas e somente avistava lá minha imensa vontade de permanecer naquele lugar. Nenhum outro pensamento disputava meu espaço mental então.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco tempo depois, ouvi o ranger do portão de acesso e o ronco do motor do carro. Em instantes, minha mãe invadia a casa eufórica, convidando-me para embarcar no carro e ir até as margens do arroio para contemplar a enchente. Lancei um olhar até o final da avenida e só pude divisar umas poucas poças; creio que algumas até mereciam certo espanto, mas, no geral, julguei cômico o vigor que minha mãe investia em suas próprias palavras. Mesmo assim, cedi às suas súplicas e entrei no carro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;—&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei descrever precisamente as emoções concomitantes à visão que me acometia naquele instante: o arroio havia insuflado cerca de 2 ou 3 metros — foi a impressão que tive — e as águas outrora calmas agora configuravam uma correnteza avassaladora em cujo final jazia um buraco insaciável que devorava tudo com que lhe alimentavam as águas. Afim de tecer uma breve lista, somente posso recorrer à imaginação do leitor; adianto que a correnteza acarreava desde animais até moradias, incluindo itens mais estranhos, como um robô pirata que costumava balbuciar uma canção, convidando os transeuntes a um gratificante passeio de escuna nas tardes do verão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntando entre os presentes, obtemos alguns recortes situacionais e pudemos esboçar uma figura geral imediata. No ponto onde estávamos, posso afirmar com relativa tranquilidade que a situação era senão um atrativo à curiosidade mórbida daqueles que se acumulavam ali; alguns quilômetros adiante, no entanto, eram visíveis alguns indícios maiores — e mais humanos— das dimensões da enchente que agora já deve ser de conhecimento nacional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez o leitor tenha percebido os matizes da situação: o dia era ridículo. O sol refulgia, o vento, com o devir da tarde, extenuava-se e uma certa indolência instalava-se nos arredores da praia. Se tal tragédia não tivesse se imposto sobre nossas sortes, só posso crer, mesmo que ingenuamente, que um grande contingente de moradores ad hoc de São Lourenço do Sul estaria mais preocupado em aproveitar o entardecer na praia do que em salvar seus pertences da implacabilidade das águas. Aqui peço perdão, mas não posso deixar de evidenciar a face mordaz do evento. Contudo, os leitores podem ficar sossegados; não me deterei nela, uma vez que tenho a segurança de que ela será bem retratada na obra de meu amigo &lt;a href="http://www.twitter.com/gregorywc"&gt;Gregory&lt;/a&gt; (assim que possível, disponibilizarei links para vídeos e postagens).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afim de esclarecer esta enorme mancha negra de ignorância que precede minha consciência do evento, tentarei determinar algumas datas e horas. Embora eu tenha lembrança de uma chuva recorrente no dia 9, das 20h 30min à 1h e 30min, só me apercebi da gravidade da situação às 11h do dia 10 (dia em que lhes escrevo). No rádio, ouvi que as primeiras equipes emergenciais chegaram à cidade às 10 horas, período em que acordei. Igualmente, lembro de ter ouvido, na mesma transmissão, declarações acerca da enorme quantidade de chuva que escoou dos céus por cerca de 6 horas consecutivas. Como à 1 hora da madrugada a insistência das águas já me era notória, arrisco afirmar que o evento em questão passou a tomar proporções calamitosas por volta das 5h e 30min do dia 10. Dentro de uma miríade de questões, escolho esta para partilhar com o leitor: que mais afligem o espírito humano após seis ou mais horas de crescente desespero?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em meu pai, a preocupação já era visível, transformando-se em um certo desespero por intermédio da angústia; minha avó reside no centro da cidade, nas imediações das regiões mais afetadas, e, como ela já passa dos 90 anos de idade, a preocupação era, de fato, a única maneira possível de conexão com ela, já que as inundações inviabilizavam qualquer acesso da praia até o centro. Ao ver que arriscaríamos cruzar uma avenida, um morador nos advertiu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Olha, eu moro aqui desde 82 e nunca tinha visto nada assim. Se eu fosse o senhor, nem ia que a água tá pelo peito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa altura, um prurido espraiava-se por meu corpo; intuo que seja resultado de um imenso desconforto originário daquilo que se conhece por turismo sádico somado a uma enorme sensação de impotência ante toda aquela catástrofe. Desolados, voltamos para casa e, enquanto minha mãe preparava o almoço, improvisamos uma roda de chimarrão simbólica à mesa da cozinha. Sem luz e água, condescendemos rapidamente em adotar todas as medidas de economia cabíveis; utilizamos os celulares para contatar os familiares mais próximos e, em seguida, os aparelhos foram desligados; distribuí todos os baldes disponíveis pelo pátio na tentativa de captar a maior quantidade de água da chuva possível; anuímos em utilizar o banheiro somente em horários programados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por volta das 14 horas retornamos às ruas no intento de chegar ao centro. A chuva cessara, mas, aos nossos olhos, a situação ainda era crítica; o arroio operava em seu limite e as águas insistiam sobre as casas e as ruas. Danos menores eram visíveis: os postos de pesca à margem do arroio haviam sido todos destruídos e muitos trailers continuavam submersos à margem oposta, onde se situa o camping municipal. Mais adiante, contudo, a destruição era cinematográfica. Juro ao leitor que, nestes vinte e dois anos que tenho transitado por São Lourenço do Sul, tinha escapado completamente à minha consciência que o bairro entre a praia e o centro assentava-se ao final de uma considerável descida. Pois bem, o efeito que tentarei descrever assemelha-se a uma piscina. O morro, bem como o grande contingente de casas antepostas, terminou por represar as águas, que avançavam tranquilas sobre a região. Quarenta metros adentro, avistávamos alguns moradores somente com as cabeças descobertas e outros, mais ao fundo, trafegavam em botes a remo. Foi por volta deste horário que me encontrei com Gregory. A primeira sentença de que me recordo é esta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Velho, já passou até uma vaca aí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde então passei a tomar conhecimento dos mais insólitos dos fatos da enchente. Caminhamos às margens do arroio e registramos a destruição mais imediata. Propus-me a mostrar-lhe a piscina que mencionei agora há pouco, mas não conseguimos acessar o terreno sem o auxílio de um veículo. No caminho de volta, alguns moradores emocionavam-se contando aquilo por que passavam: a residência da filha de um deles havia sido submersa e a garota teve de escapar pelo telhado; outra senhora chorava ao telefone: "Foi TUDO! Tudo mesmo! A gente tá num galpão onde tão abrigando um pessoal e fazendo sopão." Instantes depois, o pai do Gregory cruzou de carro por nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Uns caras arrombaram e tão pilhando o barco do Sílvio!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As leis foram parcial e temporariamente derrogadas. Os carros avançavam na contramão e invadiam acelerados as ruas preferenciais. Em meu percurso, lembro de ter evitado, por pouco, duas colisões. Afora as embarcações saqueadas, o rumor pelas ruas era de que um minimercado local também fora arrombado e saqueado, de vez que o dono do estabelecimento recusara-se a doar qualquer coisa para os desabrigados. Creio que a amplificação do lado humano só pode dar-se com a potenciação de um lado inumano, tal como se um estivesse intimamente atrelado ao outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 300px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-ESoNBVS5K9c/TX7XfzfMDaI/AAAAAAAAANk/h8xUH3d4Hy4/s400/-11032011513.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5584137529382931874" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Preocupado, encontrei-me com meu pai e nos lançamos de volta para casa; minha mãe estava então sozinha e, como nossa região fora pouco afetada, temíamos, talvez exageradamente, que tentassem adentrar a residência e as coisas fugissem do controle. No trajeto, pudemos contar oito barcos destruídos ao longo da orla da praia, sendo que eram visíveis somente fragmentos de suas extremidades e, em alguns casos, também as velas. Em frente à minha casa, na lagoa, repousavam outras quinze embarcações — antecipando-se à correnteza inexorável, muitos barcos fugiram da zona portuária em direção à lagoa. Alguns condutores procuravam retornar nadando à terra firme e observar as embarcações das areias, mas, com a notícia dos saques, a maioria retornou rapidamente. Mais tarde, ouvi no rádio que cerca de 70 barcos foram arrastados e destruídos pela fúria da enchente. Para fins ilustrativos, recorrendo a uma imagem mental, arrisco que o percurso dos barcos à praia não deveria exceder a faixa dos 500 metros de distância. Quanto à minha mãe, ela dormia no sofá da sala de estar. Ridículo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 300px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-L3iZVFGHv60/TX7XfsjHOqI/AAAAAAAAANc/YP-IHlRmU-A/s400/-10032011491.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5584137527520344738" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de informá-la, dividimo-nos. Passavam das 16 horas quando meu pai sacou a bicicleta e foi procurar um acesso alternativo ao centro. Minha namorada e eu fomos de carro atrás de algumas fotos e de informações sobre as vias costumeiras de acesso. Nas ruas, se o nível das águas já baixava, o caos não parecia em nada ter cedido. As ruas laterais às avenidas e às ruas principais, estas pavimentadas sobre um terreno elevado,  continuavam submersas em grande parte. Em alguns pontos, podia-se intuir a presença de um carro ou outro pela pequena faixa descoberta de suas superfícies. Em outra rua, o calçamento sob casas e carros ruiu com a ação constante das águas e desmoronou; em um ponto visivelmente seco formou-se uma poça suficientemente grande para devorar parcialmente um carro. Por toda extensão das ruas, perfilavam-se pessoas expondo seus bens — tanto os salvos quanto os perdidos — pelas calçadas. Outras apenas lamentavam as instalações destruídas enquanto abraçadas nos presentes. Do terreno firme, um rapaz gritou para outro que emergia das águas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— E aí, Pedrinho! Salvou o quê lá?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em resposta, Pedrinho apenas riu em alto e bom som, debochando da questão de seu amigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 300px;" src="http://3.bp.blogspot.com/-oI-BC4dncks/TX7XfYYxjDI/AAAAAAAAANM/7Jf3876blBM/s400/-10032011486.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5584137522108271666" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um outro morador local contou-nos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Cara, foi surreal. Quando acordei e fui abrir a janela tinha uma lancha passando na minha sacada. UMA LANCHA!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de nossos esforços, não conseguimos acesso à moradia de minha avó. Desentendi-me com meu pai por causa disso; ele pretendia forçar seu caminho através das águas mais rasas locomovendo-se na marcha ré e eu, temeroso que ele viesse a descair em uma das crateras, contestei agressivamente sua decisão, ponderando que ele estaria arriscando nosso único meio de transporte de volta para Pelotas e de deslocamento na cidade. A briga pareceu, em parte, vã. O desespero de meu pai sentou-o no carro e dirigiu-o até uma avenida. A despeito de seus esforços, não conseguiu passagem. Mais tarde, no entanto, conseguimos contato telefônico com minha avó. Ela divide um terreno com sua nora. Este, pelo que me consta, separa-se da calçada por uma rampa de pouco mais de 1 metro de altura. A casa de minha avó ainda possui mais dois degraus de acesso, o que me permite estimar que o piso da casa situe-se aproximadamente a 1,5 metros do terreno. A casa de sua nora, no entanto, não comparte a mesma altura e vale-se apenas da elevação inicial do terreno. Na residência de minha avó apenas formou-se uma fina camada de água no piso da cozinha; na de minha tia, no entanto, a água descansou pela altura dos joelhos. Ela ainda não sabe pontificar o que perdeu efetivamente na inundação. Sei é que uma lancha ofereceu resgate e ambas recusaram. "Pombas, mas são teimosas, tchê!", completou meu pai quando me transmitiu esta informação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda, pouco antes de anoitecer, quando retornamos, encontramos uma bicicleta estacionada em nosso pátio; um rapaz cruzou os pontos mais atingidos da cidade quando se lançou a praia na tentativa de resgatar seu barco, aportado às margens do arroio até mais cedo. Perguntou à minha mãe se poderia deixar sua bicicleta ali e, em seguida, colocou-se a nadar até uma das embarcações que aguardavam na lagoa, com cuja ajuda conseguiu encontrar seu barco pouco mais tarde. Agradeceu-nos e partiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 300px; height: 400px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-zxeIBljMbtM/TX7XfSdX_5I/AAAAAAAAANU/SBKyG_KhT6Q/s400/-10032011487.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5584137520516956050" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao fim do dia, formamos mais uma roda de chimarrão à mesa da cozinha e, conversando, esperamos anoitecer. Às 19h 38min eu olhava pela janela quando a escuridão engoliu completamente a praia. Poucas horas atrás, estimava-se que mais de 70 pessoas ainda continuavam desaparecidas e/ou ilhadas e outras 20 haviam morrido. As primeiras mortes que chegaram aos meus ouvidos foram as de 3 crianças, logo pelo período da manhã. Com o único hospital municipal superlotado, a cidade pede socorro. A chuva continua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 300px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-2hT4p3jz1cw/TX7XgOGNW8I/AAAAAAAAANs/HdazWLdKitI/s400/-12032011522.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5584137536525917122" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;—&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda desconheço as imagens que estão sendo veiculadas na televisão, mas tenho consciência que as dimensões do evento excedem em muito aquilo que retrato aqui. Para publicar este texto, recorro à limitada conexão de meu celular, mas prometo ao leitor enriquecer a narrativa com as imagens registradas em nossas caminhadas assim que me for possível.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;* As fotos são todas da autoria da minha namorada, &lt;a href="http://www.twitter.com/la_vieira"&gt;Larissa&lt;/a&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-345397371607840787?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/345397371607840787/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=345397371607840787&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/345397371607840787'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/345397371607840787'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/03/ilhado-em-sao-lourenco-do-sul.html' title='Ilhado em São Lourenço do Sul'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-ESoNBVS5K9c/TX7XfzfMDaI/AAAAAAAAANk/h8xUH3d4Hy4/s72-c/-11032011513.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-6946823587443772391</id><published>2011-03-05T19:28:00.000-08:00</published><updated>2011-03-05T19:34:32.564-08:00</updated><title type='text'>Você é assim</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Você tem uma certa necessidade, talvez pequena, de que as pessoas gostem de você e lhe admirem, mas, ainda assim, tende a ser uma pessoa crítica consigo mesma, pois, embora algumas fragilidades em sua personalidade sejam evidentes, você normalmente tenta e consegue compensá-las.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por fora, disciplina e autocontrole.  Por dentro, uma certa preocupação e uma insegurança que, às vezes, lhe traz dúvidas sérias sobre ter tomado uma decisão correta ou mesmo ter feito a coisa certa no passado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No geral, prefere a flexibilidade e uma pequena quantia de mudanças e variedade, pois sente-se desconfortável ao jugo de restrições ou de limitações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Consequentemente, sente orgulho por pensar de maneira independente, sem aceitar aquilo que os outros lhe falam sem provas ou argumentos convincentes. Logo, acha pouco aconselhável expressar-se muito francamente para os outros, o que lhe leva a ser uma pessoa extrovertida, afetiva e sociável com aqueles poucos que você mantém por perto, mas mais introvertida, cautelosa e reservada nas demais situações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda, anda sob a sombra da incompletude ou do segredo, pois você possui uma certa habilidade não utilizada, uma potencialidade oculta, da qual você tem consciência, mas ainda não obteve benefícios. Porém, alguns de seus desejos profundos tendem a ser um pouco irrealistas.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-6946823587443772391?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/6946823587443772391/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=6946823587443772391&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/6946823587443772391'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/6946823587443772391'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/03/voce-e-assim.html' title='Você é assim'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-3142969411943670722</id><published>2011-01-22T04:58:00.000-08:00</published><updated>2011-01-22T05:00:18.783-08:00</updated><title type='text'>Por que a gente briga com quem a gente mais gosta?</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;Mais de 6 bilhões de pessoas no mundo. É um número bem grande.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;E a gente provavelmente tem ideia desses 6 bilhões através de umas 12 pessoas que nos são próximas.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Dessas 12 pessoas, 3 se importam muito conosco. De todos os 6 bilhões.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;E, ainda, são com essas 3 pessoas que a gente briga.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;De acordo com uma pesquisa, as principais causas são essas: a geladeira ficou aberta, o chimarrão ficou muito quente, está ventoso para dar uma caminhada, a gente não quer ir em tal lugar hoje e tal filme não nos agrada.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Por que, nessas horas, parece tão fácil guardar a raiva em uma caixinha, enquanto a alegria fica tão distante?&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt; E por que a gente tem de ser cuzão e sabe-tudo com as 3 pessoas que provavelmente ligam para nós?&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;E quando foi a última vez que a gente fez algo inesquecível para essas pessoas?&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Uma vez, eu vi no seriado Modern Family que, no caso, para ser um bom pai, basta estar presente. Acho que para ser um grande amigo vale o mesmo.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Agora, a gente podia ficar o dia todo conversando sobre o que estar presente quer dizer. Ou a gente pode escolher ocupar-nos estando com nossos amigos e amigas. E, em qualquer relacionamento, quando termina a amizade, termina a relação junto.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;-&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quais são as principais qualidades que vocês acham INDISPENSÁVEIS para uma grande amizade?&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-3142969411943670722?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/3142969411943670722/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=3142969411943670722&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/3142969411943670722'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/3142969411943670722'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/01/por-que-gente-briga-com-quem-gente-mais.html' title='Por que a gente briga com quem a gente mais gosta?'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-2493720411276039102</id><published>2011-01-11T18:01:00.000-08:00</published><updated>2011-01-11T18:07:58.335-08:00</updated><title type='text'>Eternidade Schopenhauer Borges Bernardo</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Primeiro gostaria de desculpar-me contigo pelo confuso emaranhado que alinhavei no título; faço-o, assim, com um breve comentário que tu poderás tomar livremente como uma breve história desta desculpa, a que espero acrescer à minha intenção inicial como recurso para rascunhá-la aqui. Caso contrário, não sei se eu seria capaz de informá-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Volto então ao título e às desculpas: não pretendo comentar aqui Schopenhauer nem Borges; não quero que tu cries uma ilusão acerca da minha capacidade de fazê-lo, como se eu o pudesse, mas não o quisesse. Confesso que eu não poderia lançar-me a esta empresa sem soar duplamente risível: a primeira vez pelo correr da própria empresa;  a segunda, pela arrogância da qual me encontraria possesso e que antecederia o motivo anterior, acerando-o. Toma os nomes como menções ou, se assim preferires, notações bibliográficas. Esta é a história:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre uma hora e meia e vinte minutos atrás, eu encontrava-me caminhando na praia, algo que amo fazer. Atento também ao horário, sem ser específico no entanto: são raríssimas as coisas que me alegram mais de que uma boa caminhada, descalço, na areia ao pôr-do-sol. Não é minha intenção dar ocasião a uma descrição deformada do indescritível, apenas fazer presente o inefável signo da mundanidade que evola desse passeio despreocupado — ele será precioso nas linhas pósteras. Assim, enquanto saia de mim e, de fora, assegurava-me de minha presença naquela prainha, tal como se eu dissesse a mim mesmo: "Estou aqui, tomando chimarrão e caminhando contra o vento na praia de São Lourenço do Sul".  Precisamente aí, encontrei-me com um textículo que Borges subsumiu no primeiro capítulo de sua Historia de la eternidad, no qual descreve magnanimamente uma caminhada, também a esmo, onde acedeu à eternidade, ou ao estado de eternidade. Confesso que minha memória é péssima; normalmente reencontro-me com minhas recordações a partir de um portal emocional; rememoro a relação que estabeleci com a escritura e, não sem consciência de minha ingenuidade, retomo a escritura já contaminada por esta afetividade. Do fragmento em questão recordo-me das palavras esmo, eternidade e bairro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesta coincidência, encontro-me com o Borges que jaz por detrás das páginas no que ele parece retomar com o texto uma sentença de um Schopenhauer que é conduzido à eternidade pelos movimentos de um gato. Possui-me, porém, na minha situação, um arremedo do questionamento despertador dos raciocínios de ambos: será aquilo (de que falam) o mesmo de N anos atrás? Ao que lembro, Schopenhauer complementa: será louco aquele que duvidar que não seja. Igualmente, parece-me que Borges está persuadido disso; o bálsamo que lhe acomete é o mesmo de um sem-número de anos atrás. Não obstante a fragilidade de minha memória, recordo-me que, nos bastidores de minha leitura, eu me recordava de, pouco tempo atrás, rascunhar um pequeno texto tratando desta sensação de eternidade. Se tu quiseres, podes acessá-lo através de meu espaço pessoal no Tumblr (www.grauzero.tumblr.com) No momento, foi-me inevitável a comparação entre o meu esforço e aquele de Borges; encontrei-me apequenado diante do trecho que lia. Esquivo-me de minhas lamentações e retomo o que (me) interessa: em minha caminhada, acometeu-me uma questão sobre a origem das nuvens e dos ventos. De onde vinham? Para onde iam? Aquelas nuvens, aqueles ventos, eram eles os mesmos de anos atrás? Rapidamente, meu pensamento lembrou os fragmentos de Borges e de Schopenhauer e deslizou para a origem de meus questionamentos: seria eu capaz de chegar a tais questões sem ter passado por aquelas leituras?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste ponto, faço mais uma interrupção e peço concessão para introduzir dois fragmentos de autoria de meu amigo Bernardo. O primeiro, não lembro agora se em seu twitter ou em seu blog, tratava da distinção entre a literatura e a vida. O segundo, caminharei lentamente em sua direção enquanto falo do primeiro. Não sei precisar se Bernardo estava persuadido de não haver diferença entre a vida e a literatura. Da mesma maneira, não posso elucidar a virtual dúvida que eu projeto na mente de meus possíveis leitores: não sei de que Bernardo tratava ao relacionar os termos literatura e vida. Talvez apenas sondasse o velho dístico:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A arte imita a vida. A vida imita a arte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Admito que isso só me ocorreu agora, no exato momento em que concluo esta frase; tomei licença e reverti-me em sua dúvida sobre os termos escrever e viver. Creio que aqui, sem maiores prejuízos, pode-se permutar ler por escrever. Ao fazê-lo, contudo, parece premente encontrar um termo mais amplo capaz de abranger tanto ler quanto escrever; saltarei sobre isso. Sendo assim, retomo aquilo tratado por Bernardo e expresso que ainda não fui demovido da crença de que não há diferença entre escrever e viver. Através da leitura de Borges cheguei, antes de à questão, à intuição da semelhança. Pergunto-me, talvez em vão, até que ponto me encontro possesso por tal leitura, de vez que emprego neste pequeno escrito várias palavras que se faziam presente na já referida obra — sem, contudo, pretender aproximar a técnica empregada em cada um dos textos. Outrora, se através de Schopenhauer, ao menos no que me pareceu, Borges perguntava-se sobre a eternidade (sem questionar a precisão deste termo) daquilo que via; hoje, eu, através de Borges, pergunto-me por minha própria pergunta; chego, arrisco, à eternidade da questão — tanto quanto à eternidade, ou a persistência, das nuvens e dos ventos que me orbitam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Evidencio então o segundo comentário de Bernardo: há, em seu blog, a transcrição de um fragmento de História da eternidade onde o argentino dedica-se à questão do eterno retorno do mesmo, cuja autoria é atribuída a Nietzsche. Não me demorarei sobre esta questão; resguardar-me-ei ao assombro que me toma quando penso nesta circularidade do tempo, eis que foi o mesmo Bernardo quem me apresentou o referido livro de Borges e contribuiu para fixar em minha memória as ideias de Nietzsche. Não que se trate de algo sobrenatural; o mais apressado dos leitores tomaria esta como uma trivialidade das mais ordinárias; eu apenas teria lembrado daquele que me indicou o livro quando, tempos depois, lancei-me efetivamente a sua leitura. Não, não é isso que me incomoda; eu arrastava comigo a recomendação de meu amigo já no momento em que lia as primeiras páginas. Assim, não é a intermitência de minhas lembranças — que ora se apagam e ora refulgem, desenhando um círculo menos pelo acabamento de seus contornos que por uma disfunção de minha memória — aquilo que me assombra, mas o exato espelhamento, e não a circularidade, com que as coisas pareceram se ordenar aqui. Eu poderia esboçá-lo grosseiramente assim: Schopenhauer pergunta-se sobre a eternidade do que vê e redige algo. Borges apodera-se da redação e pergunta-se sobre a eternidade do que vê. Eu apodero-me da redação de Borges e pergunto-me sobre a eternidade daquilo que vejo e sobre a questão de Borges originar-se a partir de sua leitura de Schopenhauer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez seja apenas uma impressão minha, mas os eventos parecem-me espelhados, como que um de frente para o outro. Não obstante essa consideração, a circularidade e o retorno da dúvida sobre a eternidade e a duração daquilo que se vê parecem evidentes, mas parece-me que essa circularidade dá-se a partir de um certo espelhamento, ou de um certo encadeamento, em que a questão mesma persiste e parece encadear por si só um novo evento que, a despeito de tal persistência, aparenta ser negociado como um novo encontro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contudo, detenho-me aqui retornando ao título. Não tenho a pretensão de tomar esta questão como resolvida e nem a ambição para resolvê-la com uma escritura. Como bem pudeste notar, prescindi da pontuação; meu intuito era tomar aqueles termos e, ao longo do próprio texto, organizá-los. Perdoa-me, inventei isso agora para parecer coerente; minha intenção inicial, ao abrir o laptop para redigir algo, era demasiado diferente. Peço desculpas.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-2493720411276039102?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/2493720411276039102/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=2493720411276039102&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/2493720411276039102'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/2493720411276039102'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/01/eternidade-schopenhauer-borges-bernardo.html' title='Eternidade Schopenhauer Borges Bernardo'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-3371417194898672228</id><published>2011-01-08T08:46:00.000-08:00</published><updated>2011-01-08T09:14:34.918-08:00</updated><title type='text'>Acabou minha vontade de escrever</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;Começo esta escritura tendo em mente um fim único: desenhar o término de minha vontade de escrever.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Hoje olhei-me no espelho em uma de minhas camisas favoritas e, por um momento, combinei um sorriso com o pensamento de que o sol da praia havia feito bem à camisa, que teve seu esmaecido azul destacado sobre aquela pele levemente amorenada. Detive-me um pouco na moldura do espelho. Pouco depois, capturou-me a atenção uma pequena rosa mergulhada em um copo que ornava a mesa sobre a qual descansava meu duplo. Procurei uma relação entre o espelho, a moldura, a rosa, o tampo de mármore e o copo de vidro. Tive vontade de deixar a barba crescer.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;Cerca de uma hora antes, eu me encontrava sozinho sentado sobre a areia fria e sob o sol poente que levava consigo o dia, colorindo o céu como se as cores permanecessem fixas no horizonte e somente se arrastassem através da superfície de tudo que se perfilava ante meu olhar. Conjuntamente eu e a água do chimarrão esfriávamos, eis que eu era incapaz de precisar o declínio de sua temperatura. Decidi-me: o sol levava tudo, da cor da erva à temperatura da água, do dia à minha vontade de escrever.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;À esquerda, movia-se a lagoa. Fixei-a ali. Ou melhor, fixei-me ali. No som movente das ondas aportando à terra imergiu minha audição. Movi o som para o centro de meu mundo como quem empunha um objeto e o aproxima de seus olhos. Como mágica, renderam-se os ruídos dos carros que se despediam da praia e a música que ecoava um pouco distante no horizonte. Eu me situava ali, nas águas, como entre dois infinitos; ali começava e ali terminava.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Vinte metros dali, uma senhora idosa brincava com uma menininha. Elas distavam cerca de três metros de uma família sentada em um círculo aberto. No raio destes metros a garotinha aparentava ter tomado sua existência. Um pouco desajeitada, acelerava e detinha-se entre a senhora e a família, entre a família e a senhora. Enquanto ela corria, sem nunca transpor aquele círculo imaginário, eu sentia-me obliterar no horizonte. Não se tratava de uma menininha ainda desengonçada sobre suas pernas, mas da relação inefável que se perfazia entre ela, a areia, as têmperas do sol poente frente ao céu, a silhueta das árvores, as pedras, o círculo imaginário, a serenata da lagoa, o vento e a cidade que se perdia no horizonte por trás das águas. Com o passar da garotinha, acometeu-me o passar da vida.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Pouco mais cedo, eu havia contado um grupo de nuvens no horizonte sem, contudo, decidir-me se totalizavam dezessete ou dezoito. Mas agora já não importava; aquela cadeia se havia dissipado conforme o vento a conduzia e perdi o entremeio na descontinuidade de minha vista, entrementes ocupava-me com o entorno — meu olhar, no entanto, sintetizava a dissolução das nuvens e, fechando os olhos, eu articulava mentalmente a cena do desaparecimento (ainda sobre o fundo musical da lagoa). Um cachorro se manifestou abruptamente na praia e lançou-se correndo do calçadão à areia, diluindo minha armação mental e rasgando a perpetuidade sonora das ondas. Seus passos seguintes, no entanto e para a minha surpresa, foram atipicamente vagarosos, o que propiciou a minha atenção deslocar-se da irrupção de sua presença ao detalhe de sua face melancólica enquanto a praia parecia locomover-se por debaixo do animal e aproximá-lo da água. Tudo ficou triste. &lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sendo assim, enumero estas três como os principais motivadores da minha perda de vontade de escrever:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- A menina,&lt;br /&gt;- O cachorro,&lt;br /&gt;- A praia.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-3371417194898672228?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/3371417194898672228/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=3371417194898672228&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/3371417194898672228'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/3371417194898672228'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/01/acabou-minha-vontade-de-escrever.html' title='Acabou minha vontade de escrever'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-1574513304409320056</id><published>2011-01-08T07:45:00.000-08:00</published><updated>2011-01-08T07:46:44.190-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='rascunho'/><title type='text'>Dois rascunhos</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;strong&gt;palavra de tempo&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;o samba na cozinha no rádio e os pés imersos na dor da família que chega e parte para lembrar com os anos que partem e chegam que ambos não vão a lugar algum mas hoje a casa está limpa para receber quem espera e mais tarde quando o ano virar só vai restar a poeira no piso e na memória para os homens de depois que pisarem no pó dizerem que a casa está suja e o menino está triste porque quem tem o tempo guarda a poeira mas quem só tem a poeira só tem o tempo para limpar a casa que fica vazia e o ano que vira vazio no assoalho da cozinha sem rádio porque meu pai já foi dormir&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;o último fogo de artifício&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;pergunto-me pelo último fogo de artifício com olhos de adulto preocupados com a harmonia e com o espetáculo e com p reço e com o desfecho que abre a dúvida daquio que vem depois e se pergunta se aquele foi realmente o último esperando do homem na balsa uma surpresa que depois se lembra dos olhos de criança que nada perguntavam e assistiam com encantos os fogos de outrora e com espanto ocasional do tiroteio em quem o último era só o último fogo e a vontade de ir dormir&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-1574513304409320056?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/1574513304409320056/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=1574513304409320056&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/1574513304409320056'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/1574513304409320056'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2011/01/dois-rascunhos.html' title='Dois rascunhos'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-4290092355839170273</id><published>2010-12-26T18:50:00.000-08:00</published><updated>2010-12-26T19:16:28.406-08:00</updated><title type='text'>De antes da primeira série</title><content type='html'>&lt;p&gt;Ainda sou menino de cinco aquele de antes da primeira série que a praia tratou de criar e apagou com as águas os limites de areia movediça em que mergulham sem chão os que se atrevem a nadar no sem fim da lagoa que curva e recurva na desdobra recomeça.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Quando saí pra cidade saí de mim na busca incansável daquilo que não se busca e busquei ser um alguém que meus amigos jamais descobriram quem era e sei que eu vivo mas não acredito quando me contam a história e às vezes fiquei tão triste porque nem sei quem queriam dobrar nas páginas a minha vontade do menino de cinco que não se dobra ao papel nem acomoda nas palavras dos homens incomprensíveis e voláteis desejos tão bobos que não sabem desejar o nada que já puxa outro sonho ali onde só há vontade de ter vontade&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Tornei e retornei até que vi que as mudanças não esconderam o aceno da praia e o barulho das ondas e que eu também não me escondo no que mudo e não tenho medo de ninguém (de acordar e perder-me nos lençois revolutos mas de perder dentro de mim o pequeno dos grãos de areia da prainha onde nasci e ainda morrerei) só de enterrar em solo sagrado do menino humilde e vontade grande daquele que jamais se torna&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-4290092355839170273?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/4290092355839170273/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=4290092355839170273&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/4290092355839170273'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/4290092355839170273'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/12/de-antes-da-primeira-serie.html' title='De antes da primeira série'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-6613310020039413785</id><published>2010-12-22T16:54:00.000-08:00</published><updated>2010-12-22T17:52:28.659-08:00</updated><title type='text'>Das conversas os amores</title><content type='html'>&lt;p&gt;Fechei-me com as janelas envidraçadas da sala enclausurando um mundo iluminado pela tela de um notebook que tocava uma canção triste e desenhava na vida a alegria expansiva da solidão&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Vidrei o mar atravessado à casa e a luz do poste cavalheiro que se apagava ao charme do cair da noite azul e cinza que ascendia da terra fria do choque do mar com a areia abandonada que me fez pensar no amor e virar-me em amar porque não era noite mas também não era dia à altura que os sentimentos se punham no horizonte sem sequer prometer retornar para que eu me despedisse como quem uma última vez solicita o amor que nasceu comigo menino nas lágrimas com que desenhei minha a praia&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Eu sou um cara legal e você é uma menina legal então deixa eu te falar de amor sob esse céuzão estrelado sem querer esse corpo insensato que queima com palavras os desejos que eu quero ver nos teus olhos a lua quando tu me falares e depois ouvir que não te quero amante nem beijos amores mas menina de sonhos e encantos que volta com a noite e meia em mar e me espera sentada nessa praia linda desde o nosso primeiro verão&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-6613310020039413785?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/6613310020039413785/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=6613310020039413785&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/6613310020039413785'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/6613310020039413785'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/12/das-conversas-os-amores.html' title='Das conversas os amores'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-6152490151174283804</id><published>2010-12-06T11:55:00.000-08:00</published><updated>2010-12-06T12:03:09.555-08:00</updated><title type='text'>Um diálogo: Abel e as mulheres</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Dia 28 de setembro, publiquei neste espaço um email que me foi endereçado por Abel no dia 26, juntamente com um pequeno comentário, o qual se encarregava de introduzir a relação de amizade que mantínhamos. Aqueles que se depararem com a necessidade de retomar este escrito podem fazê-lo através deste link. Feito isso, reproduzo a seguir, com o devido consentimento, a adaptação de um fragmento de uma conversa travada por intermédio do MSN.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Abel:&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Desde pequeno, fui acostumado a essa condição feminina. Na verdade, os planos encaminhavam uma menina. Tinha nome e tudo: Bela. Abel é uma espécie de anagrama improvisado. Tenho um pouco de vergonha disso, mas não de chegar ao mundo quase como que uma mulher.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Guilherme:&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Está explicado então.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abel:&lt;br /&gt;O quê?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Guilherme:&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Tu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Abel:&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Falo sério, irmão! Hahaha!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guilherme:&lt;br /&gt;Eu também. Tu tem um lance gay evidente. Só espero que isso não seja um daqueles momentos de revelações que vá se reverter em uma confissão amorosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abel:&lt;br /&gt;Como assim, porra?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Guilherme:&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;O anagrama é tudo: a feminilidade tá dissimulada por toda parte. Tu não só tens uma relação fina com esse lado feminino como, por vezes, é ele que se apresenta. Tô brincando, porra. Mas sei que é dessa merda que queres falar. Diz logo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abel:&lt;br /&gt;Filho da puta! Escreve sobre isso no teu blog. Sei que tu adora essas merdas. Mas, falando sério, é esse mesmo o ponto: uma feminilidade perdida; um lado feminino imagético que se dissimula por detrás de toda essa máscara masculina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Guilherme:&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Tipo: somos todos mulheres?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Abel:&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Claro que não. Seria ingênuo ignorar a potência dessa máscara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guilherme:&lt;br /&gt;Não tás falando de inconsciente e de recalque?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abel:&lt;br /&gt;Não sei, nunca li essas merdas. Mas te garanto que não tô falando sobre nenhuma condição humana escondida hahaha. Presta atenção no curso da conversa: a minha introdução, os teus questionamentos. Bastante previsível, para não dizer óbvio. É por isso que tu vai ser um eterno chupador, cara. Presta atenção no que tá rolando. Essa merda não vai vir em livro pra tu reclamar da tradução depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Guilherme:&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Fodão, hein. Vai lá, tô lendo então.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abel:&lt;br /&gt;Não tô desprezando a obviedade dos teus comentários. Não é isso. Mas, atenta a eles. Presta atenção na conversa, volta a ti mesmo no momento em que tecesse as ou de um império sexista. Não são conceitos, são relações. Pensa no prejuízo dessa perda, na noite dessa imprevisibilidade e no paraíso artificial que a gente constroi pra dissipar essa escuridão. É o que tu falaste: porra, eu tenho esse "lance gay evidente". Mas, na boa, volta ao relacional: eu conheço caras que, quando tão com mulheres, principalmente na noite, tem frases prontas, rotinas, uma merda de causa-e-efeito quase científica, pronta para pegar mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guilherme:&lt;br /&gt;Pick Up?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Abel:&lt;/strong&gt; &lt;br /&gt;É, pick up, cara! Mas nota a unilateralidade desse lance: saca a transparência dessa conexão que se dissolve por toda a relação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guilherme:&lt;br /&gt;Hahahah, cara, eu vejo que tás muito mais entusiasmado com isso. Não quero cercear tua empolgação, vai adiante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abel:&lt;br /&gt;É isso, velho! Eu acho que é isso. Entusiasmo, cercear, empolgação: pra onde foram esses lances num relacionamento? Na boa, "identidade" é uma merda. Quantas vezes tu já falaste ou recebeste um "Desculpa, eu sou assim"? Isso é uma barreira para a relação e, no fundo, a gente não tá sempre negociando a identidade? Os casais são assim, os namoros são assados, a felicidade se parece com tal, um relacionamento tem seguir um padrão tal. Porra, desde quando a vida se transformou num Foursquare gigante, onde a galera faz as merdas pra conseguir medalhas? Provavelmente, tu não curtiu alucinadamente tal filme ou tal show, mas tu guarda o ingresso numa carteira ou numa gaveta. Deves ter publicado algum escrito sobre a tua experiência, inclusive.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Guilherme:&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Já o fiz, claro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abel:&lt;br /&gt;Agora pensa nisso na extensão da tua vida: tens uma família, mas quando foi que tu fizeste uma coisa realmente afudê pra tua mãe? Quando proporcionasse uma alegria imensa pro teu pai? Namoro: não é romantismo, mas quando realmente vivesse de verdade com a tua namorada? É isso, meu irmão. Teus coroas ou tuas eventuais namoradas tão pouco se fodendo pra genialidade daquele escrito filosófico. Grandes merdas tua sensibilidade poética ou tua aptidão para as coisas da literatura e da solidão. Quem vai se importar com isso são os chupadores que vivem dessa merda e teus amiguinhos intelectuais. Os livros vão te ensinar sobre relacionamentos, mas o relacionar-se vai continuar perdido. Por fim, pra retomar meu ponto inicial, podes aplicar seis conceitos para falar de uma merda de uma feminilidade dissimulada. Ela vai continuar dissimulada. Publica lá agora.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;***&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Peço perdão aos leitores mais tradicionais que não encontram satisfação em ler xingamentos e palavrões, mas as coisas fizeram sentido para mim na forma como foram ditas.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-6152490151174283804?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/6152490151174283804/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=6152490151174283804&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/6152490151174283804'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/6152490151174283804'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/12/um-dialogo-abel-e-as-mulheres.html' title='Um diálogo: Abel e as mulheres'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-6442854127738862765</id><published>2010-12-05T16:46:00.000-08:00</published><updated>2010-12-05T16:49:52.817-08:00</updated><title type='text'>Um pedido especial a todos</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;O último escrito aqui publicado já data de algum tempo. Entrementes, muitas ideias me tomaram e creio que, nesse breve espaço de tempo, pude aproximar-me melhor delas sem, contudo, aprofundar-me em uma específica.&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sendo assim, gostaria de inverter o que, até agora, tem se apresentado regularmente aqui: uma exposição literária minha à deriva, à espera de ser apanhada por um leitor ocioso.&lt;/div&gt;&lt;p&gt;&lt;div align="justify"&gt;Peço, então, que utilizem os comentários para compor esta postagem, compartilhando algo simples, mas que faça parte de vocês: seja uma palavra especial, um pensamento insistente, o escudo de um time de futebol, o título de um livro, um conceito ou uma ideia de algum escritor,  o nome de uma pessoa, algo que defina a sua relação com essa pessoa, o nome de um lugar, uma música, um disco, um artista, um filme, um diretor; o que vier à mente.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;Obrigado pela leitura e pela atenção.&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sinceramente,&lt;br /&gt;g.t.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-6442854127738862765?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/6442854127738862765/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=6442854127738862765&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/6442854127738862765'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/6442854127738862765'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/12/um-pedido-especial-todos.html' title='Um pedido especial a todos'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-164136915871772471</id><published>2010-10-06T07:14:00.000-07:00</published><updated>2010-10-06T07:27:16.913-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='rascunho'/><title type='text'>Manhã</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:10.0pt;text-align:justify"&gt;Manhã de mar que nasce, entrelaça-se e perde-se nos ventos frios que nos sopram sempre em direção ao sul. Mística de um sol amarelo e tímido que há muito já não sorria e que agora se desfaz dessas amarras solitárias. Com a nova manhã, uma nova vida; e o vento que sopra é aquele da expulsão: a tristeza cristaliza-se nesse sopro e lança-se para longe neste mágico truque de desaparecimento. O céu nos sorri, as nuvens nos cercam e o dia parece-nos em perfeita cumplicidade conosco. Nem mesmo o sol, antes tão vigoroso, ousa-nos maltratar o olhar. São dias, decerto, que o homem deixa de sentir-se centro do universo e permite ao mundo que passe ao lado. Sopra o vento frio — é a tristeza que vai embora, o universo que nos deixa.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:10.0pt;text-align:justify"&gt;Sem nada com que entrar em harmonia, o homem harmoniza-se consigo mesmo. A demarche dos minutos freia e os segundos acarinham-lhe o rosto. Encontro-me velho e, pela primeira vez, parece que o tempo me foi bom. Olho para o céu, agradeço. Sei que é pouco e por pouco — tudo bem, sou uma pessoa simples. A noite se perde e revira-se na manhã; o mar lhe encobre e a escuridão se afoga. É com um raio de sol que penetramos neste novo dia; o brilho estende-se até o que ficou para trás e a massa negra de nossas preocupações dissolve-se e foge de nosso olhar. O fulgor nos cega e agora é o futuro que já não conseguimos mirar; sabemos, pois, que ele vem: é o vento frio que nos passa.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:10.0pt;text-align:justify"&gt;A vida vira mundo e o mundo vira vida. Isso é tudo; e um chimarrão quente talvez. Assim podemos sentir o calor — não aquele da água fervilhante, mas o que nos conduz e, por vezes, dispersa-se na sofreguidão. Chega o dia, encobre-nos a manhã; resigno-me a viver. Sinto que há tanto tempo que não o fazia que, às vezes, já nem sei como. "A vida é boa, a vida é boa", eu canto.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-164136915871772471?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/164136915871772471/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=164136915871772471&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/164136915871772471'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/164136915871772471'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/10/manha.html' title='Manhã'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-11303391649013568</id><published>2010-10-05T07:23:00.000-07:00</published><updated>2010-10-05T07:31:07.709-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='nota'/><title type='text'>Desaparecimento</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Vontade intempestiva de mudança. Vertigem do lance que nos projeta do dentro para o fora e sobrelance de eterna revolta do ser que destroça a consciência. Nos movimentos da alma há sempre uma fuga de um algo que re-volta-se e arrasta-nos com as correntes da angústia. Não sei, pois, se o que retorna é o delírio da fuga ou o algo obsedante que se acredita ter deixado para trás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobrevém-nos a fragilidade de uma consciência encarnada que se perfaz somente para nos arruinar; eclipsa a si mesma na dobra da própria curva e deixa-se ultrapassar por aquilo que nos escapa e arrasta-nos na escuridão. Malgrado a desolação, as correntes são sempre nossas e o desvario também; somos nós que nos lançamos e retornamos, acorrentamo-nos e nos obliteramos na escuridão. O que nos obseda, por fim, é o ímpeto da volta que sempre nos draga e o choque fatal com que sempre coincidimos com nós mesmos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há fuga do que se é; mas o que se é sempre nos escapa. Sendo, desapareçamos.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-11303391649013568?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/11303391649013568/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=11303391649013568&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/11303391649013568'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/11303391649013568'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/10/desaparecimento.html' title='Desaparecimento'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-4424940345717507501</id><published>2010-09-28T11:23:00.000-07:00</published><updated>2010-11-26T07:00:10.427-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='correspondência'/><title type='text'>Homens maus</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;Conheci Abel ano passado durante o III Simpósio da ABCiber na cidade de São Paulo. Ele apresentava, em um eixo temático sobre sociabilidade, um trabalho que mais tarde me confessaria como uma ironia em si. Expunha da mesma maneira: simplesmente brincava com os presentes, que nada entendiam acerca daquilo com que tratava. Findado o tempo de apresentação, foi categórico: “Muito obrigado pelo certificado”, pontificou. Após a sessão, já no corredor, parabenizou-me pela apresentação e disse-me que o meu trabalho era ainda mais genial, pois, como ele, eu não dizia nada com nada, mas parecia estar bem convicto de toda aquela baboseira. Ofereceu-me um cigarro; declinei. Perguntou como eu me sentia “peidando na cara dos presentes”. Disse que não sabia responder e retornei a questão indagando-o sobre o que gostava de ler. Falou-me que não apreciava nada em especial; escrutinava duas ou três obras que considerava centrais no pensamento de alguns professores apenas para poder lançá-las contra eles mesmos em suas contradições. Rebateu-me a pergunta; mandei-o ler A História dos Pingos. Riu e alcançou-me um café. Contou-me ainda que amara uma professora em uma sala de reuniões e que abandonara os estudos por um ano para trabalhar como mecânico na oficina do pai. Por fim, combinamos de frequentar as mesmas mesas de discussão.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Bem dito, acabamos tornando-nos bons amigos e, na descontinuidade de suas viagens, ainda trocamos alguns emails e conversas esporádicas através de um instant messenger. No último email que me mandou, a saber, em maio deste ano, antecipou-me uma viagem pela Europa e a busca por um amor estrangeiro que fosse capaz de fazer-lhe esquecer uma brasileira inesquecível. Obviamente tratava-se de uma mentira, mas achou que poderia ser uma conversa útil para passar nas estrangeiras. Respondi-lhe que não. Alguns dias atrás (26 de setembro), recebi um novo email, este que publico a seguir:&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;*&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Meu caro Guilherme,&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Há um dia em que o homem acorda e recusa tudo aquilo com que se serve para construir a vida; os confidentes de nosso tempo dir-nos-iam ser este um mal passageiro. Estou quase convencido, no entanto, de que se trata de um mal que tudo faz passar; como eu igualmente passo, só posso ter a convicção de que coincido com este mal e, portanto, ele me é indeclinável. Se o contrário for verdadeiro, então, fora de sincronia com ele, seria eu aquele que se lançaria em sua própria passagem para alcançar um mal que sempre passa adiante. Nesse caso, antes de ser indeclinável, tratar-se ia de um mal irresistível.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Pouco importa-nos descobrir qual das hipóteses é aquela verdadeira; a diferença entre ambas, a saber, seria uma insignificante manifestação de consciência na segunda conjetura, ao passo que, no primeiro caso, tratar-se-ia de um estado mais puro de maldade. O mais provável, todavia, é que constituam dois momentos, de sorte que a maioria dos homens caminhe com este instinto eversivo sempre em seu escopo; aquando este acontece de suprimir-se de nossa mira, é aí que verdadeiramente o assumimos — não o contrário, como diz-nos o senso comum; o mal nunca passa. Tampouco esta conjunção é eterna; os momentos encadeiam-se e se dissolvem e se recomeçam, de modo que um homem pode sempre desvencilhar-se de sua coincidência com este gênio maligno e botá-lo por exposto em sua frente.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Assim, verás que, enquanto o homem for capaz de pensar esta maldade, ele estará seguro. No momento em que a perder de vista, entretanto, é quando deveria preocupar-se; será aí que assumirá sua condição mais irrecusável de homem e igualmente aquele poder que esta traz de mais destruidor: a faculdade de afirmar. Com esta, torna-se também possível aquilo que julgo como o mais aterrador do humano: o poderio de projetar a multidão e assumir a fala de múltiplos homens. Ademais, a consistência da afirmação parece vir de um papaguear incessante que atinge o homem a partir de suas perspectivas.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Outra vez, pouco importa-nos que essa multidão seja imaginária ou não; o homem pode comportá-la em seu interior e o mais provável é que ela seja tanto mais forte quanto o homem a afirma para si. Por isso, parece-nos que as multidões interiores são tantas vezes mais potentes que aquelas que falam do exterior; estas acometem os nossos ouvidos como um zumbido e na forma de uma leve sensação de moléstia, à medida que aquela que nos fala de dentro parece-nos sobrevir com clareza cristalina; o homem que se entrega ao grupo, todavia, aparenta retomar tudo do impessoal e pouco saber de si. Sabemos que isso não é verdade; o matraquear, não obstante, parece-me o mesmo.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Assim, meu tento neste relacionamento foi mostrar-te que tanto a solidão dos filósofos quanto o lançamento ao mundo, modo de ser mais próprio dos poetas, são igualmente perigosos se coincidimos com esse papaguear incessante com que a afirmação pode ultrapassar-nos. Estou certo de haver um eu que nos precede em nossa abertura e em nosso engajamento; conquanto ele nos for invisível, permaneceremos menos no estado de perigo do que na condição de perigosos. Somos, inevitavelmente, homens maus.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Conscientes disso, acedamos à nossa maldade ou a resguardemos a certa distância, tanto faz. Permanece o mal, passam os homens.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Em anexo, três fotos de minha recente viagem à Suécia. As duas primeiras são de Umeå e a terceira de Kiruna. Aqui faz frio para caralho e todas as mulheres lembram atrizes pornô.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;Cordialmente,&lt;br /&gt;Abel &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-4424940345717507501?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/4424940345717507501/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=4424940345717507501&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/4424940345717507501'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/4424940345717507501'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/09/homens-maus.html' title='Homens maus'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-1277799677194604781</id><published>2010-09-27T07:06:00.000-07:00</published><updated>2010-09-27T07:11:07.788-07:00</updated><title type='text'>Sobre a poesia e a filosofia</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Ao meu primeiro encontro com este tema, estava bastante certo de se tratar de algo merecedor de uma dissertação. Após alguns dias sopesando-o, no entanto, a questão silenciou-se e pude concluir de que aqui já não restava nada que eu  pudesse alcançar com palavras. Aos meus amigos, o sincero testemunho deste desvanecimento.&lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;*&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Com o carro estacionado à orla da praia de São Lourenço do Sul, minha namorada e eu não trocávamos uma só palavra. Era por volta das três horas da tarde, o sol raiava forte nos céus e o canal que se desdobrava no horizonte da praia era intensamente obnubilado por um sentimento de culpa que me devorava do interior. Não se tratava do constrangimento daqueles embaraçados com o silêncio, mas antes de um tagarelar incôndito que me escamoteava o silêncio existencial. Minutos atrás, eu deixara escapar palavras lancinantes aquando, em um descuido, a erva-mate do chimarrão esparramou-se sobre os bancos recém aspirados do carro. As mesmas palavras agora refluíam sobre mim e pude identificar rapidamente o vazio que se evidenciava com a sua ex-pressão, à qual se seguiu um imediato pedido de desculpas que em nada adiantou.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;À praia, ocorreu-me estar sobremodo ancorado em um porto interno, de modo que aquele pequeno acidente me havia extirpado violentamente da calmaria e me lançado ao exterior. Acredito, assim, menos na coincidência de meu espírito com o acidente do que na preexistência daquele vazio interior, apenas em superfície dissimulado por um silêncio contrafeito, tão frágil quanto aquele aporte existencial vacilante. Minha consciência era demasiado forte para que eu pudesse prontamente reconhecer meu erro e pedir desculpas, mas meu ser era igualmente fraco para que eu pudesse resistir ao ímpeto da situação.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Trocávamos, eu e ela, apenas o chimarrão quente. Eu encarava fixamente menos as águas do que um espelho sobre o qual se formava o reflexo de minha angústia, enquanto ela, recostada obliquamente no banco do carro... bem, não sei exatamente o que ela fazia. A mim, parecia apenas uma extensão de minha disposição. Também não consigo precisar o que mais me incomodava: se a sensação de impotência com que me encontrava diante da situação, se a culpa de eu ser o maior responsável, se o fato de eu não conseguir pensar os pensamentos dela ou se a aflição de cercarem-me espelhos por todos os lados. Aonde quer que mirasse, podia-me ver de volta. Ocorreu-me a percepção de uma miríade de coisas, mas como se à distância e apartadas do mundo. Embora eu pudesse me deslocar entre as conjeturas, não podia fazê-lo sem que me lançasse em conjunto, de modo que, após três ou quatro operações, eu simplesmente perdera o referencial e já não podia situar qualquer sentimento através de um ponto de referência. Assim, resguardava somente um engrama existencial: a angústia não provinha de lugar algum senão de mim mesmo. Com efeito, já não era um algo que me fustigava, mas era eu mesmo que emanava todo aquele mal-estar.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;A essa altura, um lampejo reluzente deslizou intermitentemente sobre o canal da praia: a luz lançou-se, o mar moveu-se e o meu olhar arrastou-se em conjunto. Um silêncio muito grande me sobreveio e todos aqueles pensamentos desvaneceram. Pela primeira vez, eu enxergava com clareza as águas e não mais um espelho. Projetei-me ali e, como não tinha pensamentos, meu corpo deslocou-se da consciência para o olhar, de uma maneira que não se podia dizer que eu percebia, mas que eu verdadeiramente acompanhava o movimento com que a água acalentava a luz. Acredito ter perdido a passagem do tempo, pois minha próxima recordação é minha namorada adormecendo sobre meu colo. Acarinhei-lhe lentamente o cabelo com os dedos, beijei-lhe a face e desejei que visse aquilo que eu estava vendo. Em seguida, retomei em vão o canal com o olhar; não havia mais nada para se ver ali. Só aí me ocorreu aquilo que deveria ter feito minutos atrás: estar ali. Eu era agora com meu pequeno amor tomado em meus braços e o mundo inteiro se abria ao meu redor.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;A canção no rádio era Old habits die hard.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-1277799677194604781?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/1277799677194604781/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=1277799677194604781&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/1277799677194604781'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/1277799677194604781'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/09/sobre-poesia-e-filosofia.html' title='Sobre a poesia e a filosofia'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-5119184240397447096</id><published>2010-09-12T15:10:00.000-07:00</published><updated>2010-10-07T09:17:25.521-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='rascunho'/><title type='text'>O livro do desconhecimento</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;Pouco tempo atrás, vim a deparar-me com uma obra literária obscura. Não escolho tal adjetivo ao acaso; ele corresponde tanto ao seu conteúdo quanto às circunstâncias com que ela me veio ao encontro — de vez que julguei ser necessária tal nota introdutória. Antes de qualquer menção em relação ao conteúdo do livro, é importante revelar que o encontrei na biblioteca central da Universidade Católica de Pelotas. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;A maneira como o encontrei não foi menos perturbadora: à guisa de encetar a monografia que viria a ser meu trabalho de conclusão do curso, eu buscava o livro "Contra o método", do professor Paul Feyerabend. No dia, entretanto, em vez de solicitá-lo ao bibliotecário que atendia pela manhã, optei por buscá-lo diretamente nas estantes. Como ainda me situo em uma fase inicial do trabalho, julguei que poderia obter novas referências bibliográficas com uma busca rápida na mesma seção. Foi exatamente a forma como cheguei à obscura obra. Após recolher o livro que me interessava, duas prateleiras acima, uma coleção desusada atraiu-me fortuitamente a atenção. Tratava-se de uma série de livros intitulada "Seminários", todos de capa dura, pretos, adornados com detalhes em ouro e enumerados de um a quinze em algarismos romanos. Teriam passados despercebidos se, de soslaio, não tivesse flagrado o volume VIIII. Creditei tal grafia, primeiramente, a um erro ou um possível modo arcaico de escritura, hipóteses imediatamente denegadas pela presença consecutiva do volume IX. Movido por minha curiosidade, apanhei o estranho volume e o percorri com os olhos enquanto folhava rapidamente  suas páginas. Sem dúvidas, tratava-se de um livro que nada trazia de extraordinário à vista. A primeira estranheza, contudo, sobreveio-me quando o comparei ao volume IX: o conteúdo era rigorosamente idêntico. A numeração ainda amplificava a impertinência da situação, uma vez que lhe faltava uma série de números.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Aos leitores sequiosos por verificar esta informação, peço que se dirijam até a referida biblioteca e chequem a numeração das obras. O livro condutor, Contra o método, porta a inscrição 501 F434c 653536 e a série da qual lhes falo jaz sob a numeração 501 F430a, de 653780 a 653795, sendo que o volume VIIII apresenta apenas as duas primeiras séries, gravando 501 F430c. Malgrado possibilitem uma rastreabilidade perfeita, o horripilante volume não se encontra no sistema eletrônico da própria biblioteca — o que, com efeito, não implicaria estranheza se a coleção inteira também não estivesse omitida dos registros. No verso dos livros, contudo, constava anexado um pequeno cartão de locação. Nele, três datas: 14 de julho, 3 de dezembro e 10 de dezembro. Seguiam-se uma assinatura, provavelmente de um bibliotecário local, e a ausência dos anos de locação. Um último registro ainda fora enfaticamente riscado, evidenciando menos um borrão do que a intenção de suprimir um nome da listagem, de vez que a chave dos alugadores era o primeiro item. Em relação a esses dados, prefiro guardá-los em sigilo. O que posso expor é que, dos três listados, um já está morto, outro leciona em uma universidade alemã e o último, ao que parece, é um desconhecido que concluiu sua graduação em 1974.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Hoje é 12 de setembro e esta é terceira atualização que realizo neste documento. Informo aos meus leitores que constará em meu blog como um post único, à maneira de evitar um possível furor e manter somente os interessados nos meus progressos atentos. Posso adiantar que há um bom tempo venho sondando as páginas deste escrito e porque tenho receio (para não dizer medo) de removê-lo da biblioteca, progrido muito lentamente em minha leitura. Em breve publicarei alguns excertos que copiei em um bloco de anotações.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-5119184240397447096?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/5119184240397447096/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=5119184240397447096&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/5119184240397447096'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/5119184240397447096'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/09/o-livro-do-desconhecimento.html' title='O livro do desconhecimento'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-7880592722438698877</id><published>2010-09-09T16:18:00.000-07:00</published><updated>2010-09-09T16:20:43.148-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='rascunho'/><title type='text'>Promessas</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;Estávamos os dois sobre a cama, eu e minha namorada. Ela, quase deitada sobre o travesseiro, com as costas levemente reclinadas e respaldadas à encosta da cama. O dorso tocava, em sua extensão, a superfície da cama e o corpo retorcia-se às pernas, estas deitadas de lado, uma sobre a outra, e flexionadas mais próximas ao abdome. Eu ocupava o vão superficial que se formava entre suas pernas e seu peito, segurava suas duas mãos e, olhos nos olhos, já não conseguia segurar algumas tímidas lágrimas.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;— Se um dia eu mudar e, num surto, decidir te deixar, promete que me lembra disso?&lt;br /&gt;— Prometo.&lt;br /&gt;— Jura juradinho?&lt;br /&gt;— Juro juradinho.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;Puxamos cada um o dedo mindinho do outro, abraçamo-nos e nos beijamos. Em seguida, deitei a cabeça sobre sua barriga e, enquanto ela passava os dedos entre meus cabelos, eu apenas me abria ao espaço afetivo que se havia desdobrado. Desde então, eu estou para sempre ali.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;***&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Não posso firmar uma compreensão a respeito dessa dimensão em que me encontro, senão indiciar um conduto de acesso originário. Ademais, voltando à situação, não encontro exemplo melhor para esboçar esse movimento de implosão do tempo sobre si mesmo dentro do instante.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Aqui, a motricidade assoma-se na conjuntura do prometer. A promessa não se perfez na unidade do conceito, na compressão e na antecipação de um porvir, como se na realização antecipada e premeditada de um agora-ainda-não não obstante certo; cumpriu-se numa troca de disposições complexas e intricadas que se revertem e sublimam umas sobre as outras, devorando o fluir do próprio tempo e abrindo-o à continuidade que leva de arrasto um instante-mundo pesado que se substitui sempre pela atualização.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Primeiro nível*: troca das posições. A promessa abre-se no diálogo e é somente através deste que pode vir a ser tornar existente. Embora tenha sido minha namorada a enunciar o “prometo”, a assunção do compromisso é minha, cabendo a ela outra parte: a da contingência, a de ser o gatilho para a retomada da situação. Sendo assim, embora, no senso comum, seja um que realize a promessa, aqui é visível que ela é enunciada por um interlocutor e assumida por outro, sendo os dois partes imprescindíveis da sua composição, o que, contudo, não implica que a promessa seja nossa.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Segundo nível: troca dos afetos. Como o nível anterior corresponde ao tempo presente o qual a situação habita, este segundo nível vem configurar o entorno, o horizonte afetivo que dá margem aos acontecimentos desencadeados. A promessa encontra sua condição de realização e originalidade em toda a extensão do devir de nossa relação, onde, até então, tal promessa era impensável e veio a eclodir no conflito constante de um afeto que procura o outro e, nessa busca, reinveste esse mesmo outro.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Terceiro nível: troca dos tempos. Nesse nível, mais abstruso, o tempo é o induto do dialogismo dos níveis precedentes, articulados quase que numa abs-tração conceitual pura: os níveis são dragados de seu solo. Aqui se apresenta a promessa como desencadeadora do caos; ela é a remissão de um passado atualizado para um futuro contigente, a apreensão de um futuro movediço, transposto para o presente de uma situação, que é desde já inoculado com texto das recordações da relação passada e a dispersão desse mesmo presente tanto no passado quanto no futuro. Ademais, a promessa ainda é uma cadeia que tem sentido por si só e se lança ao futuro para quebrar abruptamente sua cadeia de sentido e retomar o presente da situação referida e diferida, uma vez que seu sentido atual é reinvestido e atualizado na passagem do virtual para o real.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Pro-meter é colocar em frente. Colocar o quê, senão o próprio contexto em que se presenta a situação? A promessa não é uma jura de amor eterno, eis que a eternidade está atrelada à existência, mas justamente, como abertura existencial, é um re-meter, um colocar novamente, é a retomada de uma existência, uma chave forjada no imaginário representativa da síntese dos três níveis expostos e que, por no momento de sua consumação não ter um futuro certo, no momento em que for acionada, quebrará um encadeamento temporal e retomará uma situação apaixonada, transformando o passado em presente e o presente em passado, à maneira de não ser somente uma retomada, mas uma potência criadora que permita desvencilharmo-nos de futuros Eus desgastados e reassumir um estado de paixão com um futuro em branco.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Não prometo que te amarei para sempre, mas prometo que te amarei sempre. A chave, entranto, está em tuas mãos.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;*Entendo aqui este primeiro nível como o mais próximo da situação e, embora o sistema de escritura ocidental desenvolva-se de cima para baixo, incentivando uma intuição que dispõe esses níveis de forma descendente, correspondendo o primeiro nível ao topo e, a partir dele, descendo-se aos demais, deixo livre ao leitor a disposição desse níveis.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-7880592722438698877?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/7880592722438698877/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=7880592722438698877&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/7880592722438698877'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/7880592722438698877'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/09/promessas.html' title='Promessas'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-6683494505413011963</id><published>2010-09-08T06:57:00.000-07:00</published><updated>2010-09-08T07:01:52.668-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='rascunho'/><title type='text'>O homem de uma única poesia</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Na véspera da Independência, conheci um poeta de uma única poesia em um bar quase vazio da cidade de Pelotas. Fora uma segunda-feira cheia de curvas e acidentes cujo ponto de partida se perdeu, provavelmente, numa série de encadeamentos corridos depois do almoço.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;Pela madrugada, eu e minha namorada fomos a um Bar do Nenê já vazio de bolinhos de batata, onde comemos dois croquetes e fomos presenteados com um bolinho de peixe. O motivo do presente foi menos o fato de aquele ser o último bolinho, conforme dito pelo dono, do que nossa decisão decepcionada de ficar e comer mesmo assim. Agradecemos e partimos. A fila quilométrica nos afastou de dois Cruz de Malta e o frio, dos bares à rua. Após uma rápida volta pela cidade, terminamos a noite no Ruela, onde, fora a equipe de serviço, havia pessoas em apenas duas mesas. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Passava da meia-noite; já era Independência aquando uma mulher sentou-se ao microfone e lançou contra ele a mais bela e aterradora voz, que reverberava pelo interior confinado do barzinho. Como se tentando acalmar a ferocidade do inesperado, a melodia do violão enleava-se à voz no intento de domá-la, mas era assustador como ambas se alentavam e sublimavam-se docemente à nossa audição. No entre-músicas, anunciou-se ser a última noite daquela cantora em Pelotas. Não sei bem quem, pois frase e locutor se perderam por detrás da introdução da nova canção: o homem, agora, chamava pela amada que deixara na França, às margens do Mediterrâneo, para voltar ao Brasil. A música era um chamado sobre um chamado.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Conforme a uma hora nos espreitava, o bar foi-se esvaziando e um homem achegou-se à nossa mesa. Enquanto se apresentava, chamou o garçom e, pedindo mais duas taças, serviu-nos um pouco de vinho. Explicou que estava com a banda e agradeceu-nos enfaticamente pela presença com um sorriso que quase derramava lágrimas. Perguntou-nos a idade e em seguida contou-nos sua história, em um português meio tímido: fora criado só pelo pai e desde cedo trabalhou num chão de fábrica no Chile. Com a morte do seu velho, juntou uns trocados e subiu num caminhão em direção ao Brasil com tudo que tinha: uma muda de roupas, um caderno e uma caneta. Aos 24, decidiu tornar-se poeta. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Interpelei-o e, antes mesmo de eu terminar a frase, sacou dos bolsos umas folhas amassadas. Articulou meu pensamento mais rápido que eu e já me alcançava aqueles papéis todos riscados apontando: “Poiesis!” Rindo-me com o erro do homem, retruquei: “Poesía, hombre!”. Corrigiu-me: “No! Poiesis!” Dei uma olhada por cima naqueles manuscritos sujos. Pareceram-me mais rabiscos do que qualquer coisa: escrevia em prosa, os últimos parágrafos estavam todos riscados e as obras normalmente terminavam no meio de uma frase qualquer. “Tienes algo publicado?”, perguntei-lhe. Sem remover o sorriso do rosto, gentilmente descansou as mãos sobre a mesa com as palmas voltadas para cima e os dedos voltados em minha direção, como se abrindo o peito e referindo-se a si mesmo. “Que tal, han?”, eu disse, sem saber muito o que dizer, na verdade, mais para registrar que tinha notado o seu movimento. “Yo tengo una única poesía. Cuando deshacerme de ella, yo escribo otra.” “E esses manuscritos?”. “Ensayos.” “De que valem?” Riu-se mais uma vez. “Ellos son despojos del pasado, desviaciones y tergiversaciones del camino. Son solamente palabras, hombre” e repetiu-me igualmente: “De que valem?”&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;A conversa seguiu-se. Perguntei-lhe sobre o método, mandou-me trabalhar duro, reaprender a ver e ouvir e, só então, dedicar-me à fala, à escrita e ao toque.  Mandou-me deixar-me amar minha namorada antes de dizer que a amo. Condescendente, balancei a cabeça e comentei sobre o quanto fala o silêncio. Disse-me que se o silêncio fala, ainda não o encontrei verdadeiramente. “Devo buscá-lo?” “No, debes silenciarte. Déjate&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-6683494505413011963?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/6683494505413011963/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=6683494505413011963&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/6683494505413011963'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/6683494505413011963'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/09/o-homem-de-uma-unica-poesia.html' title='O homem de uma única poesia'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-7387232618681563668</id><published>2010-08-19T12:57:00.000-07:00</published><updated>2010-08-20T06:22:08.151-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='nota'/><title type='text'>O nome do pai</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;Ano passado, num café em Santa Cruz do Sul, conheci um argentino de Rosário que tatuou o nome do pai no antebraço pouco antes deste morrer. O pai partira para o Brasil em 1959 com uma promessa de emprego e uma carta de recomendação na mala. Na época da despedida, o senhor que me falava tinha 16 anos e fizera a tatuagem escondido, como lembrança do seu velho. "El amor ha quedado grabado en el alma". Contou-me que, ao que lhe parece, o pai morrera em 1961, dois anos depois, de doença ou de desgosto, não se sabe bem. Soube, contudo, que a carta não era de recomendação, mas de amor. Quase quarenta anos depois, o senhor remeteu-se ao Sul em busca do segredo do pai. "Quedara sólo la tatuaje y ya no sabía lo que se inscribía allí".&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;No mesmo café, reprovou-me duas vezes. A primeira, pelo uso do pensamento: "Si usas el pensamiento para hacer de tu vida optima, al fin tendrás solamente optimizado, pero no vivido." E a segunda por ter, de imediato, lançado um pensamento sobre esta frase. Rimos e ele entornou o café. Contou-me, em seguida, que a carta era de um outro tipo de amante: uma filha brasileira, sua irmã. Quando a conheceu, chorou pela primeira vez no Brasil e, com uma faca, arrancou a pele do braço. "Hice de mi padre un hombre libre cuando removi la tatuaje que había apresado el amor". Mostrou-me a enorme cicatriz que carregava como o engrama deste pesado opróbrio. Perguntei-lhe: "Y ahora, ¿qué haces aquí, hombre?". A resposta veio de imediato: "El camino".&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-7387232618681563668?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/7387232618681563668/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=7387232618681563668&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/7387232618681563668'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/7387232618681563668'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/08/o-nome-do-pai.html' title='O nome do pai'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-4239557189509557858</id><published>2010-08-18T16:05:00.001-07:00</published><updated>2010-08-20T11:53:24.246-07:00</updated><title type='text'>Entrevista de emprego</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Nesses últimos três meses, enviei meu currículo a alguns lugares. Dias atrás, chamaram-me para uma entrevista, a qual, recorrendo a minhas lembranças, reproduzo a seguir.&lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;***&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;— Boa tarde, digo, noite já, pelo visto, né. Desculpa te fazer esperar. Por favor, te senta.&lt;br /&gt;— Boa noite. Sem problemas.&lt;br /&gt;— Guilherme, eu sou a Miriam, gestora de talentos aqui da empresa. Tudo bem contigo?&lt;br /&gt;— Tudo. E com a senhora?&lt;br /&gt;— Comigo tudo bem, graças a Deus. Pode me tratar por "tu", não precisa ser tão formal, tá bem?&lt;br /&gt;— Está bem.&lt;br /&gt;— Bom, eu achei muito interessante o teu currículo, vejo que tens experiência profissional já. Essas agências aqui são de publicidade?&lt;br /&gt;— Sim, as duas.&lt;br /&gt;— Tá certo. E tu te formas quando?&lt;br /&gt;— Se tudo der certo, no final desse semestre.&lt;br /&gt;— Legal! Espero que tudo dê certo então.&lt;br /&gt;— Obrigado.&lt;br /&gt;— Bom, me fala um pouco de ti: o que te desperta mais interesse?&lt;br /&gt;— É complicado fazer uma lista assim, rapidamente. O que mais me atrai, sendo bem amplo, é a literatura. Gosto muito de ler e escrever.&lt;br /&gt;— Bacana, bacana. E dentro da literatura, tens algum interesse específico por gêneros?&lt;br /&gt;— Gosto bastante de livros científicos, por se dizer assim. Mas meu maior interesse mesmo é filosofia.&lt;br /&gt;— Filosofia? Que interessante. O que que te atrai nela?&lt;br /&gt;— É engraçado porque eu nunca me fiz essa pergunta, sabe? Acho que a questão não é o que me atrai Na filosofia, mas o que me atrai À filosofia. Mas, sinceramente? Paixão.&lt;br /&gt;— Entendo. E tu achas que a filosofia poderia te ajudar numa experiência de trabalho aqui?&lt;br /&gt;— Não posso responder isso porque eu não sei quais serão meus afazeres cotidianos. Prefiro não arriscar uma resposta. Tudo bem?&lt;br /&gt;— Tudo bem. E fora isso, o que gostas de fazer?&lt;br /&gt;— Na verdade, isso ocupa a maior parte do meu tempo livre. Eu tenho bastante prazer em ler e escrever.&lt;br /&gt;— Mas, para te divertir, fora isso, o que tu faz?&lt;br /&gt;— Praia, futebol, filmes, bares. Bares, não festas. Não sou muito de festas, muito agito, muita aglomeração.&lt;br /&gt;— Entendo, entendo. Eu gostava mais de festas quando era mais nova, mas quando a gente fica mais velha não nos atrai muito. Vais ver.&lt;br /&gt;— E o que tu faz para te divertir?&lt;br /&gt;— Eu fico em casa com meu marido. Gosto de cozinhar, cuidar dos meus cachorros.&lt;br /&gt;— Tu não tens filhos?&lt;br /&gt;— Não, mas tenho planos.&lt;br /&gt;— Ah, que tal, hein?&lt;br /&gt;— Poisé. Vais te confrontar com essa realidade quando tiveres a minha idade.&lt;br /&gt;— Quem sabe? Só digo que agora não gosto de cozinhar. Só aproveito os pratos da minha namorada. Mas não descarto. Não descarto nada.&lt;br /&gt;— Tens namorada então?&lt;br /&gt;— Sim.&lt;br /&gt;— Bacana, bacana. Isso é um ponto positivo: não vais ficar de papo com as meninas que trabalham aqui.&lt;br /&gt;— Espero que não, mas não sou antipático também.&lt;br /&gt;— Sabe, esse teu interesse por filosofia me intrigou um pouco. A maioria dos rapazes vem aqui e lista o que tu classificou como diversão no lugar de interesses.&lt;br /&gt;— Ah, interesse é algo muito particular.&lt;br /&gt;— Claro, claro. Mas tu só lê isso?&lt;br /&gt;— Não, não. Gosto muito de outras áreas: sociologia, psicologia e até literatura mesmo, de onde se conhecem os autores mais famosos.&lt;br /&gt;— Entendo. Tens algum autor favorito?&lt;br /&gt;— Tenho vários: Borges, Edgar Allan Poe, Charles Baudelaire, Paul Auster. Tenho certeza que tu és dos livros também.&lt;br /&gt;— Claro, como vou dizer que não? Gosto bastante de Machado de Assis, Jorge Amado, autores nacionais.&lt;br /&gt;— Ótimos todos eles. Ótimo gosto, também.&lt;br /&gt;— Obrigado. Então... Era isso, Guilherme. Essa entrevista era só para te conhecer melhor mesmo e avaliar a tua postura, tua desinibição e a tua comunicação. São coisas importantes para se trabalhar com o público. Quanto a isso, vou te dar uma dica: tu és muito desleixado em relação à tua aparência. Não me leva a mal, tu não és feio, mas seria legal cortar o cabelo, umas roupas mais... descoladas, entende?&lt;br /&gt;— Entendo. Agradeço pelas dicas, nunca havia me preocupado muito com isso.&lt;br /&gt;— Sem problemas, gostei muito de te conhecer. Vou te deixar o meu cartão aqui. Nós vamos entrevistar mais alguns meninos e nos reunir com o departamento de capital humano depois. Em uns três dias nós entraremos em contato então para te informar sobre a vaga de atendente, certo?&lt;br /&gt;— Certo, certo. Muito obrigado pela oportunidade.&lt;br /&gt;— Merece, querido. É muito importante para nós que tenhas interesse em trabalhar na C&amp;amp;A.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-4239557189509557858?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/4239557189509557858/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=4239557189509557858&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/4239557189509557858'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/4239557189509557858'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/08/entrevista-de-emprego.html' title='Entrevista de emprego'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-8441993358146513292</id><published>2010-08-10T19:55:00.001-07:00</published><updated>2010-08-11T09:04:48.840-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='rascunho'/><title type='text'>σκότος</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;Este rascunho vem articular-me aos medos que me assolam em um único movimento lesto e peremptório, como se ao simples ecoar das palavras ressoassem livres os demônios que se constringem em mim, revelando uma unidade. Sem mais. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;***&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;I. O Mar &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Um mergulho dentro de um outro mergulho. Que há senão o mar e este caminhar na escuridão? Arrojar-se, de sobrelanço, a águas mais profundas nas quais já não prorrompe o ser. Vagar, puramente vagar, no espaço de um vazio já tão estivado de fluir — e encontrar a coragem para ser, sem sequer saber. Água dentro de água, vertigem, viragem e reversibilidade desenfreada. Mar acometendo mar. Que sou, senão a reunião turbulenta da unidade na eminência de soçobrar? Aquando o braço se interpola à onda, o re-voluteio — que suste e detém-se no afã — já se antepõe ao movimento, dissipa-o e torna a trajetória vã. Assim, no ir passando da onda, não encontram-se nem vestígios de um nadar. Àqueles que se aventuram nas águas, o caminho por que se enveredam derroga-se na passada do começar. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;II. A Ilha: Trans-gressão da inter-posição.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Vazio. Um branco intenso reveste os derredores até o horizonte e uma fina camada de água negra e inerte sobrepõe-se ao longo do solo em sua infinita enxtensão. À sua superfície, vejo um outro que me segue pacientemente, como uma sombra que aguarda o momento oportuno para saltar sobre mim e tomar o meu lugar. De fato, é penoso desviar os olhos dele, eis que me sobrevém em toda a estranheza. Não bastasse, é meu único ponto de referência frente ao vazio. A cada passo, um marco zero. O caminhar já não dispõe de nenhum caminho e a única medida para o deslocamento é senão a sensação. Aonde quer que vá, o mundo acompanha-me e não tarda a me cerrar, elidindo qualquer tentativa de locomoção. Ao consumar um passo, olho de soslaio para trás, somente para ver a onda evanescente da água absorver o rastro e, em seguida, devolver-me à mesmice de todo vazio, como se não tivesse saído do lugar. O outro é o escárnio, sou eu em um movimento reduplicado que não encontra transição, posto que desdobra-se a partir da continuidade, sem intervalos, configurando não um duplo, mas a minha própria extensão — que jamais me abandona e me encontra sempre onde vou.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;III. Zona Negativa: O grau zero.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;σκότος. A escuridão con-funde-se com a cegueira. A única ideia se alastra e ressoa sempre através da amplitude da escuridão. Ser é a re-volta do encetar de um saber que já nada principia na escuridão.&lt;br /&gt;A única ideia se alastra e ressoa sempre através da amplitude. Ser é a re-volta do encetar de um saber que já nada principia.&lt;br /&gt;A única ideia se alastra e ressoa sempre. Ser é a re-volta do encetar de um saber.&lt;br /&gt;A única ideia se alastra. Ser é a re-volta do encetar.&lt;br /&gt;A única ideia. Ser é a re-volta.&lt;br /&gt;A cegueira con-funde-se com a escuridão. σκότος.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Nadar. O infinitivo mais puro que conjuga o nada.&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-8441993358146513292?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/8441993358146513292/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=8441993358146513292&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/8441993358146513292'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/8441993358146513292'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/08/skotos.html' title='σκότος'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-2669517450322606276</id><published>2010-08-07T10:38:00.000-07:00</published><updated>2010-08-07T10:41:49.629-07:00</updated><title type='text'>Os critérios superhumanos para a publicação de um texto</title><content type='html'>&lt;p&gt;Recentemente, submeti um texto a um periódico na esperança de conseguir uma publicação. Segue abaixo a reprodução da recusa, recebida por e-mail. Não há alterações de minha parte.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;***&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Prezado Sr. Guilherme,&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Lamentamos informar que o texto do senhor não foi aprovado para publicação em nossa revista. Enumero, a seguir, as razões para tal decisão — lembrando que a ordem em que estão dispostas as considerações não constituem qualquer forma de hierarquia ou importância:&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;1. Como bem se sabe, é uma política de nossa revista não publicar textos de autores anônimos.  O senhor pode arguir que à sua obra se subscreve um nome. No entanto, consideramos que as iniciais G.T. não preenchem os critérios necessários para a identificação de autoria da obra, votando-a ao anonimato. Sendo assim, por qualquer movimento que principie a partir de seu texto é de total responsabilidade de nossa revista, e não podemos arcar com esse risco.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;2. O vocabulário do texto é demasiado rebuscado. Não tome isto como uma injúria, mas como uma crítica à obra e somente a ela. O texto derrapa na significação e embaraça-se ao longo do próprio decurso. A má articulação dos pronomes possessivos e demonstrativos remete o texto a um alto grau de ambiguidade, a partir da qual se pode extrair o que se bem quiser ou até mesmo nada, que nos parece o caso mais provável aqui. A redação submetida, em particular, entrava a comunicação com o leitor e já não nos mostra claramente a ideia por detrás das linhas. Sugiro, assim, uma revisão minuciosa de toda a obra.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;3. A linha de raciocínio apresentada incorre em erros historiográficos. Parece-me que o livro que o senhor utilizou como fulcro para toda esta obra data de antes de 1995. Como o senhor poderá notar em uma análise, o termo que principia o seu trabalho, a saber, "Consciência subjetiva" é um erro de tradução reconhecido por pelo menos três dos maiores especialistas em Kierkegaard no mundo, haja vista que a redação original do autor em nada tinha a ver com movimentos internos, próprios e restritos ao sujeito pensante. A sétima edição do livro traz uma tradução inteiramente revisada, publicada no ano de 1995. A partir de tal obra, o termo já não figura mais na obra, senão no prefácio que vem exatamente explicar a necessidade da revisão e da nova tradução. Portanto, embora o desenvolvimento do texto que o senhor nos submeteu seja bem confeccionado, ela é impreciso em relação às ideias que o fundamentam. Sendo assim, infelizmente, elas invalidam todo o seu esforço, pois jamais tal conclusão poderia ser atingida a partir das ideias de um autor como Kierkegaard. Assim, preferimos acreditar que o erro do senhor fora compartilhar das ideias de uma tradução errônea e já desusada à acreditar que o senhor seja, caso contrário, um leitor desatento.&lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;Atenciosamente,&lt;br /&gt;Carlos André Maciel Folha&lt;br /&gt;Editor-chefe&lt;br /&gt;Revista Nosso Amiguinho&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-2669517450322606276?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/2669517450322606276/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=2669517450322606276&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/2669517450322606276'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/2669517450322606276'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/08/os-criterios-superhumanos-para.html' title='Os critérios superhumanos para a publicação de um texto'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-8183259920305397246</id><published>2010-08-03T22:44:00.000-07:00</published><updated>2010-08-05T15:52:16.698-07:00</updated><title type='text'>Carta que recebi de uma amante</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O texto está reproduzido na íntegra, conforme o original. &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;***&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Querido Guilherme,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Primeiro saiba que é muito difícil escrever uma carta para ti. Existem dois motivos para essa dificuldade: o primeiro é que hoje tenho a certeza de que tu te aterás mais à correção do meu português do que propriamente ao conteúdo do meu texto. O segundo é que nossa relação terminou a algum tempo e, pela forma como terminou, tenho medo de que tu venhas a me compreender mal. De outro lado, os motivos que me levaram a escrever para ti ainda me são estranhos. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Nossa relação nunca foi inteiramente transparente. Concordávamos em dar continuidade às coisas e simplesmente tomá-las como dadas, lembra? Costumavas dizer que opiniões não interessavam, somente os fatos, as coisas da forma como elas aconteciam. Éramos jóvens e românticos e apaixonados e burros. Dessa frase, ao longo desses anos, eu guardava somente o beijo que a sucedera como uma sentença de assunção. E esse beijo era o suficiente para que eu simplesmente saltasse por cima do conteúdo da frase e a deixasse descansar em sua formosura.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Hoje não vejo como o nosso relacionamento poderia ter continuidade depois de proferida essa sentença. Se interessavam somente os fatos, de que valia o amor em nossa relação? Aliás, de que valia a nossa própria relação? É certo que o amor se dá como um fato ou ele simplesmente encontra a sua existência quando o abrigamos em nosso interior e lhe damos todas as condições para que exista? Se a segunda hipótese for verdadeira, jamais importou o amor porque ele, fora da minha "opinião", nunca existiu. Da mesma forma, se o amor encarnasse um objeto e se desse então como um fato, que importância teriam todos os nossos momentos se o amor se ausentava dali e nos vigiava sempre de fora, como um momento que passou e que teríamos sempre de reassumir? O amor seria apenas um fato isolado, fora de nós, que não teria relação com nenhum de nossos momentos porque essa ligação se daria eo ipso na nossas opiniões, nos nossos juízos.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Sendo assim, o que posso pensar que esperavas de mim com essa frase? Ainda mais tendo ela vindo de ti! Olha para o que tu disseste! Abolisses ali a nossa própria relação, uma vez que essa era uma ligação &lt;em&gt;apaixonada&lt;/em&gt;&lt;apaixonada&gt; entre nós dois. O que sustentava esse aspecto relacional senão a loucura de nossas opiniões? E tu sabes bem que era loucura te amar — ainda mais da forma como te amei. Eu só consigo enxergar agora o quão burra eu fui, pois não consegui compreender nada disso no momento em que a frase me foi dita. E, do fundo do meu coração, espero que tu também tenhas sido burro ao enunciá-la. Será possível isso? Logo tu, que sempre fostes tão cuidadoso quanto a este aspecto?&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;apaixonada&gt;Por favor, entende a minha posição. Estes momentos continuam ecoando por minha memória e eu me debato em contradição e conflito por ter encontrado um grande amor, vivenciado-o e perdido-o. Não consigo evitar, enquanto escrevo esta carta, de pensar na tranquilidade e na calmaria em que tu estás neste exato momento, como se esse amor que hoje é apenas o tormento da falta daquele amor tenha simplesmente se apagado da tua consciência.&lt;/apaixonada&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;apaixonada&gt;Me diz, Gui. Essa diferença tão gritante que se manifesta hoje, no nosso presente, na sombra do que passou, o que ela signifca? Tu me amastes de verdade? Sinto que sim, mas sinto com um certo temor, pois procurei em outras pessoas a paixão que encontramos juntos, e nunca a encontrei. Mas, da mesma forma, ela continua muito clara para mim — de modo que não há uma sombra, mas uma representação dessa paixão que sempre me espreita. Contudo, não posso mentir que sinto tua falta. Não sinto. E vejo tudo isso de forma evidente quando tua frase vem à tona em meus pensamentos. Nunca te amei, apaixonei-me pela própria paixão. E encerrei-me com ela. Entretanto, tudo o que tivemos deixou marcas nessa paixão. Eu te peço, então, encarecidamente que me devolvas a pureza da minha paixão — pois tomastes ela de mim.&lt;/apaixonada&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;apaixonada&gt;Sinceramente tua,&lt;/apaixonada&gt;&lt;apaixonada&gt;&lt;br /&gt;_ &lt;/apaixonada&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="right"&gt;&lt;apaixonada&gt;Minas Gerais, Agosto de 2006.&lt;/apaixonada&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-8183259920305397246?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/8183259920305397246/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=8183259920305397246&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/8183259920305397246'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/8183259920305397246'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/08/carta-que-recebi-de-uma-amante.html' title='Carta que recebi de uma amante'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-3949363139613200160</id><published>2010-07-21T17:43:00.000-07:00</published><updated>2010-07-21T17:57:05.898-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='rascunho'/><title type='text'>O espaço da culpa</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;Tenho coligido lapsos de pensamentos desfragmentados, distendendo-os de forma a buscar uma definição para isto que se chama consciência. Esta breve introdução é somente o esboço rápido e vexante do meu fracasso e a assunção de um medo que há muito me espreita: o de polarizar, a partir de um movimento intuitivo, alguma coisa — qualquer coisa, que seja — de despojá-la no espaço e aqui ela se perder, neste imenso nada. Estaria, assim, me livrando não apenas deste encargo, mas desta consciência que me é tão cara. Uma vez gravada, e este é meu credo, poderia definir a consciência como descompressão: demoveria ela de minha mente e a abandonaria à leitura.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Procedo, então, à vertente antagônica e, menos tensionando uma definição do que buscando desvelar o movimento em sua motricidade originária, acedo à consciência como "ser-culpado". De chofre, já se entrevê aqui uma contradição: a própria tensão que se intui a partir de ser-culpado não pode ser pressentida em toda a estaticidade e tepidez que assola o substantivo consciência. Assim, lança-se a questão acerca da eficácia deste jogo na busca dessa definição. No entanto, a tônica aqui recai precisamente sobre a incorreção e a impostura deste fraseado na trama de um conceito. É esse incômodo, essa animosidade anímica, que nos conduzirá até a abertura da consciência.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Lembro de ter lido em algum autor que o pensamento é o mais próprio do ser humano (peço ao leitor perdão pelo esquecimento do autor, pois na hora não recorri a notas e agora disponho somente do limiar de minha memória. Tenham em mente, por favor, que a frase anterior não é minha). Não tenho a pretensão de refutar essa assertiva num esboço tão lábil e rudimentar, mas, quando me inundo de pensamentos, a minha sensação é justamente a que eles me são estranhos e rapidamente me escapam. Também, se o pensamento é o mais próprio do ser humano, então o meu mais próprio é o tormento, visto que não há sequer, em mim, um único pensamento que não me projete a um tormento progressivo, que se desvencilhará de quaisquer objetos e se abrirá em sua totalidade originária. Para se evitar confusões, não estou sobredeterminando o pensar a partir desta totalidade tormentária, mas há uma reversibilidade que, de alguma forma, encadeia-os, de tal modo que o pensamento não tarda a projetar-se como tormento e o tormento já me sobrelança os pensamentos mais terrificantes.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Neste ponto, acredito sobrevir a consciência. Uma rápida intervenção: é importante a distinção entre consciência e pensamento, uma vez que a própria estrutura sintática destes termos gama à consciência o movimento, ao passo que o radical "ento" do pensamento deixa-nos vir esta fluidez. Aqui, portanto, esta diferença móbil é suficiente para que se possa operar, mesmo rapidamente, esta disjunção entre os dois termos. O que, no entanto, não significa que não haja movimento da consciência ao pensamento. Ainda, minha opinião é que a relação entre ambos não se esgota na dialética continente/conteúdo. E, se há algo que se valha notar aqui, é esta "/" que os separa. Essa barra, mais do que os emparar, mantém pensamento e consciência a uma certa distância; não deixa, ainda assim, de ser um fator que se interpola entre ambos. É, ali, um elemento estranho que põe qualquer significação em cheque e deixa-nos a soçobrar na nossa intuição. Neste esquema de representação, a "/" foge à linguagem e faz o jogo operar em dobra, nos bastidores,  permitindo que o leitor aceda a esta estrutura assombrosa e informe através de sua intuição.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;(Uma rápida notação: aviso ao leitor que já não sei precisamente aonde estou indo; estou apenas jogando com os termos que trouxe à tona aqui e, dado o suporte que escolhi para veicular  este rascunho, a saber, um blog, já caminho para um fim prematuro. Um desvario.)&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Assim, no silêncio mais íntimo, a consciência assiste o pensamento esbater-se em trevas e estivá-la de caos e horror. Essa consciência, aqui, é o terceiro estranho, é a sombra do pensamento que, no mais remoto ponto do ser, contempla-o, arrastando-o nesta culpa silenciosa e impotente. Por sua vez, este arrastar é o seu movimento próprio: uma corrente de silêncio e trevas que, num movimento encadeado, aproveita-se da motricidade do pensar e enlaça-se com ele, dragando-o até a escuridão da tormenta. Assim, não há movimento da consciência livre nem de pensamento nem de trevas. Não que ela disponha destes como objetos; a consciência é antes um movimento reflexo que se lança ao rastro do próprio pensar, acompanhando-o de arrasto.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;A consciência é um fundo de trevas que já sempre espreita o lume fulgurante do pensamento no seu movimento mais originário.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Espero não ter sido muito claro.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-3949363139613200160?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/3949363139613200160/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=3949363139613200160&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/3949363139613200160'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/3949363139613200160'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/07/o-espaco-da-culpa.html' title='O espaço da culpa'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-5878331322484481005</id><published>2010-07-18T16:31:00.000-07:00</published><updated>2010-07-19T15:39:20.352-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='rascunho'/><title type='text'>Estação 4</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O sol bateu-se contra a praia às 16 horas. O impacto da queda alçou do solo infinitesimais grãos de areia. À medida que flutuavam, paulatinamente conflagravam-se e lançavam-se, configurando uma enorme explosão chamejante que incinerou, grão a grão,  toda alma viva num raio de 3200 quilômetros.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Sinteticamente, esta foi a descrição oficial apresentada por mais de 52 emissoras televisivas. O mesmo escrito figurava nos relatos periciais da polícia e serviu de base para seis livros, todos publicados dentro de um mês a partir da data da fatalidade que devorou a Estação 4 inteira. Uma outra corrente dotava os canais subterrâneos da Internet com dois viéses que esboçavam uma teoria da conspiração: a primeira foi encubada e quatro fóruns e propalada a partir das redes sociais, aquando assumiu vida própria e desfigurou-se a partir do próprio fio condutor da narrativa. O sol número dois teria sido alvo de uma brutal investida coordenada pela célula governamental da Estação 4. Era o que se podia depreender a partir da concatenação de todos aqueles excertos. Uma segunda versão dava conta de que o sol número dois fora projetado já sob limitações técnicas que lhe impingiam um certo prazo de validade. O resto da história já não fazia muito sentido. Nenhuma versão comportara o terror que se sublimou naquele dia.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Mesmo antes da colisão, o movimento vertiginoso daquela munificente estrutura artificial deflagrou uma incontável quantidade de terra do solo, como se preconizando a grande catástrofe. A bola de fogo penetrou no chão como se este fosse tenro: seu movimento, em princípio, não foi compelido pelo impacto e fulminou já o solo. O trajeto movente, como se viesse de arrasto, assentou-se sobre a esfera, já na cratera, e dragou uma enorme quantidade de areia para o interior daquele buraco negro.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;A própria esfera, quando teve seu movimento restringido pelo solo, pareceu sofrer o impacto reverso e explodiu num movimento centrípeto. Dada a profundidade e a enorme quantidade de areia que encobria a cratera, a explosão devorou a terra a partir de seu interior e desencadeou, primeiro, uma enorme sucção: no mesmo movimento que impeliu a areia para o ar e lançou-a para fora da praia, o espaço livre deu ensejo a um movimento de ocupação reversível concomitante que convocou o mar sobre si para, no momento consecutivo, ser remetida ao ar de sobressalto, transfigurada em uma massa incandescente devoradora. Era o inferno. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;O movimento de troca rendeu o fogo à água e a água ao fogo. O mar rapidamente revestiu a cratera e encimou o vazio suscitado pelo rastro daquele movimento de colisão. A visão que se teve da Estação 3 foi de um movimento celestial irisado, alternando-se entre matizes de amarelo, laranja e vermelha ao passo que alçava aos céus e propalava-se num movimento centrífugo delirante que se explodia ao horizonte, extinguindo-se morosamente, conforme alastrava-se. Primeiro areia e terra, seguidas de água — tudo entremeado pelo revestimento superficial metálico da esfera. Da Estação 3, pode-se ver a vida do continente vizinho extinguir-se num lapso místico, como se um sopro de fogo que se deslocava de forma expedita na aurora distante. A Estação 4 devorou-se a partir de seu interior. Exatamente às quatro horas da tarde o sol trasmutou-se em um bulcão e, negro, descaíra sobre as terras, conduzindo-as ao seu destino.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;O astro sintético, o sol número dois, radiava sobre as Estações 3 e 4. Na sua queda, uma delas havia extinguido-se, como se um presságio à consumação daquela. Ninguém mais desceu à Estação 4, ao passo que a última visão de claridade dos habitantes da Estação 3 foi o abocanhamento do setor vizinho. Diz-se que vez ou outra pode-se ver de lá um ligeiro movimento efervescente no céu, característico de uma combustão contingente do astro, refratada pelo deslocamento das águas que o encobrem. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;A Estação 4 foi devorada, na imediatez do movimento de consumação, por um paroxismo de claridade. A Estação 3, como negativo, combale-se em trevas e gelo — morosamente abocanhada pelo caos. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;—&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;A primeira versão deste escrito emergiu em um fórum da Internet postado por um usuário com um único post, portanto desconhecido da comunidade. No mesmo post, ele reporta ter sido este relado colhido em incursão exploratória realizada à Estação 3 sob os auspícios de um grupo autônomo anônimo. Segundo o autor, o documento original semelha-se a uma página cuidadosamente arrancada de um livro de 21,5x15,5cm. A versão transcrita seria uma adaptação depurada, visto que no documento constavam rasuras e palavras próprias de um dialeto tido como próprio do posto 23 da Estação 3.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Meses depois, uma versão fotográfica do mesmo documento foi postada por outro usuário, também autor de post único. A imagem retrata, de forma legível, no lugar da data, o engrama “C3134” e traz ainda uma assinatura ininteligível. O parágrafo final mostra-se inteiramente rasurado e, de seus poucos fragmentos legíveis, depreende-se que era um adjunto ao texto, falando sobre as condições do próprio autor. Como o posto 23 era composto de trânsfugas da Estação 4, nada se pode inferir a respeito da origem do autor ou do documento. Derivam daí três correntes conhecidas: a primeira, tida como a mais verossímil, acredita que, mesmo 25 anos depois, ainda existem sobreviventes na Estação 3; as suas condições de sobrevivência, no entanto, são desconhecidas. A segunda corrente, menos provável, especula que haja vida mesmo na Estação 4, em pontos remotos com fortificações que, somando-se à sorte, teriam amenizado a explosão. Por fim, a última corrente acredita que o documento é falso e surgiu como uma brincadeira que acabou espalhada pelas redes sociais.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Como autor do documento, denego as três conjeturas.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-5878331322484481005?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/5878331322484481005/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=5878331322484481005&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/5878331322484481005'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/5878331322484481005'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/07/estacao-4.html' title='Estação 4'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-4752441038777212455</id><published>2010-06-29T07:02:00.000-07:00</published><updated>2010-06-29T07:03:13.196-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>Clara</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Clara era escritora.  Gostava de entrelaçar frases curtas. Uma após a outra, cada uma de sua vez. Quando a quebra do ritmo se aproximava, rapidamente desdobrava uma frase longa de todas aquelas pequeninas, como se contornando-as e corroborando seu valor naquele parágrafo. Satisfeita, pontuava com uma pequena manchinha e um longo suspiro.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;Vez ou outra, sentia-se insatisfeita com as tramas que lia: muito rígidas, muito flexíveis, muito banais, muito insólitas — muitos muito. Mas, verdadeiramente, sequer ligava, como se aquilo nada lhe tivesse a acrescentar. Essas histórias que a gente lê por aí, dizia, nada tem de interessante. São escritas para nós, acabava. Não reconhecia o valor dos grandes romances, desprezava a filosofia, repudiava os grandes autores. Por isso, decidira escrever as suas próprias.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;A única coisa que interessava Clara era a sua escritura, quando ela mesma sentava para escrever. A angústia lhe sobrevinha ante todo aquele branco, acometia-lhe a vertigem de tudo que estava porvir. Segurava-se no pequeno lápis e esperava o mundo parar de girar. No ponto em que ele parasse, ela simplesmente olhava para frente e rabiscava o que entrevia. Encolhia-se na cadeira, olhos brilhantes, e inclinava-se para escrever. Contanto que o texto fosse seu, achava ótimo.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Assim Clara escrevia sua própria vida. Pequenas e rápidas frases curtas. Sentia-se segura com tantas afirmativas por perto e, quando precisava fugir delas, tratava de rasurar uma longa frase sobre o papel, que lhe aportasse bem longe. Já não lhe interessava para onde ia, nem todas aquelas certezas que deixava para trás. Pontificava, com um sorriso, e iniciava um novo parágrafo.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;É um pouco difícil falar dela, até porque nos encontramos pouco. Certa vez, pedi para ler um de seus textos. Somente esticou a mão e alcançou-me um pedaço de papel. Foi embora assim que baixei meus olhos. Para ser sincero, o texto era bem ruinzinho. Mas já não era mais sua responsabilidade; agora era minha. Entendi tudo. Era somente mais uma de suas frases longas. Sorri, guardei o papel e escrevi um texto. Este texto.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-4752441038777212455?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/4752441038777212455/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=4752441038777212455&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/4752441038777212455'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/4752441038777212455'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/06/clara.html' title='Clara'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-5565711964277427302</id><published>2010-06-25T22:43:00.000-07:00</published><updated>2010-06-29T06:16:30.838-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='rascunho'/><title type='text'>São Lourenço</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;Há muito pouco a se dizer sobre São Lourenço do Sul. Tal frase somente pode cumprir-se verdadeira caso este breve rascunho mostre-se como um incurso paroxístico em memórias. Eis, pois, algo que tencionarei aqui. Para isso, entretanto, um rápido pródromo faz-se necessário.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;O nome completo que enverga a cidade é São Lourenço do Sul. A abreviatura, no entanto, faz-se extirpar a referência espacial e parece ser ainda mais sábia do que a completude do termo originário. A supressão aqui não é menos necessária ao nome do que à efusão vivificante do que antecede e abre a cidade. São Lourenço não é, pois, mais um lugar no espaço. Ao se extirpar o Sul, abroga-se em conjunto a referência espacial geofísica.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;Tal pode afigurar-se uma injustiça; apercebendo-se da poesia, um poderia dizer que é justamente o Sul que lhe situa São Lourenço, como se jazesse sempre ao sul de seu coração ou de suas lembranças e, portanto, tem, como para onde recorrer, uma referência para aceder ao imaginário conjurado por essa cidade. Entretanto, a supressão acera-se justamente em um recurso presente na hipótese acima: a imolação do sul abre o referenciar mais próprio e aproxima ainda mais a pessoa de São Lourenço do Sul, flagrando ambos os elementos em conjunção íntima.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Adiante, pode-se dizer ainda mais sobre este sacrifício: faz o nome sangrar, como se o punindo por seus pecados, eis que ele sempre antecede o fenômeno — conduzindo-o por tortuosos caminhos pré-delineados, cingindo e cindindo-o — ou procede dele —  o nome acena o fenômeno decurso uma vez findado e perpetua-o, remete-o ao conhecimento através de sua nomenclatura. O simples nomear aqui evidencia-se como um verbo e, portanto, é uma sedução ao fenômeno, um desvio, um anexo.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Malogrado, a própria extirpação do elemento Sul é arbitrária e volitiva. Por assim se dizer, o sacrifício é consumado livremente por cada um. Ao fazer-se o nome sangrar, ao se imolá-lo, arranca-se ele ao seu caráter de nome e se o sacraliza, remetendo-o à coisa mais originária. Assim, o sacrifício caracterizado pela livre apropriação é uma remição daquilo que antecede à nomenclatura. Nesse movimento de anteceder-se, entretanto, jaz justamente o que já foi enunciado aqui: a livre apropriação, o deslocamento até esse nome realizado por cada um, cada vez. &lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Findada esta introdução, sinto-me, pois, finalmente livre para dizer o pouco que há para se dizer sobre São Lourenço. Desse modo, para ti, leitor, espero trazer à vaga tudo aquilo que há de místico, secreto e aconchegante nessa pequena cidade onde nasci. Para tal, para ter consciência de tudo àquilo que essa epígrafe acede, basta que corras teus olhos para o primeiro parágrafo deste breve rascunho — aquele em branco. Aí verás São Lourenço, eis que São Lourenço do Sul é o espelho da tua alma refletido a ti mesmo.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-5565711964277427302?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/5565711964277427302/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=5565711964277427302&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/5565711964277427302'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/5565711964277427302'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/06/sao-lourenco.html' title='São Lourenço'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-8506881373701236411</id><published>2010-06-19T17:34:00.000-07:00</published><updated>2010-06-19T17:42:03.128-07:00</updated><title type='text'>Microfísica</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;“Eis um homem diante de um apodítico destino. Convenceu-se que o contínuo desenvolvimento da tela em branco lhe traria glórias. Suscitava-lhe primeiro, todavia, a ânsia e a angústia, tal como se a tela alçasse sobre ele um olhar, o seu próprio olhar de autor, causando-lhe certa repugnância. A tela escrevia sobre ele, antecedendo-o; tudo que pretendia escrever já estava ali encoberto por um espúrio pedaço de papel digitalizado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por tal, era antes um artífice. Antes da obra prelineada, já manuseava-a concluída, dado o prévio acabamento das letras. Já não portava, pois, nem o calor da criação; era apenas um intermediário, marcando um encontro com o destino que lhe era próprio. Este, como bem dito, apodítico: conhecia o caminho e experimentara a redenção nas experiências dos outros. Bastava-lhe rearranjar as letras de modo preciso e exímio, conjurando a genialidade recalcada nos interstícios da tela. Apenas deixava-se conduzir por aquela concatenação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como manifesto ante seu olhar, o destino poderia ser facilmente reconfigurado. Decidira, portanto, eliminar o penoso caminho da criação. A escritura seria-lhe fácil e leve, uma palavra sutilmente edificaria a seguinte e as frases se sucederiam, como se deslizando pelo espaço linear já gravado para sua composição. Se bem tramadas, sabia que as palavras lhe afigurariam autor. Sendo assim, a obra exaltá-lo-ia e ele exaltaria a obra, em um espiral contínuo que, em sua mente, ainda não encontrara um fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De sua parte, era imprescindível a ignição. Como homem, precisava abraçar o destino e remeter-se-lhe. O primeiro passo era seu; os demais, da escritura. Após, cada palavra lhe esboroaria o ser, que se dissiparia como eflúvio no ar. Dessa maneira, a linha se desenharia até que se queimasse o último instar de sua presença. Lançar-se-ia para o destino inexorável. Somente assim estaria inscrito na obra; esta apontá-lo-ia: jaz aqui a essência, a existência de um homem. Incendiou suas possibilidades e conflagrou-se num encadeamento linear que para sempre o antecedera e o introduzira, até o sorver por completo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem permanecia ali sentado, com o computador sobre suas a pernas e a encará-lo com disciplina. Lia o papel em branco, que o reprovava em retorno. Antes de ser um desafio ou uma tarefa, era um espelho e mostrava-lhe justamente o que dispunha em sua frente: era um homem dado, já morto, instante no que podia ver, sem possibilidade alguma. O que o espelho não lhe mostrava era o que podia ser. Isso somente se abriria quando lançada a primeira palavra e deturpado o olhar reflexivo. Portanto, ela precisava ser grandiosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Irrompeu o silêncio e, de chofre, teclou uma letra. Rapidamente, esta desdobrou-se em uma palavra. A palavra, em uma frase e a frase, em uma angústia ainda maior. Percebeu que preenchia o espelho com o movimento espaçado e pesado das frases, que agora já ocupavam o papel e estavam lançadas para o seu próprio fim. Notou o que iniciara e, mesmo que agora apagasse a frase, já a havia articulado. Era tarde demais. Deixando escapar uma lágrima, deu continuidade ao texto.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Como a obra comportava intrínseca o seu ser espalhado pelas páginas, ela tinha conhecimento do próprio autor. E agora já estava escrita. E agora já o tinha inscrito. Percebo que seu maior erro foi diminuir-se para que a obra o comportasse.” — escreveu o personagem (sobre) o autor, na página 12 da primeira edição. &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-8506881373701236411?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/8506881373701236411/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=8506881373701236411&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/8506881373701236411'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/8506881373701236411'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/06/microfisica.html' title='Microfísica'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-3067249567232174675</id><published>2010-06-04T09:34:00.000-07:00</published><updated>2010-06-07T13:16:52.288-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='rascunho'/><title type='text'>Uma cadeira</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Toda a genialidade que a vida nos solicita depõe-se numa cadeira. Decerto que essa frase possui muitos termos a se deslindar, tais quais vida, genialidade e o próprio depor.  Atenhamo-nos, no entanto, à singularidade de uma pequena cadeira que, na conjunção de suas peças ou na fluida superfície relacional de seu todo, cumpre essa remissão criativa. Os termos laterais, aqui, são um convite prévio à refutação deste breve escrito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para fins retóricos, reitero: uma única cadeira, em sua singularidade, remete-nos a toda genialidade que a vida nos solicita. E, por singularidade, jogo com a polivalente significação do termo: unicidade em termos de ser uma única peça, de ser especial e de ser uma síntese. Tudo que precisamos para executar essa genialidade é uma única e solitária cadeira. Por ora, basta dizer que genialidade refere-se tanto ao gênio de talento quanto ao de índole.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma cadeira é uma estrutura. As peças articulam-se entre si, jungem-se e, na sua composição, formam a cadeira. No faltar de uma única peça, toda a estrutura perde seu equilíbrio, de forma que a mínima pressão que se exerça sobre a pequena cadeira é suficiente para fazê-la pender à ruína. Assim, essa pequena cadeira pode ensinar-nos sobre nossas relações. É duro acreditar que, embora sejamos os protagonistas de nossas próprias vidas, a relação sempre antecede-nos e não admite outro protagonista que não essa conjugação que é própria do “relacionar-se”. Como as peças da cadeira, nunca somos o elemento chave nessa construção. Mas somos todos imprescindíveis. Precisamos empenhar-nos, em conjunto, numa grande tarefa comum: construir o amor, a amizade, o mal, o que for.  Do contrário, não devemos todos, cada vez, executar a mesma tarefa, eis que isso gerará competição e espreitará a cadeira em sua própria estrutura. E custa-nos aprender a compor um todo com os outros, em vez de competir com eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No encontro com a cadeira está pressuposta uma sucessão de pessoas que desconhecemos. Para chegarmos até aqui, muitas pessoas se esforçaram. Contudo, o encontro com essa cadeira revela-se a nós somente como o encontro com um objeto. A cadeira é, antes de tudo, uma construção e um empenho coletivo anterior a nós. Nossas conquistas, sejam materiais ou não, trazem consigo o esforço de outras pessoas. Sem o movimento delas, e todas suas condições, não teríamos uma cadeira e não teríamos esse encontro-com-uma-cadeira. Depende de nós encontrá-la, mas depende de todo o resto colocá-la ali. Somos o que somos por causa de quem, saibamos ou não, direta ou indiretamente, colocou a sorte em nosso caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda no pensamento estrutural, lembremo-nos que a cadeira é um projeto. Seu desenho obedece uma funcionalidade e, para que ela se cumpra, embora em diferentes formas, as peças são necessárias. Logo, compõem um simples sentar, de forma reducionista, a base do assento e das pernas e a segurança dos liames entre elas. O mínimo que uma cadeira pode oferecer é esse sentar-se. O conforto e as comodidades são acessórios e vem depois, adicionando-se a partir da experiência da pessoa que se senta. Quando algo envolve pessoas, precisa-se de uma base sólida, amparada por segurança. O resto adiciona-se tardiamente, mas, sem esses primeiros componentes, todas essas adições são ameaçadas. Nada impede que se construa a cadeira pensando a partir das adições futuras, mas uma cadeira segura é imprescindível. Para qualquer relação bem intencionada com pessoas precisa-se de segurança. O que temos a oferecer depois pode até ser convidativo a sentar, mas sempre nos espreita a possibilidade de a cadeira esboroar-se. A relação depende da cadeira que ofereceremos. E é importante que ofereçamos a cadeira, ou a relação pode nem acontecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fim, as coisas são sobre cadeiras e pessoas. Talvez essa frase não queira dizer nada, mas talvez seja uma remissão a uma significação infinita em que a simples alteração no posicionamento de uma cadeira pode transfigurá-la de objeto-obstáculo a objeto-relacional.  Na vida, talvez as coisas possam ser simples — a leitura dessa vida, talvez, nunca o seja — e o que tenhamos a fazer é oferecer a nossa cadeira para alguém, em vez de puxar a de alguém para fazê-la nossa. Tudo, no fim, para que possamos sentar na nossa cadeira, descansar e contemplar de fora tudo aquilo que construímos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cadeiras e pessoas, tudo está nas formas como nos ocupamos e nos preocupamos com elas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-3067249567232174675?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/3067249567232174675/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=3067249567232174675&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/3067249567232174675'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/3067249567232174675'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/06/uma-cadeira.html' title='Uma cadeira'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-891858864367601381</id><published>2010-05-31T10:09:00.000-07:00</published><updated>2010-05-31T10:15:42.323-07:00</updated><title type='text'>Folguedos</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Da tarde fria em que se exarava a paixão, como se alentada pelos raios de luz que adentravam o quarto pela janela, pouco tenho a rememorar. O clarão delineava-se por pequenas partículas de pó, vestígios de um movimento tenro e macio, se não arcano. Não estava consciente decerto, ou extasiado pelos enlevos do frio que emanava dos minguados filetes de luz, mas carrego em minhas memórias alguns elementos esparsos, contingentes devaneios de minha imaginação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma xícara de chá, um pequeno tabuleiro e um cobertor; não me recordo bem. Continuo a rearranjá-los em minha cabeça, tal qual buscasse uma fórmula, uma combinação precisa que fosse desencadear de súbito aquele início de tarde tão nítido e matizado, antes de se esmaecerem as cores do horizonte e se extenuarem os encantos suspensos no ar. Pouco mais conseguia, senão entrever uma efervescência de cores: lapsos azuis, linhas amarelas, respingos verdes e uma mortalha branca que se assentava sob o mosaico das cores. De olhos fechados, as cores deslizavam defronte meus olhos, recônditas em minha fantasia. Desenhava, como se embebendo o pensamento nessas matrizes e arrastando-as, manipulando o substrato imaterial e informando-o, como se arquitetasse os elementos a partir do nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma xícara de chá, um pequeno tabuleiro e um cobertor. Foram esses os objetos reinvestidos por minha paixão, ao ponto de comportarem em seus interstícios a síntese do esfriar da tarde e a singularidade daquele amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora bem recordo-me: foram estes os elementos que ela manuseava em minha visão. Foram estes os movimentos investidos por minha paixão. E, agora que ela se esvaeceu no tempo, permaneço fixo a observar esses três, lembrando como a menina os usava, tentando recriá-la a partir da combinação certa, como se o meu manuseio daqueles objetos, como se houvesse uma rearticulação precisa que, no código certo, fosse trazer-me de volta da memória o frio, minha pequena paixão e suas brincadeiras. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-891858864367601381?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/891858864367601381/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=891858864367601381&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/891858864367601381'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/891858864367601381'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/05/folguedos_31.html' title='Folguedos'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-2603762152544413296</id><published>2010-05-25T20:51:00.000-07:00</published><updated>2010-05-26T08:21:39.215-07:00</updated><title type='text'>Xerox</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Um pedido da Sandrine e um desafio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Medo e horror na superfície do espelho da deformidade. Quão assustadores e repugnantes nos são aqueles que nos são? O problema das pessoas xerox é justamente defrontar-nos com a deformidade. A nossa. Na cópia perfeita, a falta de uma pretensa personalidade também nos assola por detrás da superfície das aparências, eis que ela também nos pode pertencer e ali se expõe, manifesta-se. Jaz suspensa a dúvida: o movimento da cópia também nos é próprio?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, entre tantas pessoas, por que sorte fomos nós escolhidos? Isto me assusta: o quão vazio e leviano eu devo ser para ser apreendido e trasladado por outra pessoa? Serei sempre rascunho barato, o outro me espreita, ele me risca e me rasga. Sou fuga de sombras e tentativa mórbida de singularidade. O fato de ter sido eu o escolhido flagra-me em toda minha especialidade. Acredite, sinto-me, pois, honrado nessa figuração, nessa transfiguração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do contrário: assusta-me a ignomínia da reprodução, a baixeza do meu reflexo. Ali, refletido, repudio a mim mesmo e à minha suposta especialidade. Diante de minha imagem, ela já não me parece extraordinária — nem ao outro, dado que foi tão facilmente representada. Tristes daqueles que copiam; operam um duplo assassinato na instância do ato: o do outro, mas antes o seu próprio. A duplicação esvazia completamente, dissuade o original e a cópia, esta será sempre destituída de peso e singularidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No xerox, contudo, a cópia é sempre pobre: costumeiramente monocromática e notoriamente rasurada. O original salvaguarda seu charme, ao passo que a reprodução é um acesso barato ao original, sabe-se sempre distinguir a cópia do copiado. Eis aqui a falha: a apreensão primária que antecede a duplicação é sempre visual e à imagem escapa a essência. A duplicata é leviana e débil quando todo seu pretenso valor se acumularia no apuro técnico, na perfeição da reprodução. Se vai copiar, copia direito. Todavia, ainda guinda a questão da  deformidade manifesta: ela é, em mim, latente ou é tão-somente uma incorreção do processo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse sentido, a cópia imperfeita afronta o original e cumpre a remissão das questões: seu papel é indagar esse original, eis que a reprodução é ordinariamente paródica e, antes de ser eu mesmo, é a crítica mais violenta a esse ser: como pode ser duplicado com tamanha facilidade, como pode ser tão facilmente adaptado pelo outro, até pelo fato de que, muitas vezes, os defeitos que se vêem não são aqueles espaços malcobertos, mas as protuberâncias do acúmulo de camadas: os defeitos são os meus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o que mais me assusta são esses rombos no reflexo de minha imagem que evidenciam o outro. É esse o charme da cópia que falta ao copiado. Em contrapartida, todo o charme do copiado já se encontra acumulado superficialmente na cópia. A vantagem é sempre do outro que, como reprodução imperfeita, pode antecipar-me e assumir meus atos. À mim, restarão as consequências.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fim, a cópia sou eu.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-2603762152544413296?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/2603762152544413296/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=2603762152544413296&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/2603762152544413296'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/2603762152544413296'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/05/xerox.html' title='Xerox'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-4978296924141196516</id><published>2010-05-23T23:08:00.000-07:00</published><updated>2010-05-23T23:35:38.323-07:00</updated><title type='text'>Äydr</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O “A” enceta uma Ordem. Introduz um sistema complexo e denso, ao qual se tem acesso e se lhe utiliza consensualmente, mas não se sabe explicá-lo — o alfabeto. É o marco inicial desse simbolismo linguístico e, na palavra, mantém o sistema no mínimo; aceno a um todo simbólico de uma linguagem comum, reifica esse todo e torna-o acessível, no real, à inflexão humana no lapso; precipita-o em sua brevidade. Grau de semelhança: o resíduo, a parte, é suficiente para engendrar o todo de per si, como se o “A” contivesse a matriz originária desse alfabeto, desse sistema simbólico. A presença da letra, a sua grafia, é uma manifestação de um algo muito maior do qual essa letra, "A", é a parte mínima, a ideia, um sintoma. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O trema, aqui já vestígio da dessuetude da nossa língua, impinge uma estranheza portenta ao termo. Paira suspensa sobre o “A” e opera uma disjunção dual: não apenas traduz a remissão do sistema comentado acima, introduzido e comportado pela letra, a uma dimensão terrificante, como também a cisão da palavra fora de nosso idioma. Estranhamento/entranhamento: a suspensão do trema enceta um novo sistema, transgride o original nas múltiplas acepções da palavra e o fixa na lugubridade: excede o original — o que implica uma excrescência débil desse sistema — atrasa-o, e o infringe. Simultaneamente é seu vislumbre, seu excesso e sua violência. Ao mesmo tempo que transfigura a linguagem, radica-a sobre uma nova significação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na sequência, o “y” joga simplesmente com seu termo antecedente. Ainda na analogia ao alfabeto, essa letra praticamente o encerra. Escolhi-a aqui, entretanto, por condições intrigantes: embora apresente-se ao final desse sistema, o y não o finda — cabe à letra z essa função. Articulado à letra A que inicia a palavra äydr, ele traduz o decurso do alfabeto, o caminho do início ao fim de um sistema. Ainda assim, dá a ideia de elemento ausente. Falta algo aqui, um termo e, com ele, inumeráveis articulações. Portanto, não se excluem aqui as possibilidades de vida imanentes ao sistema e ao seu espelho deformado. “Äy” conota infinitas possibilidades de articulação, implica a suntuosidade desse alfabeto movente, permite a distorção de todas essas possibilidades — o delírio e a vertigem que espreitam qualquer movimento — e ainda assim antecipa o advento do ausente (e sua miríade de distorções). Ademais, o y foge ao português, escapa ao seu lastro gramatical, e remete o termo Äydr à estranheza de um língua que apresenta-se como estrangeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A prossecução pelo “d” é um recurso sonoro. Quebra a suposta vocalidade, a facilidade da pretensa pronúncia aberta e infinita do “äy”.  Contrapõe-se à harmonia sonora que até aqui se esboçou e corrobora, em auxílio ao trema, a estranheza da palavra. O “d” vem seco — justapõe-se às letras anteriores e corta rápida e brutamente a palavra. A pronúncia de “äy” vem fácil à língua, mas, desconhecendo a procedência da palavra completa, toda tentativa de reprodução sonora é sempre um intento. Pronunciar äydr é sempre um tentar pronunciar äydr. Nunca há a certeza do que se está fazendo, eis que não se sabe os ditames que figuram por trás dessa palavra. Malgrado a pronúncia corredia, a incerteza é perene e, assim, quase inerente ao enunciado. Pode-se falar äydr duas vezes seguidas com duas pronúncias diferentes e igualmente acertar e errar ambas. Jamais se saberá o seu modo correto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao fim dessa palavra, acresce-se um “r”. Sua função, em minha mente, é representar o entrave e o embaraço no plano linguístico. Precedido por outra consoante, a estranheza aumenta e reforça-se o postulado no parágrafo anterior. O “r” vem senão enrolar, dificultar e flexionar à pronúncia, sujeitando-a sempre aos sotaques; cada um possui um jeito específico para enunciar äydr, sempre condicionado à pluralidade da vivência, às inflexões culturais e pessoais, às dificuldades e facilidades da voz. Tal é a contribuição do “r”, que ainda mantém a palavra em aberto, infinda, ainda mais estranha. A pronúncia de äydr urge por um complemento, clama sempre por um algo mais, um termo concomitante imediato cuja única importante jaz na sua relação com essa estranha palavra. Articulada ao “d”, pressupõe ainda que a letra seguinte seria uma vocal. Porém, pela dúvida evidente que eflui desse termo, imagina-se que qualquer termo possa acrescentar-se ao seu fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis minha tentativa de justiça ao cunhar uma palavra representativa das vicissitudes de um sentimento que há muito transcendeu o amor: Äydr.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-4978296924141196516?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/4978296924141196516/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=4978296924141196516&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/4978296924141196516'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/4978296924141196516'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/05/aydr.html' title='Äydr'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-8873350280971491637</id><published>2010-05-18T17:58:00.000-07:00</published><updated>2010-05-18T17:59:27.495-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='rascunho'/><title type='text'>Razão</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Resigno a razão. Tenho minhas razões para isso. Talvez essas duas frases encadeadas ponham em xeque todo meu texto, lançando-o em um intrincado e inexpugnável (vocês bem entenderão porque) paradoxo. Talvez ainda o próprio desenlace deste rascunho seja invalidado por este ligeiro intróito, cuja índole altiva lhe servirá de alcunha pelas linhas que conduzem os olhos do leitor. Por fim, pontuando um talvez último e, talvez — mais um agora, de permeio, o que me afama mentiroso — a razão, a minha, pela qual escrevo: talvez jamais se considere este texto como completo, pois poderia abrir um parêntese e pôr-me a discorrer sobre ele ad aeterno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que catastrófico esse primeiro parágrafo. Amortalha o texto já em sua mais externa superfície e contiguamente mortifica seus obscuros enleios. Permitam-me uma leve correção: incomoda-me esta razão — escusem-me tamanha mentira prévia, não me foi possível a resignação: este também é um desabafo — pois me incomoda esta silenciosa linearidade. Pedirei a remição divina — a do leitor — porquanto terei de incorrer neste opulento pecado para dar cabo deste texto: terei de ser um mínimo racional. Prenuncio meu pecado como querendo remi-lo de antemão. Por fim, pedir-lhes-ei um último favor: enquanto correrem os olhos por estas linhas, considerem-me como o grande mentiroso que sou; sintam raiva de mim. O que se apresentará faltará com a verdade, soará uma contrafação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como falar desta razão que me é tão cara e ao mesmo tempo tão prejudicial sem defrontar-me com os portentos e horripilantes baluartes conceituais? Este texto soará como uma bravata cujo autor esconde-se por detrás de linhas frígidas e inanes como artifício para imprimir verossimilhança ao conteúdo. Mas devo fazê-lo, às expensas de minha própria credibilidade e de minha própria sanidade. Fugirei dos conceitos e, desses lúgubres substantivos, usarei somente a carcaça, os vislumbres. Manter-me-ei no mínimo; assim cada jogo de palavras deve ser compreendido: um mínimo. Meu intento desfalece antes mesmo de se consumar. Que triste e angustiante este início.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ser racional exige certa linearidade. Não o consigo fazer. Entretanto, devo-o. É com enorme pesar que vou cerrando este rascunho, que o vou endireitando e afilando por estas linhas. Ocupo os sulcos do espaço com esta ideia e isso me aflige com uma debilidade desmedida. É notável meu embaraço ao fazê-lo. Meus erros, eles são incuráveis; sou um amante com dois encontros marcados: com a ideia e com os espaçamentos. Não! Sou antes Deus! Um voyeur por trás destas linhas. Apago-me no movimento linear da escritura, permitindo que o leitor traje as curvas exaradas desta tipografia. Não há, nestas intersecções, espaços para a minha paixão; sou a sombra que alicia o encontro eterno e apaga-se na sua iminência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É uma enorme torpeza cumprir tamanha redução. Em um mundo inteiro, seguir somente uma linha. E adiante: deflagrar somente uma linha. Não consigo, perdoem-me, fugir desse conceito técnico e mecanicista da razão: um pensar em conceitos. Se devo enclausurar este tema aqui, saibam os malefícios que isso me acarreta ao espírito. A razão pela razão somente me foi tóxica. Encerrei mundos, recortei-os e os justapus num enorme mosaico. Jamais perdi o fio. Que melancólica seria uma linha que nunca se quebra, ou ainda uma página que nunca finda — extensão quilométrica da razão. Faço uma pausa para respirar aqui. Sinto-me aliviado por poder virar a página, para frente e para trás simultaneamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Discurso publicitário: a razão conduz a escolhas. Ora, ciência, a razão, como o acaso, é sobremodo simples, mas não simplória talvez — deixo-me trair pelo meu próprio discurso. Oh! vergonha. Qual a chance de um único fato acontecer? Qual o fio condutor da razão? Imaginemos um universo negativo: ao invés de um único presente, temos um único ausente. Quantos elementos podemos arrolar? Bilhões? Ora, há um único ausente; os movimentos da razão e do acaso são simples: preenche-se um espaço vazio, sulca-se outro. Não há interferência nessa massa entranhada e mórbida do ausente, somente um deslocamento mínimo do vazio. Pobres das escolhas. Pobres de nós, temos de fazê-las, na ilusão da conspicuidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não! A razão não permite essas escolhas! Elas são pessoais em demasia e podem ser, de fato, conspícuas, desde que consideremos a vida como um mínimo de presença nesse mar de ausência e que, assim, cada movimento mínimo é suficiente para balouçar-nos com veemência. Sair do embate, da tensão, pode ser feito dentro da razão? Tenho minhas dúvidas. Suspeito sempre — e essa suspeição extenua-me o espírito. Veja bem, leitor. De fronte a esta tela, mire meu rosto por detrás dessas linhas que nos tornam mediatos. É visível já minha pele esmaecida e meu aspecto pálido. Como posso terminar de redigir esta afronta à minha existência?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O elogio ou a crítica, por mais racional, não são apenas um fio que se segue? Não são possíveis de igual e interdependentes? Ademais, não são, como este rascunho, tão somente um mínimo racional? As pulsões e as faces imiscuem-se nas linhas e apagam-se na sua própria afirmação; na assinatura do autor lhe aguarda sua própria sentença de morte. Eu vejo barras. Já entrevejo-as com certa facilidade antes mesmo de digladiarem-se os termos. Como podem existir fora dessas barras que os separam? Tenho minhas dúvidas se podem superá-las e ainda guardar um mínimo de uma existência que não um simulacro. Como, portanto, poderia eu sair desse emaranhado paradoxo sem emitir juízo? Aqui, mais uma vez, meu próprio intento me fulmina; prometi-vos que seria um mínimo racional e já estou sucumbindo à razão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, incomoda-me ainda mais essa justaposição do pensamento à razão. Como pode ser o pensamento de todo racional? Por favor, não lhes peço que compreendam o estatuo desse problema, mas lanço um viés linguístico: o racional é um desdobramento da razão, um substantivo originário. O pensamento, já em si, expressa o movente, o ato do pensar. Temos um verbo originário. Não cometam, pois, um pecado ainda maior que o meu. Não falem de uma natureza racional e linear desse pensamento, evidenciando a razão e conservando o pensamento em seu máximo de mistério afim de comparação, como se somente apresentá-los na mesma frase fosse argumento suficiente para tal comparação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, grosso modo — expressão que caracterizaria bem todo este rascunho; rabisco-o com certa azáfama, um tanto sôfrego por sua conclusão —, perpetrar-se-ia a sobrepujança da técnica. Diria que, na sua camada mais superficial, talvez o pensamento fosse uma simples consciência responsiva positiva. O entranhamento da razão aqui menosprezaria a intuição, enervaria o movimento de espírito, o jogo e a sedução que acorrenta o meu ser em mim. A razão, por fim, poderia ser um presenciar-se fora de si. E aqui, entendam o quão duro me é dizer isso, uma quebra da linearidade; um sair de si e acenar a si próprio – um pensamento que vem antes, orientando, ou depois, analisando, endireitando e lapidando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No tocante ao pensamento, a razão talvez — não consigo desasir-me da incerteza e da especulação — configure uma linearização, o movimento sério e dirigido da reta, uma lapidação prévia ou posterior que se quebra juntamente à linha da página, que se dissipa com a página virada. A razão, sendo assim, seria condutora: se não orientasse o projeto de seu princípio (eis aqui uma empresa racional), assiná-lo-ia ao término. Mas, tamanha é a dor dessa linearidade que nos impinge, que nos põe na intermitência e fora da continuidade do movimento, que cerceia essa continuum temporal do ser. Seria, assim, a razão que aterrissa exatamente o que nos leva para fora de nós?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não peço que me entendam. Não! Quão grande e hórrido é o desprezo daquele que nos compreende! Mas, perguntem comigo: a razão é esse viver objetivo? Creio ser demasiado merencória a vida que se policia a todo momento e, ademais, impossível. É impossível esse ser racional, fora de toda e qualquer pulsão, fora do movimento de nossa própria morte. A razão jaz nessa linha que nos perpassa, que tangencia o fazer. Sua impossibilidade sita exatamente na impossibilidade de ser, da razão encarnada, como se fosse possível a linearidade absoluta e perfeita, obliterando todas as oscilações do ser. Tal qual a música que se diz racional e é usada como forma de protesto. Tamanha animosidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por fim, caro leitor, mantive-me no mínimo aqui. Como aprendi nos livros, meus argumentos são o caráter afirmativo de minhas sentenças. Lancei-lhes ideias e, como bem declarei, este é um rascunho; não pretende nada mais ser que não isto. E, portanto, devo terminá-lo prematuramente, eis que sob os auspícios da razão e da linearidade já imiscuí ao texto as 23 ideias que tinha como objetivo. Reitero: este texto nunca estará acabado.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-8873350280971491637?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/8873350280971491637/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=8873350280971491637&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/8873350280971491637'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/8873350280971491637'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/05/razao.html' title='Razão'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-7003897121536998994</id><published>2010-05-10T14:34:00.001-07:00</published><updated>2010-05-11T05:58:03.277-07:00</updated><title type='text'>Sob chuva</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Chove. Chove afora a chuva de um inverno vazio. Chove senão o nada. Escorre dos desvãos celestiais e exaure a vida que se cumpre em terra. O céu alivia-se e escoa aos humanos toda essa ausência peremptória, devorando uma presença que se faz tímida e prometendo os fantasmas de uma nova vida. Numa eterna dança, os humanos rendem-se às chuvas e as chuvas não lhes tardam a escapar; sempre tardias, sempre lacônicas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sob chuva jaz o ausente. O movimento lesto e brando desvela tudo aquilo que já não mais reconhecemos. O ruído da colisão, por sua vez, é tão somente um ruído vazio. As águas contornam o silêncio e o constringem, impingindo à imagem uma essência diabólica. A chuva, pois, torna manifesto esse silêncio que nos espreita e desvia seu destino de supressão. O som da tempestade é o grito de uma imagem que desvanece, de um silêncio que se derroga para presentar a ausência que lhe é intrínseca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na chuva, o silêncio nos envolve. A serenata faz pesar o vazio, como as gotas d'água só tornam obesa a falta própria do espaço. Nesse dia frio, o silêncio se faz notório entre a descontinuidade das águas, entrecorta o real e interpola a presença com sua ausência infinda.   A cada gota que se choca contra uma parede, cumpre-se uma explosão de silêncio em todo seu redor. Assim, a chuva desfaz-se e transfigura o nada, transfixando o espaço e suprimindo seus intervalos. A própria falta se rende e, sob o peso das águas, faz-se presente. A chuva cala. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As canhestras gotas propendem ao solo e comportam em seu interior a potência da ausência. Eis a maior ameaça da chuva: indiciar os vislumbres de uma realidade incompleta na colisão entre céu e terra. Porquanto risca o céu, faz-se visível; consumada a colisão, há somente a fenda no real, o rastro do movimento e o frio que nos dilacera o corpo. A alma desfalece em prantos.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É, pois, somente na chuva que essa falha passa ao lado do objeto e nos toca o corpo. A ausência, em circunstâncias normais, é apanágio da alma e somente se faz gritante quando excrescente, repugnante. Acomete-nos com furor, fustigando o espírito com os signos do real; conjura o silêncio e o vazio; esboroa a ausência e nos pune com a presença perfeita, contínua e derradeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A chuva dá-se como a imagem do silêncio. É nossa condição para poder apreciá-lo: retirar-lhe o substrato, enervar a ausência até que se faça somente seu invólucro e, assim, visível. O silêncio é demasiado pesado para que possa ser apreciado em sua especificidade. Assim, seu maior indício é a sua falta e, somente por meio desta, faz-se presente. É preciso que falte, é necessário o opróbrio do som para que sangre e escorra sua falta. O silêncio cala na chuva e mergulha o mundo na imanência do resíduo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Calma. Não teçamos prognósticos apressados. Na chuva há algo de sublime: a descontinuidade das águas somente desvela os hiatos da presença. Escorre sobre ela e a faz pesada. Pós aniquilação resta somente a ausência, o vazio, o intervalo. O silêncio elude as investidas e nos contempla com seu ditame. Intuímo-lo em seu movimento, na sua deflexão. É quando se faz mais leve, mais sutil e expedito que o nosso espírito o apreende melhor. É na tempestade, pois, que divisamos o silêncio em si, pleno, perfeito, eterno.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sinto a chuva enregelar-me a alma. Caminho solitário na noite em meio ao caos — caos de espírito. Não tenho pressa, visto que também não tenho destino; são tantas e desdobram-se em um eternos sobrelanços que seria inútil tantar esquivar-lhes. As gotas d'água defletem a luz, somente para se acumularem em poças no chão. Uma maior detém-me por um par de minutos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há algo na chuva, como se a remição dos pecados.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-7003897121536998994?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/7003897121536998994/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=7003897121536998994&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/7003897121536998994'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/7003897121536998994'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/05/sob-chuva.html' title='Sob chuva'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-3985649464765985954</id><published>2010-05-03T13:03:00.000-07:00</published><updated>2010-05-03T14:22:08.661-07:00</updated><title type='text'>Arrogância</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Caminho escuro na noite. O único. A arrogância é um beco minuciosamente maculado, uma lata de lixo metálica recostada sobre um poste de madeira, madeira desusada, tratada, vivaz. Pouco acima uma luminária quebra o ritmo áspero acidentado da planície e pontua com um tacanho amarelo o pathos da razão. Tímida luz, baluarte derradeiro da consciência, suficiente apenas para desenhar um pequeno círculo em volta do metal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segue a estrada. Mil e dois homens perfilados, prostrados à imanência luminosa. Cada um responde por seu poste, por sua luz. Divisam-se uns aos outros, é verdade, porém, pena, o espaçamento é largo. Os feixes de luz não se encostam e os derredores são absorvidos pela escuridão. Poste, noite, poste – é tudo que se vê, é tudo que há. Nenhum liame. Não há mundo em que se assentem esses suportes, não há nada entre o fim de um círculo fulgente e o começo de outro. Nada senão noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mil e dois homens ilhados, alçados à sua luz e ancorados à solidão. Podem abandonar o círculo decerto, mas o que os espreita em todo aquele recalque negro? Não há Deus para garantir que o solo transponha a luz. Estão ausentes de Deus esses homens. Estão ausentes de luz que não a própria — entrevêm, malogrado, a luz adjacente, ao longe, um vulto, uma lata de lixo metálica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estão embebidos na razão. Podem ver à distância, contudo dependem de uma luz à qual não respondem, que não lhes é própria. São dependentes da luz que lhes é adjacente, eis que a própria já não é suficiente. Ao longe, avistam-se vultos, a vista avulta-se. Divisam ao longe, nos desvãos da luz, caso desconsiderem os perigos tétricos que os circunscrevem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis que toda claridade lhes é própria. A luz é uma certeza em si, um hiato na escuridão. Não é, pois, certa a imensa noite. Esta é incerta, inserta — nos interstícios da certeza. É verdadeira esta pequena pontuação, são-lhes reais estes vultos, estes postes. Vertigem de iluminação. Vêem ao longe por meio dos outros. Ao longe, vêem senão os outros. Preconizam o caminho, traçam linhas retas no escuro, de poste em poste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Céus, o que vejo? Seremos irmãos? Inimigos? Será um reflexo, luminescência especular? Miragem? Simulacro da visão? Vejo algo, é certo, mas a escuridão o cerca. De ponto em ponto, vejo ao longe. Mas, o que me espera no escuro? Ah!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Podiam ver, sim. Construíam o mundo que se fixava além dos sulcos negros. Homens observadores. A noite era sobremodo negra e perigosa para que a pudessem adentrar. Os postes, a luz, não podiam removê-los. Dependiam deles para ver. Dos postes, da luz, uns dos outros. Sentiam-se tristes e solitários em seus esconsos. Tentavam formas de comunicação ao longe. Longe demais. Em vão — eram vultos antes de serem homens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Consternado por meus fantasmas e estivado de especulações, recolhi-me. Sentei recostado ao poste, observando ao longe. Mil e dois postes, eu podia contá-los. Seria um código? Cada um com seu vulto. Seriam homens como eu? Será que pensam? Dormem quando eu durmo? Não cessam de observar? Céus, por que me olham de volta? Por que não saem à escuridão? Idiotas! Ignóbeis! Por que será que nã... cacete! Eu tenho uma lata de lixo também!&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-3985649464765985954?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/3985649464765985954/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=3985649464765985954&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/3985649464765985954'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/3985649464765985954'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/05/arrogancia.html' title='Arrogância'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-5800800364412086663</id><published>2010-04-28T14:44:00.001-07:00</published><updated>2010-04-30T07:18:06.769-07:00</updated><title type='text'>11º</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Uma abreviação. Como todas elas, simultaneamente suficiente para indiciar o original e insuficiente para substituí-lo plenamente. Constitui um reducionismo temporal que comprime o passado e descarta-lhe seu substrato. O 11º primeiro mês de namoro é uma dupla falha, eis que peca em condensar a complexidade do tempo em uma presença esmaecida e falha mesmo nessa representação: o 11º mês descai à sombra do primeiro ano completo e espreita o próprio relacionamento, haja vista que enseja um reducionismo ainda mais radical, que já não comporta em si nem o peso derivado da quantidade numérica. 11 meses constituem um plural ainda pesado, ao passo que a sua passagem ao primeiro ano constitui um movimento de enervação: definha o peso do relacionamento, é uma abreviação ainda mais leve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Façamos justiça, pois. Na seu refluxo ao passado, qualquer abreviação é pobre. Qualquer intento em se escandir o passado é terrificante. Ainda que se desejasse uma quantificação deste, seria mais preciso, no tocante à relação, medi-lo em dias, 334, horas, 8016, minutos, 480960 ou ainda segundos, 28857600. Tanto mais justo quanto mais pesado se conotar o passado. Não obstante, ainda uma representação derrisória; não dá conta dos momentos, cristaliza o movimento da paixão, injunge ao tempo uma linearidade mundana e transforma todo o relacionamento em um fardo a ser carregado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Consideremos, portanto, o lapso temporal que entrevê. Do 11º mês ao primeiro ano, há um movimento de compressão. Não só o tempo, como a relação é abreviada. Traduz-se somente por uma alcunha ou uma marca já desprovida de peso. Mais justo, no entanto. 1 mês para 1 ano, um duplo movimento de leviandade. Eis uma característica da paixão e, aqui, é exatamente isso que a alcunha resolve: torna o relacionamento mais leve e retira o fardo que arrasta a paixão. Há um único mês para se viver; neste sobrevirá um paroxismo de paixão, maior que o próprio tempo, maior que o recipiente que a contém. A abreviação do tempo permite esse paroxismo da paixão, essa explosão súbita para além dos limites que, uma vez transpostos, conotarão já o que a paixão deixou para trás: viveu um mês para abandonar um ano inteiro. Talvez tenha que rebocá-lo mas, em sua superfície, um mês tem o mesmo comprimento de um ano — cinco caracteres, um espaçamento e uma vida a dois inteira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amo-te. Quando me falta a força para abraçar mais apertado, quando me falta a ternura para um beijo mais apaixonado, preciso dizê-lo. Recorro ao banal, apelo à língua da multidão para dizer ao mundo, de forma inteligível, o que sinto. Mesmo o amor, entretanto, é uma abreviação, um atentado à complexidade e à vicissitude dos sentimentos. Incorro, pois, no vazio — e, sabes bem, é aqui o meu espaço. Vivo na intermitência, no movimento do trespassar, no espaçamento entre a presença e a ausência. E te amo como te amaria amanhã. É o meu jeito de dizer que não consigo conter no presente um amor que jaz no futuro. Não consigo viver num instante o amor que já é maior no momento subsequente. Assim, digo-te que te amo mais do que posso. Amo-te até o que não posso. E, se pareço distante, é para que quando eu me faça presente, eu tenha a esperança de que tu notes este amor contido, abreviado, que tenho para te dar. Contido, pois transfixa o hoje, excede-o em direção ao amanhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;11 meses, 1 mês, 1 ano. No fim, acho justo. Preciso abreviar o amor para não te amar como o fiz ontem. Mas, ainda, injusto, pois em todo gesto de amor está inscrita essa alcunha. O jeito como te amo agora é maior do que a soma do que te amei nesses 11 meses que se passaram. Para ser justo, por fim, a ti, preciso te amar hoje como te amaria amanhã. Caso contrário, terei certeza de que meu amor já não te acrescentou nada.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-5800800364412086663?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/5800800364412086663/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=5800800364412086663&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/5800800364412086663'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/5800800364412086663'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/04/11.html' title='11º'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-6154485897482193257</id><published>2010-04-21T19:23:00.001-07:00</published><updated>2010-04-22T10:37:38.725-07:00</updated><title type='text'>Sobre essa escuridão</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Eu já venho escrevendo há algum tempo e, bem, eu queria conversar um pouco sobre isso e sobre mim e sobre esse lado meio negro. Eu nunca me preocupei muito com quem lê o que eu escrevo, mas eu queria tornar esse texto o mais íntimo possível, algo que sempre busquei e nunca consegui, e acho que o único meio de se fazer isso é conversar um pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que quem já se sentiu sozinho sabe um pouco como é essa coisa de lado negro. Uma escuridão que fica adormecida em algum lugar — numa consciência, talvez, numa alma. Talvez adormecida nem seja o termo certo também, porque essa escuridão é algo mais inquietante, que se revira e a que a gente não tem acesso. Acho que algumas pessoas são mais confortáveis com isso, mas não sei bem como ele se manifesta em cada um. Em algumas pessoas, acho que como uma certa arrogância, uma vontade de se acreditar melhor que os outros, uma vontade que nos vigia. E eu não condeno isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes, eu acho que a gente se deixa abraçar. Acho que a gente passa para esse lado negro porque é um jeito que a gente encontra de se iluminar melhor. Na claridade, uma luz própria seria quase imperceptível, mas no escuro a gente pode notar esse brilho — e é uma forma de entrar em contato com ele. Eu acho que no escuro as coisas ficam mais visíveis. Náo é abandonar nem o pensar nem o sentir para deixar que um desses dois prevaleça. Acho que essa escuridão é uma mistura dos dois, é quando o que nós sentimos fica... não compreensível, mas visível, fica acessível. Por isso eu vejo isso como um lugar adormecido: quando a gente vai lá é como se nós mergulhássemos e, só aí, pudéssemos encontrar a nós mesmos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha escuridão é inseparável de uma solidão e de uma incerteza. Um não existe sem o outro e, quado um comeca, começam todos. Acho que é isso que venho tentando expressar na minha escrita, independentemente da teoria que esteja por trás de qualquer texto. Por isso, eu nunca vi esses escritos como arte ou como ciência, mas um pouco como uma forma de... passar a esse lado negro. É um jeito que encontrei para inscrever minha subjetividade fora dela mesma, e de me lembrar um pouco quem eu sou. Para quem me lê, a  preocupação que tive foi com a estética do texto, com um fazer-sentir — seja em um texto que joga com sensações e palavras, seja em um que toca um sentimento lá no fundo ou um que se mostra mais sério, rebuscado e informal, uma tentativa de compreender realmente esse lado negro. Talvez o que eu tenha para dizer esteja só na forma como eu digo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu acho que, de um modo simples de se dizer, essa subjetividade latente, esse nosso lado negro, é o nosso domínio sobre o mundo e, ao mesmo tempo, o domíno do mundo sobre nós. Ela tem um pouco a ver com o que nós somos e com como nós nos produzimos tanto para nós quanto para os outros. Tem a ver com o nosso ser e com a nossa imagem e eu vejo como um jogo eterno entre esses elementos. Do lado negro, a gente consegue sentir esse tipo de coisa. É como se a gente trouxesse para o corpo o que é da alma, como se a gente trouxesse para a vida o que é do sonho. E eu acho que assim a gente deixa exposta essa alma tanto ao pensamento quando ao sentimento. Não sei, talvez fosse como se a gente já não se sentisse triste ou feliz, mas como se a gente sentisse a tristeza ou a felicidade. E só assim pudéssemos nos deixar abraçar inteiramente por elas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu vejo esse passar ao lado negro um pouco como passar ao lado dessa felicidade ou dessa tristeza, como presenciar o que a gente está vivendo: sentir o silêncio ou o vazio, sentir essa tristeza. Por isso, acho que os meus textos são uma passagem à minha solidão, à toda minha incerteza e, ao mesmo tempo, à minha paixão e ao meu amor. São uma forma de entrar em contato com esses sentimentos, de não deixar que eles tomem conta de mim. Acho que, quando a gente passa para essa escuridão, é uma forma de escurecer um pouco tudo que está na nossa volta, é uma forma que a gente tem de ver essa luz própria e também de ver com essa luz própria, mesmo que a gente veja só a escuridão que nos cerca. É como uma grande mistura, quando a gente encontra felicidade na tristeza e uma tristeza um pouco nostálgica na felicidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espero que vocês me entendam.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-6154485897482193257?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/6154485897482193257/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=6154485897482193257&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/6154485897482193257'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/6154485897482193257'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/04/sobre-minha-escuridao.html' title='Sobre essa escuridão'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-6163922006207260820</id><published>2010-04-10T10:56:00.000-07:00</published><updated>2010-04-10T11:01:02.905-07:00</updated><title type='text'>A dupla ausência da paixão</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;Estava perdido em seus braços, num abraço que desdobrava um abismo. Os braços circunscreviam uma profundidade infinita, pois ali o conforto me sobrevinha, mas, de imediato, me absorvia. E eu a abraçava mais forte, como se abraçasse toda aquela paixão. No aperto, faltaram-me forças e comecei relutantemente a soltar. A tristeza polarizou-se em meu pensamento e abandonou-me extasiado.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Percebi então que a paixão desencadeava-se numa dupla ausência. Primeiro, ela me era nada senão a absorção naquele abraço: era o lançar-me dentro do abismo. A paixão sobrevinha-me nesta condição: para poder abraçar seus encantos, eu deveria arrebatar-me ao profundo nada. Minhas preocupações, meus sonhos, meus pensamentos — enervados e reabsorvidos pela paixão. Nela, eu reencontrava-os todos, destituídos de qualquer peso. Assim, a paixão foi este movimento no qual eu me ausentei do mundo e me entreguei completamente, somente a ela. Por conseguinte, a paixão era, ao mesmo tempo que sua própria presença, sua própria falta: quando meus braços fraquejaram, senti medo de deixar escapar aquele mundo — e foi precisamene aí que intuí estar na presença plena da paixão. Foi ao experimentar sua ausência que pude notar o quão imponente era sua presença. Eu não queria perdê-la jamais.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;— Eu te amo — disparei, assinando um contrato com a paixão.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-6163922006207260820?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/6163922006207260820/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=6163922006207260820&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/6163922006207260820'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/6163922006207260820'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/04/dupla-ausencia-da-paixao.html' title='A dupla ausência da paixão'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-1760532898670289270</id><published>2010-03-31T07:26:00.000-07:00</published><updated>2010-04-02T09:07:31.056-07:00</updated><title type='text'>Não somos heróis.</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Eu vejo pessoas morrendo aos seus 20 anos. Não há surpresa explodindo das minhas veias. É apenas um movimento de adaptação, penso, o mundo morreu sob nossos olhos, sem deixar vestígios. Estamo-nos adaptando à morte. É apenas um movimento de aceleração em direção ao nada, uma geração inteira acelerando rumo ao vazio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não somos jovens como há muito tempo. Não mais hoje. Nossos ídolos são músicos, nossos mentores são profissionais de renome, nossas teorias são as mesmas de séculos. Não há mais grandes heróis. Eu vejo velhos por antecipação – pessoas esperando para embarcar num mundo já construído. Senhores, não há volta, não há luta. A nossa grande luta é por dinheiro. O nosso grande empreendimento é ter um prazo ao término do dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estamos todos morrendo”, ele disse. Nossa geração é uma geração de chefes. É uma geração de líderes formados em cursos de fim-de-semana. Somos uma geração instruída por nossas mães. Eu vejo jovens projetando suas vidas sobre o mundo, em vez de sob ele. Os mais prodígios homens transformados em pródigos. Pensamos o mundo, é óbvio. Já não o sabemos fazer fora dele. Perdemos o pensamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estamos todos mortos”, eu digo. Refrearam nosso tempo, tido como indômito. Somos de uma simplicidade ímpar, à deriva num tempo pobre, linear. Já não temos conhecimento da descontinuidade e da multidimensionalidade. Por conseguinte, somos uma geração que nada tem a opor à vida. Não temos conhecimento do nosso próprio movimento e, assim, já não temos moeda de troca para os nossos valores. Nesse mundo, eles já não equivalem a nada. Perdemos o tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sento aqui quieto. Silêncio. Meus pensamentos derivam pelo vazio, longe de minha mente, e perdem-se no instar do absoluto nada. Perdem-me no instar do absoluto nada. Perco o tempo, perco a vida. Não perco o meu silêncio. E vocês já o perderam, senhores. Abdicaram a descontinuidade, venderam o silêncio. Não há irrupção, não há revolução, só homens cheios de si dando continuidade a um legado. Intimoratos e intrépidos, homens que não olham para trás, que não olham para os lados e caminham sobre si mesmos. Trilhas obesas. Parabéns, hoje vos tornais líderes diplomados. Hoje vos tornais mães.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A internet revestiu o nosso social e concebeu as mesmas novas relações. O mundo expeliu um outro, idêntico, renovou-se sob os auspícios do extermínio do peso que carregava. Eu digo, passemos à leveza senhores. Somos uma geração já sem peso. A globalização terminou com as fronteiras. Decerto, já não temos o que cruzar, estamos encilhados em nossos próprios cômodos, atados à vida por intermédio de bytes. E assim são nossos heróis, bytes processados à visão, porque desde já perdemos a faculdade de olhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Domesticamos nosso silêncio e nossa solidão. Hoje, ao dia, somos andantes da correção, endireitamos os passos estrada adentro. Acertamos, com medo do erro e sem questionar os acertos. Mas o mundo nos é justo, senhores. Portanto, devoremos-lhe de seu interior às migalhas que nos atira. A vida é boa. Basta aceitá-la. É apenas um movimento de adaptação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, senhores, sou da geração do nada. E vos digo que este lado é ainda mais triste, visto que já não há ninguém com que eu possa falar. Estou do lado da morte, pois já não há ninguém que me entenda. É óbvio, só agora vejo: mortos não falam.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-1760532898670289270?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/1760532898670289270/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=1760532898670289270&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/1760532898670289270'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/1760532898670289270'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/03/nao-somos-herois.html' title='Não somos heróis.'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-8015952990374512530</id><published>2010-03-18T09:09:00.000-07:00</published><updated>2010-04-30T05:41:19.515-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>3:10</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;Revirado em cama, J. fitou a tela luminosa do relógio. O rosto amassado e os lençóis sérios, despejados ao longo do chão. Marcavam 3:10 e a noite cingia-se contra o tempo. A escritura no dispositivo era suficiente para evocar por si uma sensação plena. Revelava-se ali não somente uma leitura do tempo, mas uma leitura do espírito de J. A 3 horas e 10 minutos não havia tempo algum; suscitavam, pois, precisamente a lacuna da fluxo temporal — o momento em que o sonho confundia-se com a vida.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Era cedo para decretar-se findada a noite. Era tarde para iniciá-la. Divisa-se aí axiomática a inércia da alma. Vácuo do tempo, que lança ao próximo instante o momento presente, dando continuidade ao seu movimento, em que se fecha a vida sobre si mesma. 3 horas e 10 minutos dão à luz, pois, não somente a língua do tempo, mas um lugar. 3 horas e 10 minutos são menos tempo do que espaço. Espaço desprovido de tempo. Portanto, um instante infinito na noite. E J. sabia que aquele único momento duraria para sempre. &lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Escancarada, a janela permitia que raios artificiais de luz irrompessem as entranhas daquele quarto. O garoto, enervado sobre a cama, direcionava seus olhos ao piso riscado pelos fachos de luz. Luzes da cidade externa, luzes da cidade interna. Transportavam a solidão que se alojava nas ruas frias, transportavam o calor que se espremia contra apartamentos agitados Ali, eram tão-somente, à J., dúvidas sobre o movimento da transposição. Talvez aquelas luzes já não procedessem de lugar algum. Um desvio do destino, o próprio tempo que se flagrou atrasado e congelado no vácuo. Apenas riscos no piso de madeira que flutuavam no ar, nada mais. Não partiam de lugar algum. A luz era apenas sombra da luz.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;No relógio, horas e minutos separavam-se por dois pontos intermitentes. Acendiam, apagavam-se. Piscavam a cada segundo, sem qualquer alteração nos algarismos. Em seu instar, reafirmavam no tempo aquelas 3 horas e 10 minutos, agora tempo nenhum. Zero hora, zero minuto. Já não havia 3 horas e 9 minutos para responder pelo nascimento daquele momento. 3 horas e 10 minutos estavam soltas, um fragmento do tempo que disjuntou-se de sua cadeia e engoliu o espaço, comutando ambas dimensões livremente, perdendo-se ambas.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;J. estava preso em uma dimensão desconexa. Estava preso no interior das paredes transparentes de seu sonho, que recebiam toda a luz da realidade. Visualizava o mundo em uma dupla ausência: na sua ao mundo e na do mundo a si mesmo. Como podiam seus pensamentos rápidos acederem à verdade? Para J., seu sonho era toda a realidade que tinha disponível, ao passo que a realidade se lhe apresentava como um sonho. O vazio estendia-se agora aos seus pensamentos, pois nem esses encontravam lugar ou tempo. Na impossibilidade de sua materialização, implodiam no exato momento de sua realização. Assim, todo pensamento era, se não impossível, uma alucinação. O que era sonho e o que era real?&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;A força, tentava inscrever o tempo em um fluxo linear: assumia cada piscar daqueles dois pontos como a passagem de cada segundo quando, de fato, eram a pesagem de cada segundo. Edificava sua própria realidade, construia seu próprio tempo dentro do templo de suas alucinações. À realidade, em vão. Mas, para si, tinham a força de real, que precisa aumentar, emaranhava-se em pensamentos e desdobrava-se em cadeias para suportar o peso do nada em sua excrescência. Em seu instante eterno, J. estava criando um estoque de realidade e acumulando-o em derredor daquela dimensão, derrogando o espaço do sonho.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Comutava sua realidade pelo sonho que a espreitava. Mas, novamente, não tinha certeza do fluxo no qual incorria. Poderiar nomear cada piscada do relógio como um traço de passagem do tempo, porém jamais poderia determinar um vetor. Os segundos sucediam-se ou avançavam e recuavam incessantemente? Ainda poderiam avançar numa piscada, recuar nas duas seguintes e avançar mais duas consecutivamente. Os segundos aconteciam e se repetiam, para que J. sobrescrevesse naquela instância o seu pensamento anterior, rendendo-o com um novo, que não respondesse ao segundo passado que, sem qualquer coerência ritmíca, poderia muito bem ser o segundo seguinte. Logo, o segundo em que J. estava preso não responderia a qualquer encadeamento linear e seria apenas um segundo livre, que irrompe irresponsavelmente o espaço unicamente para motejar do garoto, roubando-lhe um pensamento e promovendo a disjunção de uma completa cadeia anterior. Assim, os pensamentos não tinham início nem fim, não respondiam a nada, não equivaliam a nada e, mesmo assim, tomavam-se como realidade.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ao fim de seu esforço, J preencheu todo o vazio sonhado com a sua realidade. Mas, numa nova olhada, o relógio ainda acusava 3 horas e 10 minutos. Percebeu que se tratava de um sonho translúcido mergulhado na realidade. Mas, já era tarde: o garoto já havia substituído tudo que havia de real por seus próprios sonhos. Agora, J. já não tinha mais outra dimensão para a qual acordar. Sua vida era seu sonho e acordar dele era a morte.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-8015952990374512530?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/8015952990374512530/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=8015952990374512530&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/8015952990374512530'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/8015952990374512530'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/03/310.html' title='3:10'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-6387285732640462077</id><published>2010-03-09T09:14:00.000-08:00</published><updated>2010-03-09T19:37:23.629-08:00</updated><title type='text'>Cidade bêbada</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Acordo. Abro os olhos, estou sonhando. Fecho os olhos e mergulho na cidade bêbada. Os anjos estão afogados na noite dos seus sentidos e o que sobrou da vida está à deriva neste mar de embriaguez. Os sonhos são fluidos como a água e a vida esquiva e violenta como as ondas que nos vêm acometer. A quem pretende se arriscar contra as correntezas, melhor se embebedar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cidade bêbada, feita para desistir.  A vida nessas águas é um sonho e, da realidade, não há despertar. Com as mãos, toquei o presente pútrido e, com os olhos, afoguei em lágrimas memórias e esperanças. Não vi em meus dias senão o desencanto e a sujeira. Os demônios estão acorrentados ao solo com garrafas das piores bebidas humanas, pois nestas ruas até o diabo precisa se embriagar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De esguelha, vejo bares repletos de pessoas — todas estão bêbadas de suas próprias emoções, de suas próprias razões. Extirparam a pele e perderam o tato e passaram a embriagar-se para ocultar a dor. Estes bêbados, foram todos ensinados. Já não são humanos, só bêbados.  Deixam-se levar pela vontade das águas, esperando o vento lhes soprar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu os vejo derrotados sobre o próprio vômito, à mercê da bebida. Já não há algo que se possa salvar. Para estes muitos, só há a bebida e as alucinações que lhes são tão caras. Reviram-se em suas próprias vidas miseráveis para afogar em álcool as mágoas que a mesma bebida lhes vem trazer. Assassinam-se socialmente. No gênese da vida há também o código da eliminação. Sabem, estes bêbados, que no momento em que nascem, carregam a matriz da destruição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na cidade dos sonhos, dou passadas lentas através de poças de chuva. Não há palavras que se valha a pena disparar. De fato, não há nada que se valha a pena aqui. A ilusão vital é risível e o preço do despertar é a escuridão. O único caminho para fora deste sonho leva em direção às sombras. Mas meus sapatos estão encharcados e meu espírito já está pesado. O silêncio me é o esconso de tal funesta ilusão. No silêncio jazem todas as palavras dos sábios e, em vida, é tudo que um homem precisa aprender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há tempos desisti. Aprendi que nesta cidade tudo deve ser feito para estes bêbados. Deve-se evitar o pensar — demasiado difícil durante o estádio da embriaguez. O único mercado negro que há aqui é o da complexidade, obnubilada pelos destilados engarrafados. A visão e o pensamento só se dão traficados e escondidos. O preço que se paga por eles é caro demais. Solidão. Aos bêbados chega tudo pronto, basta-lhes executar.  A cidade lhes sobrevém e permanecem à deriva, já que não há motivos para nadar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminho. Lentamente. Não tenho pressa para atravessar essa vida, já que, no final, não há nada para se levar. Os passos macios e o movimento tenro permitem-me melhor esquivar-me. Uma vez na cidade, tenha a certeza que ela vai derrubar-lhe. Pouco, se nada, resta aos sóbrios, mas motivos para afogar-se. Desviem dos bêbados antes que estes venham a acorrentar-lhes o espírito. Caso pegos, abandonem a alma, pois nas amarras inebriantes urbanas o destino desencaminha-se em voltas e nunca vem a se promulgar. Com preguiça de assinar sua sentença, Deus também encontra-se bêbado, estendendo os entorpecentes à sua criação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cidade bêbada, um estratagema divino. Talvez seja, por fim, verdadeira e, justo quando penso que sou eu o acordado, sou o único adormecido. Assim, restam-me duas interpretações: ou caminho em direção às sombras da minha edificação onírica, em busca do despertar, ou procuro em cada a passo a morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se a morte é um sonhar eterno, na cidade bêbada estão todos mortos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-6387285732640462077?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/6387285732640462077/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=6387285732640462077&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/6387285732640462077'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/6387285732640462077'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/03/cidade-bebada.html' title='Cidade bêbada'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-8693823213442204853</id><published>2010-03-02T09:38:00.000-08:00</published><updated>2010-03-02T09:55:29.103-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='nota'/><title type='text'>Deus</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;O menino deu de ombros. Virou-se de costas à mãe em um giro ronceiro e rumou segnício sobre o solo pesado. Distante, ela protegeu-se da tristeza interpondo-lhes suas mãos cruzadas. Uma segurava a outra e ambas atraiam o olhar triste. O apertar das mãos refletiou o apertar do coração que, em todo esse torcer, espremeu da alma uma lágrima.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;- Vai com Deus, meu filho.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;O menino manteve-se de costas. Ensaiou um movimento de pernas, e antes de completar o rodopio domou o espírito e evitou o giro. O corpo relaxado e os passos lentos flechavam a mãe com um desprezo envenenado. Ela não percebera o body rocking abortado e o exitar sutil do filho. O filho não evitara o escapar de uma lágrima.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;- Fica com Deus, minha mãe.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;A mãe entristeceu-se, o filho idem e Deus também. Mandaram-no ir, mandaram-no ficar. Perdera o rumo e dividiu-se em dois para guiar os passos de ambos. Mas meio Deus não foi suficiente para proteger nenhum.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-8693823213442204853?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/8693823213442204853/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=8693823213442204853&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/8693823213442204853'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/8693823213442204853'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/03/deus.html' title='Deus'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-6854777939154231096</id><published>2010-02-19T03:05:00.001-08:00</published><updated>2010-02-24T09:56:47.782-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>Maria Beatriz</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Maria Breatriz. Era uma mulher. Meio menina, às vezes. Segura, forte, independente e determinada. Essas coisas que os homens dizem quando não querem elogiar a aparência. E ninguém elogiava sua aparência. Era bonita, mas tão bonita que era segredo. Ninguém lhe falava da sua beleza. Era banal demais. Chamar-lhe de linda era o mesmo que dizer que era mulher. Ninguém chamava Maria Beatriz, ninguém lhe dizia o quão bonita era. Só o espelho, talvez. Era proibido falar-lhe de sua beleza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beatriz estava em pedacinhos, um do lado do outro. Alongava um pouco as vogais e se divertia sozinha, em seu pensamento, com a sonoridade do seu nome. Mariiiaaaa Beatriiiiiz, falava baixinho. Depois de sorrir para si mesmo, achou seu nome engraçado e se perguntou de onde viera. Chegou a uma decisão: seu nome era um pouquinho estranho. Estava dividida e, no meio daquele mundo todo, não se sentiu tão segura e nem tão forte e nem tão independente e nem tão determinada e nem tão bonita. Só Beatriz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Revirou-se, ajeitou o cobertor sobre as pernas e mergulhou no conforto do assento daquele ônibus. Retraiu as pernas, abraçando-as próximas ao peito e recostou a cabeça na janela. Beatriz estava pequenininha naquele dia frio. O vento soprava gelado, já ela sonhava com chocolate quente e viajava pelos campos adjacentes com os olhos rápidos, baixos e estacionados, somente a acompanharem o movimento do ônibus. Tirou os pés do chão e fingiu que estava voando. O frio apertou um pouquinho, seu abraço também. Ficou mais macio, os campos mais perto, o sol mais alegre e a poltrona a engoliu. Beatriz era só um pinguinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não ia voltar para casa. Nem sabia se tinha mais casa. Olhou um livro por debaixo da coberta e não teve vontade de ler. Jogou-o na poltrona ao lado e voltou o olhar às beiras da estrada. O ônibus estava parado, pensou, a estrada é que se movimentava rápido. Não fazia nenhum movimento, sentia uma preguiça macia e revirava-se denovo, diminuindo ainda mais na poltrona. Fora isso, nem se mexia. Só para fechar os olhos às vezes. Era evidente, então, que o chão que lhe escapava. Ela ficava parada e o mundo ia ficando para trás, empurrando-a para algum destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bia tinha um cantinho no mundo. Um lugar qualquer, frio, com sol e uma brisa leve, que chamava de casa. Sua casa, naquele momento, era o ninho que fizera naquela poltrona de ônibus. O mundo, às 7 horas da manhã, era seu. Os campos vazios, as poltronas também. Ela e o motorista se amavam em silêncio. Amavam o silêncio um do outro. O rádio se questionava lá atrás sobre o fim de sua alma solitária. Deixava Bia ainda menor, mais sozinha naquela jornada. E o que acontecera com sua alma solitária? Já era Bia, e assim encarava o mundo. Era tudo tão grande, tão imenso e tão ligeiro. Ficou tão pequena que se abraçou toda com os próprios braços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O motorista olhou pelo retrovisor e não viu nada. Nada da Maria Beatriz. Era só um pinguinho perdido no meio das cobertas agora. Sentiu o cheiro docinho do sol e o frio do vento gelado, puxou o cobertor sobre a cabeça e dormiu. Pequeninha, deixou o ônibus correr e o vento soprar e a estrada andar e o tempo passar. Nem sabia onde acordaria. Ficou insegura, fraca, dengosa e desmotivada. Queria um abraço e um carinho e um chocolate quente e que a viagem nunca acabasse e que, de repente, aquilo fosse um sonho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;B.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-6854777939154231096?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/6854777939154231096/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=6854777939154231096&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/6854777939154231096'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/6854777939154231096'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/02/maria-beatriz.html' title='Maria Beatriz'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-1430848302781358921</id><published>2010-02-12T10:21:00.001-08:00</published><updated>2010-02-12T10:38:20.482-08:00</updated><title type='text'>Sou a favor da traição.</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Afinal, a traição resulta do descair aos encantos de uma vida de faz-de-conta.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sou contra a exegese das relações. O excesso de racionalidade sobrepõe a individuação à relação, marcando a derrocada da dualidade em benefício da subjetividade. Resta de pé tal homem forte, um condutor da vida amorosa. Porém, na relação, qual a sua força? Somos amantes apaixonados, não arquitetos de relacionamentos. Assim, certa errância é elementar à vida a dois. Um errar dual: de cometer erros e de vogar aos encantos da paixão, sem recortar sendas à racionalidade.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ademais, a traição alterna-se entre dois estádios da burrice. Primeiro: esfuma-se a racionalidade do indivíduo. Uma vida amorosa a dois pode-se manter em derredor de certos claustros, porém o que torna a paixão encantadora é movimento arrebatador que acomete o espírito e o distingue do corpo, extinguindo a racionalidade residual que se apoderara de tal alma. A inoculação da paixão é um antídoto à racionalidade. A inoculação da racionalidade pode ser um antídoto fatal à paixão. Eis o estádio da burrice: não importa o que, o indivíduo quer ser burro, faz-se de burro. Toma as rédeas do desconhecimento da razão e, de espírito, entrega-se às delícias da paixão. Assim, o tamanho da paixão é proporcional ao tamanho do desconhecimento – o desconhecimento da própria paixão e o da razão. Pode-se elucubrar uma paixão à custa de seu desencantamento. O apaixonado é um transiente do desconhecimento. Passa ao lado do desconhecido, passa ao lado do mal.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Segundo: a da desproporcionalidade da paixão. Porquanto não é domada pelo indivíduo com as rédeas da luz, este não sabe o que fazer imerso na escuridão. Melhor: não sabe o que fazer da própria escuridão. Precisa-se esclarecê-la? Aniquilá-la? Decide tomá-la para si e, em vez de navegar na noite dos seus sentimentos, opta por introjetar à alma as sombras que o espreitam. A desproporcionalidade da paixão, pois, é a da paixão do indivíduo, não a da paixão dual. Num segundo estádio da burrice, o indivíduo toma para si a paixão e oblitera a dualidade. A paixão é sua, ele a roubou. Ou ele a clonou. Se o fez, qual o valor da paixão clonada? Qual o destino da original? A morte, por certo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Eis o nascimento da traição: o estádio progressivo da burrice e a morte da paixão devido a sua excrescência. A paixão original morre por excesso de paixão. Tal é o movimento da traição, como um vírus. A traição é a transfiguração sutil das paixões. Transita da dualidade da relação à subjetividade da parte mínima. Ao implodir o dual, transfere-se à sua parte mínima, sendo bem recebido, bem acolhido. Tal desconhecimento é o lastro da segunda burrice.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A traição é a não compreensão profunda de um relacionamento e o segundo movimento de transferência viral. Não se consegue conduzir tal paixão demasiado pesada. Uma vez apropriada pela subjetividade, uma vez que a paixão lhe seja própria, o indivíduo, imerso no mar do desconhecimento, acreditará que a paixão seja sua e tentará restituí-la com outra pessoa. Destarte, trairá pelo excesso de encantamento: trai porque sente-se demasiado seguro, demasiado bem, demasiado confortável – nunca vivera algo tão bom assim. Dessa forma, tem a oportunidade de trair: uma vez que se sente assim, pode se dar ao luxo da troca de parceiro. Acredita que a paixão já seja sua. Que poderá viver algo tão grandioso com outra pessoa, pois a paixão já se consumou em sua alma. Eis a vingança irônica da paixão: a sua imolação dá origem a uma cadeia contingente de mortes: a da paixão, a dos apaixonados, a dos sujeitos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Do apaixonado, passa-se ao colecionador. Elucida o faz-de-conta. Ao portar o encantamento da paixão, passa então a colecionar rostos, olhos, cabelos, orelhas, narizes, seios, barrigas, curvas, coxas, joelhos e pés. Um caçador de uma mulher fantasma perfeita. Sacrificará a si mesmo no primeiro movimento excêntrico à paixão, será vítima do flerte entre seu imaginário e sua atualidade.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Torno, pois, minha posição ambivalente: sou a favor à traição – fica mais fácil de se reconhecer os idiotas – e a favor do querer-trair. O apaixonado deve ser menos um comodoro do que um pirata: deve manter-se burro à paixão e lúcido à sua sujeição. Deve saber esconder-se e também saquear os encantos. Deve deslizar sobre o mar, sem pesá-lo e, quando tiver em mãos a sua paixão, o seu tesouro, a enterrará, pois entenderá que a paixão jamais lhe será própria.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Nunca te torna quem tu és. Matarás a paixão.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-1430848302781358921?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/1430848302781358921/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=1430848302781358921&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/1430848302781358921'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/1430848302781358921'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/02/sou-favor-da-traicao_12.html' title='Sou a favor da traição.'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-5057201549068824125</id><published>2010-02-09T11:02:00.000-08:00</published><updated>2010-02-09T11:02:29.942-08:00</updated><title type='text'>Hoje é um dia de sol.</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;I&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Uma simples constatação. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Às margens da conversação, um comentário que se afina em espiral, e tange a superfície mais extremada, deslizando pela estrutura tecida até atingir o núcleo da relação. "Hoje é um dia de sol." "Sim, está quente mesmo." "Paremos com sobreafirmações aqui. Isto não é o uma disputa." "Você é louco, cara? Estou aqui com minhas compras, no meu espaço." "Mas o dia está ensolarado, isso não pode ser negado." "Não, isso com certeza." "Me alcança um Trident aí?" "Vou te alcançar é o &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;caralho."&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Pode-se engatilhá-lo. Contudo, não é o sujeito que sidera o alvo, mas sim o objeto-projétil que aquele fez disparar. Balas revestidas de bronze e um gênio intratável podem ser um combinação ruim. Mesmo assim, quem dá cabo do alvo são as balas. Sepultado no bronze residual de um dia de sol, tudo que sobrou de uma má ideia e de uma conversa descurada. Não se justapõem, não obstante, as trajetórias do sujeito, da bala e do alvo. Talvez o dia de sol seja, então, o denominador comum.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Um: o dia de sol nada tem a ver com o sujeito. Haverá dias de sol mesmo sem ninguém que os dispare. Eles se perpetrarão felizes, com mais espaço. Existirão decerto mesmo sem um dia de sol, mesmo fora dos olhares. Dois: o dia de sol sangra o sujeito que antevê o sobressalto do alvo na trajetória. Sem eles, jamais será um dia de sol. O sujeito é a sua essência. Expede-lhe um significado um alvo e, portanto, põe-no à deriva no seu movimento. Contudo, este dia de sol está fadado à solidão de antemão. Morrerá o alvo e será condenado o sujeito. A arma do crime é esquecida. "Hoje é um dia de sol." "São dez horas da noite e está chovendo." "O dia de sol não precisa ser visto, mas sentido." “Olha, toma aqui teu Trident, passa na minha frente, mas me deixa em paz, tá bom?”&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Assim, a constatação é a trilha. Um e dois em simultâneos. O dia de sol é extremamente dependente do sujeito, mas nada tem a ver com ele. É um caminho entre sujeito e alvo, a tangente da relação, o recorte incipiente.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;II&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Uma injunção.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Hoje é um dia de sol. Aproveite-o, portanto. É teu dever fazer algo com ele. Olhe, está ensolarado. Deve ser tua culpa e agora é teu encargo resolvê-lo. Leve-o para passear, por Deus, sim? Vais ficar aí, jogando vijogueime a tarde inteira com esse dia lindo? Sabia que era uma péssima ideia ter-te comprado este maldito dia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Escute, te dou vinte mangos para ir à praia. Dá um passeio, um mergulho e descansa um pouco ao sol, certo? Sai da frente dessa coisa. Isso aí vai sugar teu cérebro.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Tás louca pra jogar Super Mário, né?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Tô.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;III&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Um estádio da mente quando&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;IV&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;V&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Um assassinato.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Um dia de sol deve permanecer inaudito. Tal é sua condição. Evocá-lo na sentença esconjura-o imediatamente do presente. O dia de sol carrega na sua existência a morte que lhe é própria. A sentença, por fim, está lançada à mesa: imolação por realização. Será executado a disparos de significação. Milhares de signos refratar-se-ão em seu corpo. Alguns transitarão incólumes, e outros terão sua trajetória desviada, os restantes se alojarão no corpo. Não serão removidos. As lacunas deixadas pelo movimento dos projetéis, no entanto, serão fatais. Restará um corpo despedaçado, demasiado desfigurado para ser tratado como um dia de sol, ou de restos demasiado leves para que pese sobre qualquer seja o sujeito.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Um dia de sol é um crime.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;VI&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Uma elisão.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Hoje é um dia de sol. Nada mais.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-5057201549068824125?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/5057201549068824125/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=5057201549068824125&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/5057201549068824125'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/5057201549068824125'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/02/hoje-e-um-dia-de-sol.html' title='Hoje é um dia de sol.'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-91049189835836636</id><published>2010-01-26T04:57:00.000-08:00</published><updated>2010-02-08T08:44:45.949-08:00</updated><title type='text'>Parece que eu te conheci ontem.</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;I&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Parece que eu te conheci ontem.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A própria configuração sintática é, em si, abjeta. Propugna uma aproximação promíscua entre sujeito e objeto. Desprezo da relação. Eu e tu estamos em demasiado próximos, sem nada que nos separe. O objeto obsedado pelo sujeito que segue seus passos, antecipa-os. A história põe-se de lado na leitura, é um termo concomitante, não essencial. Eu te quero, mas desprezo-te, a tua e a nossa história. Se, por ventura, vier-se a acabar a frase, eu e tu teremos nos conhecido, ontem. Se não, teremos apenas um ao outro, filtrados pelo "parecer". Parecemos, eu e tu. Ou ainda, parecemos eu e tu, quando, de fato, pouco se sabe sobre o que realmente somos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;II&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Parece que te conheci ontem.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Elipse do sujeito. Sou tímido, escondo-me por entre as palavras, mas deixo vestígios da minha presença. Fiz-me presente de antemão, conjugando o verbo conhecer. Estive aqui antes que tu visitasse a frase que te deixei. Há em mim, entretanto, um narrador de espírito intermitente. Ao mesmo tempo em que gravo o parecer como termo universal – “parece”, não “parece-me”, o texto traz a verdade sólida; a dúvida espreita a minha edificação. Assim, mesmo no asserto da verdade jaz sempre a incerteza. O próprio parecer é vacilante, movente. Há primeiro as aparências, e depois? Há algo? Não estou certo do que há. Por outro lado, abraço-me na segurança da assertiva - a frase afirma.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A história, mais uma vez, é apresentada como termo final. Primeiro minha insegurança e minha vontade de fazer-me seguro, parecer, daí o "quê" que assenta minha frase sobre uma base titubeante, seguidos de ti e, por fim, nossa história. Preparei para ti o cenário, a despeito de toda minha timidez, e desapareci de permeio às palavras. Quando eu não me fizer presente, estarei implícito em tudo que já fiz para ti. Assim, no final, lembra-te da nossa história, mesmo que, para ti, eu já tenha me apagado. Daí o motivo da historicidade apresentar-se ao termo da frase: será possível também o termo, ou o lapso, da nossa relação - o momento advém da ausência do sujeito para o objeto.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;III&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Parece que nós nos conhecemos ontem.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Há mais justiça à relação. Eu e tu nos fundimos. Embora sejamos os dois essenciais à construção do "nós", nesta relação fazemo-nos presente em simultâneo. Somos o que somos, mas somente porque o somos ao mesmo tempo, em meio aos nossos erros e acertos. Mais erros do que acertos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;É o nós que vem articular a frase. Todos os termos estão ao nosso jugo. Mesmo assim, o parece antecipa-se e elide a historicidade viva. Quando o parece junge-se ao ontem, conota o relampejo da  nossa história. Não construímos uma, foi Deus quem nos deu essa história hoje. Tudo que temos é um momento. Não há antes e nem depois. Porém, o momento subsequente é sempre mais pesado. O momento posterior sempre carrega junto o anterior. Como uma bola de neve que despenca do topo de uma montanha e devora tudo que vê pelo caminho até tornar-se imensa. Será, contudo, sempre uma única bola de neve.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Será que conseguiremos suportar o peso desse momento? Será que aguentaremos o fardo do segundo anterior, obstinado em fazer-se presente em cada segundo posterior? Resistiremos a história que Deus nos dá a cada dia?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;IV&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Parece que eu te conheci ontem. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Porque senti tua falta uma vida inteira.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-91049189835836636?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/91049189835836636/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=91049189835836636&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/91049189835836636'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/91049189835836636'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/01/parece-que-eu-te-conheci-ontem.html' title='Parece que eu te conheci ontem.'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-7245917477199016679</id><published>2010-01-14T04:29:00.000-08:00</published><updated>2010-04-30T07:53:11.806-07:00</updated><title type='text'>Criatura</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;A mão esquerda segurava firme o invólucro sintético de carbono à medida que a direita afastava-se linearmente, arranhando o alumínio, eludindo o outro hemisfério do volante e encenando um salto espetacular ao câmbio. Acariciou-o com a ponta dos dedos, circunscrevendo a palanca em um movimento lene espiral ascendente, com a palma macia de suas mãos. Agarrou-o com violência e ferocidade. Ambos os punhos concentrados.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Precisas como agulhas, as sobrancelhas pendiam ao nariz em uma curva sinuosa. Restavam os fragmentos do retrovisor, rachado por olhos implacáveis cegos pelo vermelho de uma raiva. Tais eram os danos, capazes de recortar cirurgicamente aquela faceta do mundo e impingi-la a uma face. Face-mundo, de significação munificente. Um pequeno detalhe capaz de engendrar por si um universo inteiro engastado em um olhar insignificante. Face-muda, sem nenhum enunciado. Sem nenhum outro para lhe extrair o extrato. Para contrafazer-lhe um extrato.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O olhar, por si, não era nada. Sua ausência, porém, era sobremodo macabra. Não havia, naqueles olhos, um olhar. Imbuídos em nada. Daí suscitava-se sua perfeição. Não há fator ou evento capazes de fazer-lhes crítica alguma: nada se opõe ao nada. Havia, pois, apenas olhos em um retrovisor. Faltava quem olhasse, faltava a quem olhar. Assim, os olhos apenas se viam através do espelho – seu reflexo – já não pertenciam a ninguém. Uma imagem com um olhar, um olhar que passara ao lado da imagem.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Havia vislumbres de pele humana também em seu arcabouço. Não obstante, mal depositados. Enxertos de tecido costurados ao corpo como retalhos, alinhavados com certa pressa – aparentavam-se ferimentos de guerra. Nas extremidades, contudo, a carne evidenciava-se rasgada, mutilada. Nenhum calor humano fazia-se exalar daquela colcha de retalhos. Tampouco seus seios desnudos efluiam alguma paixão. Eram fartos decerto, mas somente seios adstringidos à lataria. Ficavam ali dependurados, ameaçando descosturarem-se e cair.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;De resto, seu tronco era uma extensão maquínica que emergia do restante do carro, onde se encontraria um banco em edificações ordinárias. Parte do peito recobria-se com chapas metálicas, contrastadas aos fios, circuitos, cabos e mangueiras de injeção que se divisavam em seu interior. Na pele, e na superfície, localizava-se uma miríade de sensores, todos presos a partir de dentro de seu corpo – era esta sua forma de sentir algo. Seu corpo informava-lhe o que sentir e como sentir. Essa informação, contudo, não se sabia se era catalisada por certa intuição pré-maquinal ou pelo cálculo apurado dos circuitos alojados em seu crânio.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O visor do carro era plenamente negro, opaco. Não era uma janela que se abria ao mundo, mas uma tela que filtrava este. As imagens que lhe chegavam eram todas captadas por seus circuitos e então deflagradas por seu corpo. Acelerar, frear, dirigir eram operações automáticas que respondiam a estímulos. Mas, santo deus, como respondiam rápido. Os outros lhe chegavam não como outros, mas como outros-em-tela. Já não havia ninguém para reconhecer. Nem além do display, nem aquém. Ponto sem retorno. Amortecia-se o mundo – o que se vê e o que se é.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Seu corpo, no entanto, não era somente o tronco, mas já o carro inteiro – se é que se podia assim nomear tal lugubridade técnica. Era um híbrido. Os implantes humanos faziam-lhe sentir todo o prazer que sobejava à máquina. Já não era mais somente uma operadora daquela tecnologia. Era a tecnologia em si. Não sou mais eu que faço acelerar. Sou eu que, de fato, acelero. Eu sou o carro. Melhor: eu e o carro já não somos. Fusão paroxística da operacionalidade que faz com que a vida desapareça. Mas ela está escondida ali em algum desvão, posso ver os tecidos que se esbatem à maquinaria. Isto é humano.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Suas mãos são conectadas ao tronco por braços robóticos. Elas, malgrado, são humanas. As extremidades daquele carro são humanas. Logo, tamanha aberração é humana ao extremo. Porém, já não se pode dizer onde termina o carro e onde começa ali a mulher, ou onde termina a mulher e começa o carro. Tampouco, se houve, em algum tempo, mulher ou carro. Não é nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Cada toque humano na maquinaria incutia prazer no fluxo de informação corporal. O segurar firme ao volante era, à mulher, uma sensação orgástica, repetida em cadeias no deslizar de mãos no carbono e no acariciar da palanca do câmbio. Era essa sua função. Eram inteiramente prescindíveis à operação da máquina, mas estavam ali para conferir a sensação de prazer do controle total: a mulher podia sentir-se no comando, dominando todas as funções, manuseando o volante ou acionando o câmbio. Pelo mesmo motivo guardava seus peitos – era evidente que era mulher, elas o tinha, aqueles seios. Podia ter prazer ao acariciá-los.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Porém, o que lhe intrigava mesmo eram os olhos. Estava enclausurada por um maquinário avançado fechado, a um mundo ínvio. Mas estranhamente havia ali um retrovisor. Estava ali somente para seus olhos. Não para o seu olhar, não mais. Assim, a macambúzia criatura arremessava os olhos àquele espelho, extasiada. Digo, toda a percepção do mundo chegava-lhe por meio de circuitos. Sua cabeça sequer se locomovia, posicionava-se com fixidez mirando o espelho retrovisor. Seus olhos já não olhavam, eram apenas imagens na superfície cristalina que terminava por lhe absorver. Permanecia estática, extática. Fitava com incerteza aquele recorte de seu rosto, o único que o espelho lhe oferecia – sobrancelhas e olhos. Acometiam sua sucata um misto de encanto e de raiva. Emoções adversas conflagravam-se em simultâneo, fundindo-se, confundindo-se. Congênitas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Tudo o que o espelho refletia era a soma zero. Daí a nulidade dos olhos, que já não eram da criatura, mas somente do espelho.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-7245917477199016679?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/7245917477199016679/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=7245917477199016679&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/7245917477199016679'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/7245917477199016679'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/01/criatura.html' title='Criatura'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-7758650478583558671</id><published>2010-01-04T08:38:00.001-08:00</published><updated>2010-01-04T08:42:18.613-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>Paz</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Paz. Somente uma palavra. E cada vez mais distante dos rostos que se mostram ao reflexo do sol na beira do mar. Todos despreocupados, mas terão paz em meio à tempestade? Os corpos, cada um deles, prostram-se abatidos sobre a areia quente. Não tenho dúvidas: a praia é um recanto perdido que se esconde em algum lugar. Nas suas areais finas, o vento sopra e corta-nos as pernas. Nas areias quentes, erram as almas pecadoras, adejando seus vultos pesados em busca da paz pelas sendas do inferno. Nas sombras da água, jaz a ilusão vital. Para os solitários, a praia pode ser um lugar de descanso. Descanso mortal.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Meu irmão, que teus demônios não te consumam e que teus pecados não te façam pesar sobre as águas. Que a tua vida demasiado pesada não te faça afogar-se em meio a tanta paz. Uma paz que jamais conseguiste abraçar, mas nunca cessaste de procurar – e justamente essa busca foi-te terminal. Sucumbiste ao fardo dos anos e pereceste sob o movimento intempestivo das ondas. Que elas agora arrastem a paz que te é certa até o jazido de tua alma e levem para longe tuas preocupações. &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Que em minha jornada não me falte perna, e que meu corpo não afunde de permeio a areia infinda. Que a força, por fim, faça-me forte – forte de espírito – para domar a fúria inveterada de uma última onda. E que meus olhos somente estejam abertos para divisar um último raio de sol. Depois, terei encontrado essa paz que é minha e então, em vez de ondas, serei um domador de nuvens – com a coragem que me ferve no sangue. Paz de espírito que se posta cada vez mais próxima. Próxima dos sonhos e longe dessa realidade cruel e sádica. Longe da praia que nos parece, perto da praia que me é minha.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Digo-te então, irmão: não há paz em qualquer seja o mar, somente no teu coração. Caminha pelas ondas da tua vida e toma cuidado para não terminar em águas que te são desconhecidas, pois a serenidade aparente somente te será armadilha mortal. Pega tuas ondas, e faz dela unicamente tuas. E vai embora; aqui não há paz. Esta pequena praia esconsa no horizonte é somente uma estrada, a paz que te é tão cara esconde-se no recesso do teu coração – onde o coração falha a bater por um instante – no teu próprio horizonte.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Assim, pouco me importam areia, mar e sol, mas me é precioso o mundo a que me remetem. De nada me vale a realidade; estou imerso em meus sonhos. O único movimento ao qual me seguro é o de meu imaginário – e nele me afogo. As ondas são minhas conquistas e nesse mar eu sou o rei. Não há mais ninguém. A minha praia jaz deserta e todos que a procuram encontram-se aqui desolados. É aterrorizante a expressão em seus rostos. Paz simulada, falsa, fragílima. Nobre demais para ser experimentada por todos eles – simulação onerosa. Sob o preço das aparências, a praia lhes será o sepulcro. Recanto traiçoeiro onde descansam apenas os mortos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Que, por fim, tuas preocupações caiam por terra, meu irmão. Mas que caiam perto de ti e te façam lembrar quem és; para que em cada pedaço de terra no qual pisares esteja um pouco de ti e do que deixaste para trás. E de quem deixaste para trás. Não esqueça de onde vieste – e dos erros que te trouxeram até aqui. &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Espero, um dia, que meu túmulo encontre o teu e que possamos dividir um sonho em comum. “Aqui jaz um homem em paz”.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-7758650478583558671?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/7758650478583558671/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=7758650478583558671&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/7758650478583558671'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/7758650478583558671'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2010/01/paz.html' title='Paz'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-4468271271208554551</id><published>2009-12-16T15:27:00.001-08:00</published><updated>2009-12-16T17:47:35.036-08:00</updated><title type='text'>Solidão</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Tenho andado há seis longos anos por solo sofrido. Já não me há felicidade num fácil caminho de liberdade, tampouco estada ao final da estrada. Sigo solitário. Homem longo de rumo fero, vê perverter a terra o fogo e perpassa o tempo em ritmo de bolero.  Sisuda, a estrada fuma o dissabor de um cigarro azedo. Sozinho, sigo sempre segnício seu solo sempiterno. De nada me vale a verdade da vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem sou? Nunca o tive certeza. Jamais consegui aprender. Jamais me consegui apreender. Não é, pois, farsesca esta faceta fusca. É um fragmento da filigrana frágil que forma a face neste mosaico. Quem sou de verdade? Pouco me importa; não quem sou, a realidade — a verdade não é nada senão um flagelo da farsa forçado a fazer-se fidedigno. Tenha fé. Uma só. Sozinho, tenho-a em mim. Uma vez atrelada à imanência do ser, agarro-me em nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesta estrada árida, a linda luz da lua dança ao lesto e ledo movimento do tempo. Sucumbi à apreciação sequencial do espaço e terminei minha relação com a velocidade. Pouco me importam segundos, mas me é cara tamanha celeridade. Por escandir a imediatez, perco a escansão do momento. Ocupo-me, pois, com o verbo errado: aproveitar troca-se em equivalência total por cronometrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Solidão lisa, macia  e lenta que com o vento intenta violentar-me à senda de um inferno particular. Imerso em silêncio. Solo, sou antes eu e a estrada me é um meato à corrupção. Acompanhado, livro-me do principal na viagem, livro-me de mim — e o meato já não me dá passagem, sou eu o hiato, e põe-se de entremeio em meu devir. Malgrado, este é meu destino: estou preso em correntes eternas ao cosmo esotérico particular. Não há viagem para longe de mim. Aonde quer que eu corra, incorro — sempre entre caça e caçador. Caça-e-caçador — caço algo, sou caçado por algo, caço a mim mesmo, sou caçado por mim mesmo. Sopro ao alento do vento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vento vil que sofre e bate, sofre o desgaste, sonha com os dias e se desvia. Toma teu trajeto e denodado, deixa-me descansar, segue o rumo, vento, do frio do sul da solidão. Venta para o longe o tempo, em levada tenra e me tenta. Tenta-me a falsear. O vento acomete-me e aquece a visão, mas assoma frio o visualizado. O outro me escapa a cada pensamento. Sua visão é sempre minha. O outro que apreendo sou sempre eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Celebração capital célere da caça corrida que chega e culmina a vida. Para pensar,  necessito de certa concentração. E, para me concentrar, de solidão. Deixa-me, que hoje eu quero beber até o fim da vida. Não te quero, verdade, nem a ti, liberdade. Quero a mentira, enganar e enganar-me — passar ao lado do mal e deixar-me apreender depravado pelo outro —, quero prender e prender-me — não quero vagar, quero ser eu e, como tal, tomar a responsabilidade pelo que faço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sin. No inglês: pecado. No espanhol: sem. No português: somente articula-se no plural: dois sins. Um ao pecado, outro à solidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Somente serei sincero seguindo sempre sozinho. Ao inferno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_31_K0tAH7ns/Syl0870EcPI/AAAAAAAAADw/HU_ZF6W88Ow/s1600-h/_DSC00121.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://3.bp.blogspot.com/_31_K0tAH7ns/Syl0870EcPI/AAAAAAAAADw/HU_ZF6W88Ow/s400/_DSC00121.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-4468271271208554551?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/4468271271208554551/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=4468271271208554551&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/4468271271208554551'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/4468271271208554551'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2009/12/solidao.html' title='Solidão'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_31_K0tAH7ns/Syl0870EcPI/AAAAAAAAADw/HU_ZF6W88Ow/s72-c/_DSC00121.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-6194750266576623027</id><published>2009-12-13T08:38:00.000-08:00</published><updated>2009-12-13T08:38:53.613-08:00</updated><title type='text'>Notívago</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;I&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Estou morto às 5:14 sobre as ruas de Pelotas. Parte da cidade dorme, dócil, fácil. O resto aglomera-se (no interior de casas noturnas) e, como todo bom resto, estå próximo demais de virar lixo. Contei três carros ao longo de 6km, dobrei à esquina, ninguém. A sensação de completude do vazio é inefável.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;II&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Lugar errado, festa errada. Há muita gente e pouco lugar para se estacionar um carro. Se eles não vieram a pé, provavelmente rastejaram dos esgotos adjacentes. Todos fedem a bebida barata, falam demais e riem demais. Dobrei à esquina, mais duas quadras. Parece que é o lugar certo. A festa continua errada.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;III&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quarenta, oitenta. A sensação de acelerar sozinho na madrugada perdido em meio ao silêncio varia conforme a velocidade. Oitenta: desliza-se no asfalto, o carro lança-se contra as crateras no solo com violência, cai, ergue-se e continua a acelerar. Não vou parar enquanto não encontrar o final da estrada. Ou enquanto a estrada não me der um final. Quarenta: flana-se pela noite. Talvez não se sinta o carro, apenas respire-se os ares da cidade. Um ar intragável. Os vidros mantêm-se fechados e a música levemente baixa, somente para ocultar o ronco do motor. O carro desaparece e tem-se a sensação de mobilidade híbrida. Homem-carro.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;IV&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;— Vai te fudê!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;— Que foi?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;— Que que tu qué falando do Tupac?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;V&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não sei o que falei ou como apertei-lhe a mão. Ela me olhou de volta com certa fúria. Eu estava bêbado e provavelmente devo ter soado como se pedindo por sexo. Decerto eu devo tê-lo falado de forma explícita.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;VI&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Paradiso Amish era o nome. A fábrica era afastada de tudo e os modos de diversão eram rústicos. Ademais, eram todos barbudos. Até as mulheres. A festa era morfossexual pros dois lados, perdiam-se os sexos. O cara que vestia a guitarra puxou para perto o pedestal junto do microfone:&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;— Boa noite, companheiros.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Era a porra de um comício político. Só tinham esquecido de me avisar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;VII&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O ponto alto era a barman: era esperta, sabia das coisas. "A pior cerveja que tiveres, boneca" — alcançava-me em silêncio. Boa garota, economizava palavras. Diziam que era uma puta na cama. Devia ser. Mas, com aquelas poucas palavras, duvido que gemesse. Eu gostava dela me alcançando cervejas. Talvez entre uma e outra eu experimentasse um boquete no final da noite.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;VIII&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Acordei.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;IX&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Seios médios, calça justa e indecisa enquanto ao cabelo. Flagrou-me morto no meio do salão. Era do tipo que portava uma pistola leve oculta na bolsa. Dançava com a arma encostada na minha barriga e com o rosto estrategicamente separado do meu. Era difícil acompanhar seus passos, respirar e rezar ao mesmo tempo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-6194750266576623027?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/6194750266576623027/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=6194750266576623027&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/6194750266576623027'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/6194750266576623027'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2009/12/notivago.html' title='Notívago'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-6718147918428571196</id><published>2009-12-08T20:40:00.000-08:00</published><updated>2009-12-10T18:07:55.140-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>Sonhos</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;dos que procuramos em revistas&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma noite daquelas. Você chega exausto e só quer se atirar no sofá, mergulhar numa almofada e afogar-se na maciez pequena da sala de estar até que o sono furtivamente desligue o seu corpo. Mas o olhar triste da garota ao seu lado lhe é uma súplica por atenção. Rápida e mentalmente, você arrola suas prioridades. Alterna três vezes o olhar entre o sofá e os seus olhos, respira fundo e, mesmo que pense "Não! Não!", o seu coração dispara: "O que foi?"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu a conheci pela vida, essa garota. E tudo que tinha eram sonhos, muitos dos quais deixara para trás porque se achava velha demais. Falara-me deles constantemente, ao ponto de eu já os saber de cor: viajar, conhecer, se apaixonar. Dizia que não tinha tempo; agora o tempo é que a tinha. Logo, abandonara-os, os sonhos, pelos caminhos difíceis por que passou, justo onde a vida tenta nos puxar para baixo e coloca-nos desafios, onde não há ninguém para nos abraçar e inscreve-se no sofrimento o asfalto. Eu lhe disse: ninguém obtém sucesso por se entregar. Nem a vida, nem nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perdera os sonhos e perdera o amor e o seu olhar simplesmente me matava — não conseguia evitar sentir-me triste ao vê-la folhar seus sonhos por páginas de revistas. Sonhos prontos para vestir, feitos para levar. Mas eram seus. Estes eram seus, e ela os deixara ali mesmo naquela revista, cujas páginas agora encontravam-se marcadas por uma lágrima fugidia que escapou por entre seus olhos cerrados. Sonhos em alta resolução em uma impressão ligeiramente borrada pela tristeza que derramava de si. Se ela não os podia ter, a revista podia e a revista era sua e os sonhos eram seus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei ao certo se sentia saudade, raiva ou inveja do universo estampado naquelas páginas — dos sonhos que via, mas já não podia sonhar. Dizia-me que se sentia sufocada. Pelo tempo, principalmente. Eu somente aprendi que não pode ser tão bom sentir tanta raiva assim. Isso a vida me ensinou. E, no fundo, a ela também, mas simplesmente não sabia como lidar com uma realidade que insistia em lhe escapar. De novo. E de novo. Mais uma vez. "Eu desisto".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segurou firme a minha mão, sempre olhando para baixo, para o tapete. Tinha medo de não encontrar o amor. A vida lhe era dura e os amores lhe eram errados e o tempo lhe era injusto e os sonhos só podiam ser vistos pelo retrovisor. Amar era somente mais um deles, um sonho ao qual nunca encontrara. Ou pelo qual passara sem mesmo notar. Tinha medo do futuro. Teve medo do futuro nos últimos 10 anos. "E se eu morrer sozinha?", disse. "E se eu morrer sozinho?", pensei. E a verdade é que essa dúvida me aterrorizava também e eu só nunca havia parado pra pensar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sabia ao certo o que dizer. Baixei a cabeça e voltei o olhar para meu interior ao mesmo tempo em que ela soltou minha mão e levantou o rosto. Tomei alguns segundos para pensar e somente me veio toda a angústia daquela garota. A forma como tratamos os outros diz tudo sobre nós. E, pela forma como me dizia, ela se sentia a pior pessoa do mundo e eu me sentia a pior pessoa do mundo e nós nos abraçamos e eu falei:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Está tudo bem. Nós temos um ao outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o sofá era mais seguro do que nós.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-6718147918428571196?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/6718147918428571196/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=6718147918428571196&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/6718147918428571196'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/6718147918428571196'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2009/12/sonhos.html' title='Sonhos'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-4549161996518029436</id><published>2009-12-02T07:28:00.000-08:00</published><updated>2009-12-10T18:10:08.589-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>Carolina</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;Pr&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;êt-à-porter&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Carolina acorda todo dia com desejo de samba e paixão. Desenreda das cortinas as pálpebras e, entre suspiros, deixa que lhe fuja a miríade de almofadas. Abandona a maciez do sono e, ao som da bossa, lança-se à dureza da vida cotidiana, recortada da imaginação. Se os dias lhe são longos e vazios, o são apenas para que tenha o prazer de sonhá-los e de os desenhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carol é dona de jeito fácil e olhar macio. Com passos leves, ela canta, ela dança e se entrega ao samba. Escolhe-se ao espelho, do quarto ou do banheiro, pela manhã e, num jogo de pernas, ajusta à cintura sua beleza. Cabelos soltos e nenhum batom. Pronta para levar. Para qualquer lugar, desde que lhe seja permitido sonhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carolina é linda, mas está cansada de ouvi-lo. A obscenidade e a violência com que tratam sua beleza lhe cansa. Embora bela, não quer saber. Dispensa o charme barato e só quer viver. E o faz com mestria: enquanto a imaginação orbita livre aos céus, os pés firmam-se sobre a terra sofrida. Sob os aplausos da cidade, esquiva-se do mais vago olhar. Mal encontra a noite e já quer sambar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carol, em suas viagens, não quer amar; quer perder-se pela vida e se apaixonar. Sentir o encanto ao ver o desdobrar de um mundo desconhecido. Doma a beleza que lhe é exótica como doma os olhos dos tolos que sobre ela repousam o olhar. Carol quer morrer de amores, não por um homem, pelo azul do mar. Rumo ao sul, tira as sandálias,  descalça à praia, sente a areia tocar-lhe os pés e põe-se a rodopiar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carolina é mulher fatal. E fatal também lhe é o tempo: os dias passam e vêem sua juventude desvanecer. O vigor da menina troca-se sutilmente por olhos maduros e decididos de mulher. Entremeiam-se e se perdem uns nos outros. Carolina não sabe o que é. É os dois. Pelos sonhos de meninas, paga com a responsabilidade da mulher. Um viver que já não desconhece o sofrer, mas deixa levar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carol é perfeitamente sozinha, só quer sambar. Solidão que lhe preenche a alma e contém-se ante seus olhos decididos. Malgrado, solidão que não lhe é ruim, mas impulsiona um viver ditado pelo ritmo do chorinho. Ninguém pertence a ela, ela não pertence a ninguém. Estar-sozinho que é antes um estar-livre. Carolina é Carol e sabe exatamente o que quer. Se lhe serão custosas as mil paixões, todas lhe serão perfeitas. Mas sozinhas, uma de cada vez, até se esgotarem. E ao mesmo tempo todas elas, pois só assim se encontrará. Perdida entre flores, morrendo de amores, destinada a sonhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mim apenas resta falar de Carolina com toda a banalidade que me cabe. Miro certo no tempo fácil para não lhe errar ou sufocar, com medo de que de um recorte profundo de sua alma possa lhe ferir. E, ao mesmo tempo, tenho certeza de que por mais ágeis e flexíveis que sejam minhas palavras, Carolina sempre me irá escapar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No final da noite, cansada do samba e morta de amores, vai novamente às almofadas se abraçar. Vai dormir fácil, curvada, com as pernas próximas ao peito, mergulhada no conforto de sua cama. Carolina é a mulher perfeita com que sonham muitos dos homens. Como diriam: “Se o destino atravessá-la por meu caminho, é para casar”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não quer. Foi mal aí, destino.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-4549161996518029436?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/4549161996518029436/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=4549161996518029436&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/4549161996518029436'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/4549161996518029436'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2009/12/carolina.html' title='Carolina'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-7088966543549269404</id><published>2009-11-29T10:27:00.000-08:00</published><updated>2009-12-03T11:25:38.254-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='ensaio'/><title type='text'>Meias de nylon</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;Notas de quem transitou por uma vida sem brilho e repousou os olhos cansados sobre as mais belas mulheres.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mulheres que se rendem à própria beleza são cansativas. São absorvidas e recicladas pela própria aparência. Nada mais resta ali, apenas os signos de um charme já verdadeiramente extinto por baixo de um tênue véu de segredo. Comutam-se as meias de nylon transparentes e as pernas de forma lesta e vertiginosa: não importam nem mais as meias, nem as pernas; são tão-somente pernas-em-meias. Ambas tão delicadamente entremeadas de forma que o tecido torna o toque banal aos olhos. O nylon já não descansa sobre a pele macia; alastra-se de forma ubiqua por entre os poros, tal qual dedos que deslizam lenta e suavemente por sobre as pernas, descendo à parte de dentro das coxas, fartas e delicadas, ofegantes com todo calor e suor descobertos no roçar de pele contra pele.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Pernas que nunca/nada mais serão se despojadas do nylon. Substitui-se o contato entre corpos nem mais por um toque, mas pela penetração sintética da fábrica áspera. Pressionam-se às pernas incansavelmente para que se mantenham firmes ao olhar. O nylon nada mais é que o espelho da sensualidade vazia e comuta-se livremente pela mulher que não mais sabe valer-se de seus artifícios, apenas utilizar os signos baratos, clamando desesperadamente e evidenciando esse intento-de-sedução. Uma chantagem à sedução, ao ser-seduzida às expensas do segredo e do desafio. A partir de agora, todos os dedos que investirem contra quaisquer par de pernas serão tímidos, não mais pelo encanto inebriante e imprevisível do contato corporal, mas tímidos como se pedissem desculpas por não serem nylon. Ao final, todas as pernas sentir-se-ão entediadas, saudosas deste nylon.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Como espelhos, são superficiais. Uma dimensão cuja interioridade fora extirpada. Decerto são belas essas mulheres. Mas são belas de uma beleza que pode ser comprada a crédito em balaios expostos por ruas imundas. Uma beleza simulada e recalcada, que se espreme contra o fino tecido de nlyon. Eis o seu preço: todo o seu charme agora é sintético. O tecido, ao mesmo tempo em que se arroga o status de artifício, contém todo o encanto do corpo feminino. "Contém" esse ambivalente: tanto um conter de possuir e ser elementar à trama da beleza, quanto um conter de contenção, uma rede que limita e segura, mas ao mesmo tempo filtra a beleza que escapa à barreira de tecido de modo a torná-la sintética. A partir de então, toda a beleza deve antes banhar-se no nylon — e o nylon passar pelas pernas para tornar-se belo. Sem a presença feminina, pois, permanecem velados em embalagens vagabundas de papelão expostas às calçadas, sequer sem a capacidade de mendigar um olhar, mesmo que de desprezo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sem o corpo, o nylon torna-se risível e desprezível. Assim é ele próprio operacionalmente ambivalente: à medida que orna, reveste também com desprezo. As pernas nunca nos serão visivelmente perfeitas. Logo, com essa tênue pele industrial de tecido vagabundo, assegura-se o motejo à beleza perfulgente: o nylon ridiculariza as pernas. Mas tacanhamente. Reinjeta um mínimo de desprezo e garante um contingente de segredo: nunca são derrisórias as pernas ou o nylon, mas sim as pernas-em-nlyon. Guarda-se a disjunção e a ilusão da separação, como se houvesse pernas sem nylon ou nylon sem pernas com a mesma potência de sua conjunção, relação guardada pelo mínimo de transparência garantido pelo adaptar das meias às pernas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Toda mulher que se vale de tal artifício branco executa a beleza. Execução de assassinato, premeditado pelo desejo do ornato, e execução de performance. A beleza já não emana, mas repousa sobre um corpo que nada mais é do que um anteparo tecnológico. Aguarda fixo o maquinário para lhe completar. Assim, toda a mulher que se reveste desses signos brancos é ao mesmo tempo risível: sua beleza situa-se alhures. Seu encanto a trespassa, advém de outro lugar que não dela. Nem mais funcional é seu ser, pois não o sabe utilizar, fora reabsorvido pelo nylon e encontra-se contido nessa rede. Logo, na volúpia de verdade e intimidade, rasgam-se as meias para penetrar diretamente na sua essência. Em vão; todo o seu ser foi-se acumulando em torno dessas meias e, ao rasgá-las, rasga-se também a mulher. Suscita-se assim uma terceira execução: a do ser feminino, já antecipada e engatilhada, apenas esperando por uma vontade maior que um mero possuir corporal para sublimar-se. Feminilidade evanescente: evapora-se à mínima aproximação da alma, restando-lhe apenas a superfície, pois conhece somente o toque sintético do nylon e rasga-se no menor contato entre peles.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Na beleza barata, toda mulher arma sua própria sublimação. E, assim, precisa-se de cuidados para não destroçá-la com uma aproximação sutil. Transfigura-se o belo em signos do belo. Dessa forma, toda a relação passa a um nível sintético: todas as conversas passam também a ser artificiais e superficiais. Qualquer tentativa de profundidade pode ser perigosa à própria mulher. Logo, a nova mulher já não é mais mulher, mas um ser transformado-em-mulher. E, da mesma forma, todo elogio à beleza é somente um elogio ao nylon, não mais à mulher. Trocam-se livremente mulher e beleza num movimento vertiginoso, de modo que não se deseja mais a mulher, mas tão-somente sua beleza. Este é o preço dessa obscenidade: o feminino perfeito já não é mais mulher; apenas uma sobreposição de seus signos deteriorados e pré-concebidos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Aos homens, muito cuidado: a mulher perfeita pode-lhes ser um travesti. &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-7088966543549269404?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/7088966543549269404/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=7088966543549269404&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/7088966543549269404'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/7088966543549269404'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2009/11/meias-de-nylon.html' title='Meias de nylon'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-8395826409218834484</id><published>2009-11-24T17:43:00.000-08:00</published><updated>2009-11-29T12:24:14.560-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='rascunho'/><title type='text'>Loveproof</title><content type='html'>Coração implacável — a bater solitário, desligado de um corpo — à prova de amor.&lt;br /&gt;Coração recalcitrante, a bater sonhador, a despeito de um corpo: a prova do amor.&lt;br /&gt;Das paixões obstinadas que refilam ao tempo e vão na alma se eternizar.&lt;br /&gt;E das paixões vagabundas, que se perfilam aos dias, mas não cansam de amar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-8395826409218834484?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/8395826409218834484/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=8395826409218834484&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/8395826409218834484'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/8395826409218834484'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2009/11/loveproof.html' title='Loveproof'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-5570479933530869622</id><published>2009-11-21T19:35:00.000-08:00</published><updated>2009-11-24T17:48:51.640-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>Do café na madrugada</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Eram por volta das três da manhã. O tempo ainda me era obscuro; os segundos esfumavam-se ante à vista e acometiam-me em uma cenestesia pungente. Encontrava-me debruçado sobre a mesa de mármore parda cuidadosamente polida e engenhava sobre seu ser. Meu olhar implacável era repelido por seu tampão; à qualquer tentativa de apropriação, a mesa esquivava-se de mim. A pedra era gelada e a cadeira desconfortável. Sem encosto algum, eu jogava meu corpo sobre a mesa e me sustentava sobre meus cotovelos enquanto, de cabeça baixa, aguardava o chiar agudo da chaleira.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Do lado oposto, ela parmanecia em silêncio.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;— Café? — perguntei, em vão. Não obtive resposta em palavras e apenas lhe enchi a xícara até a metade.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Talvez o café me tenha sido apenas uma desculpa para solicitá-la. Gostava de olhá-la e não conseguir decrifá-la. Sua expressão de indecisão face à chaleira em ebulição lhe escapava. Não era cúmplice de seu olhar e nem executava gestos performáticos, seu semblante indeciso lhe era propriamente estranho. Recusou o café e baixou novamente o olhar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Enchi uma xícara para mim e retornei a chaleira ao fogão. Aliviado, pude retornar meu olhar sobre seu corpo. Os cabelos negros lhe caiam sobre as laterais da face e lhe fechavam o semblante, desenhando bem as maçãs do seu rosto, acentuadas por seu sorriso cerrado. Indecifrável, o olhar acanhado investia contra o mármore na tentativa de aliviar o peso que meu olhar exercia sobre o seu corpo — em meu encanto, jamais pude perceber que meu olhar lhe pungia, lhe feria. As sobrancelhas finas e bem delineadas equilibravam-se harmoniosamente sobre seu nariz pequeno, levemente curvado para dentro, e tentavam esconder-se sob as mechas que lhe caiam sobre a testa. À metade do pescoço, o cabelo encontrava-se amarrado por uma pequena tira de pano, terminando por cair-lhe sobre o ombro direito escorrendo em um único filete por entre seus seios, macios à vista, macios ao toque.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Estava nua diante de mim, sentada à mesa trajando somente uma calcinha apertada, já arriada até a metade de suas nádegas. Embora tentasse, o tecido molhado e transparente nada conseguia esconder; timidamente, apenas encobria o início da curva sinuosa da qual se desdobravam pernas longas e esculturais, ainda levemente umidecidas por seu suor. Não era a nudez corporal que lhe incomodava — nem a minha nem a dela — tampouco o sexo; constrangia-lhe a falta de pudor do tomar-café, do pós-sexo. Prontamente, após eu terminar de verter a água fervente e suja garganta abaixo, acometeu-me com olhar trêmulo e voz hesitante:&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;— Eu te amo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Os homens nunca entenderão as mulheres.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-5570479933530869622?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/5570479933530869622/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=5570479933530869622&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/5570479933530869622'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/5570479933530869622'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2009/11/do-cafe-na-madrugada.html' title='Do café na madrugada'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-8581623571368885017</id><published>2009-11-09T16:30:00.001-08:00</published><updated>2009-11-10T16:28:59.803-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>Cartas marcadas</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Sobre mulheres e poker&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afixado na parede, o relógio enclausurava-me no tempo interior de meu apartamento. Suado, o reboco exibia já uma rachadura imponente que saltava aos olhos – a parede me encarava em seus destroços. A cada passada, o movimento do ponteiro dos segundos ressoava como gotas despencando do teto mofado dentro de um vazio infinito. Eu a havia ganhando num jogo de poker: dois pares, valetes sobre noves contra noves e oitos. Ele entrara na mão por um full house; eu, por um pouco de ação.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;Permanecia imóvel e desajeitada, caída sentada sobre seus joelhos, ali mesmo, no chão. Vestia uma de minhas velhas camisas sociais, branca, já surrada e um pouco amarelada. E só. A camisa desabotoada deixava o seu seio esquerdo a mostra. O cabelo louro, o qual alternava entre nuanças claras e escuras, caia-lhe sobre os ombros e repousava canhestramente sobre seu mamilo. Os lábios finos, cerrados, jaziam delicadamente um sobre o outro, como se cuidadosamente arranjados, sem nenhum atrito, sem nenhuma violência. Meus pensamentos divagavam por entre seus seios médios enquanto seu olhar se perdia tímido sobre o assoalho de madeira podre.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;Eu vestia uma regata rasgada, colada no corpo pelo meu suor e deambulava sobre suas curvas com olhos atentos, sem perder nenhum detalhe. Podia ouvir o barulho da chuva rápida e abafada que se chocava contra as paredes do lado de fora. Lá dentro, eu não conseguia descobrir o que fedia mais: o cigarro que eu fumava ou as cortinas velhas, que mais pareciam uma mistura de lençol com tapete, penduradas sobre a única janela da sala, cuja vista contemplava o beco na rua de trás do apartamento. Tateei o chão e alcancei uma cerveja barata. Ainda quente, mas bem-vinda. Eu tragava o cigarro e esperava o destino apontar-me como um viciado pervertido e sortudo que encontrara o amor entre uísque barato, charutos velhos e uma mão mal jogada. Eu era um péssimo jogador, e um péssimo amante.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;— E se eu te deixar ir?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;— Eu vou voltar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;— Sei — dei mais uma tragada, percorrendo as cortinas com meus olhos cansados — tira essa camisa pra mim então, baby — ela obedecia sem hesitar enquanto eu me desvencilhava daquelas calças apertadas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;Eu a chamava de Jack – tinha um anjo tatuado nas costas do ombro direito – dona de um sorriso tímido e de um olhar fulminante. Sabia usar aquele par de olhos para enlevar/enervar a alma de um homem: conduzia mortais ao paraíso ou ao termo de suas vidas, terminando por abandonar seus corpos exânimes ali mesmo, no sótão fedorento de um apartamento podre. Jack era também o meu nome. E o das cartas marcadas que me ganharam aquele jogo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;O que me incomodava é que Jack não se incomodava de volta. Ela me amava simplesmente pelo jogo — como as coisas devem ser. Era seu destino ser minha. Eis que se entregava de corpo, mas nenhuma alma. &amp;nbsp;Ou talvez uma alma muito bem sedimentada sob sua encantadora imagem. Eu jamais poderia descrevê-la como ela de fato era; somente como aparentava ser. Poderia falar de seus olhos claros ou de seus lábios tímidos e bem desenhados. Seu beijo, o encanto com que me encarava e o seu gemido abafado na calada da noite; inefáveis. Esse era o seu preço e a sua armadilha: eu poderia tê-la apenas como minha, sem jamais verdadeiramente possuí-la. Amavamo-nos pelas cartas, amavamos às cartas, sem qualquer paixão um pelo outro, somente pelo jogo — de cartas ou de conquista.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px;"&gt;Um par de Jacks na mão no pré-flop, subindo todas as apostas às cegas, confiantes na nossa paixão, no nosso jogo, em tudo que poderíamos ser.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-8581623571368885017?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/8581623571368885017/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=8581623571368885017&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/8581623571368885017'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/8581623571368885017'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2009/11/cartas-marcadas.html' title='Cartas marcadas'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-7868749829836218512</id><published>2009-10-31T18:01:00.001-07:00</published><updated>2009-11-29T12:25:38.955-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='nota'/><title type='text'>Garoto/Estrada</title><content type='html'>O garoto investe contra a estrada. A estrada investe de volta contra o garoto. Não há mais nem garoto, nem estrada. Já não é mais possível a vida de um sem a vida do outro. Embora a viagem não tenha encontrado seu termo, os dois já se encontram antecipadamente mortos. &lt;br /&gt;Em si mesmos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-7868749829836218512?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/7868749829836218512/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=7868749829836218512&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/7868749829836218512'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/7868749829836218512'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2009/10/garotoestrada.html' title='Garoto/Estrada'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-757928601573291850</id><published>2009-10-25T21:27:00.001-07:00</published><updated>2009-12-08T11:36:19.192-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='nota'/><title type='text'>Olhos azuis</title><content type='html'>&lt;div align="justify" style="text-align: justify;"&gt;Olhos azuis de desespero. Desespero meu. Intrigava-me, pois, a extensa branquidão a qual lhes circunscrevia, pois que repousavam em perpétua quietude e serenidade em derredor do vazio. Não era o azul profundo com o qual me fitava que me arrebatava alma, porém o vazio obstinado que lhe domava o olhar. Entremeavam-se o ser e o nada — se são os olhos a janela da alma, evidenciava-se sua nulidade profunda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O branco é que me olhava. Precipitava-me no vazio. Tal era o seu olhar: engodo mortal, armadilha fatal. Atraia-me com os encantos de um mar que se perdia no horizonte somente para me afogar no infinito do nada subjacente. Seus olhos eram o limite. O seu e o meu. &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Deadpoint&lt;/span&gt;. Após seu olhar não há mais nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-757928601573291850?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/757928601573291850/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=757928601573291850&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/757928601573291850'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/757928601573291850'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2009/10/olhos-azuis.html' title='Olhos azuis'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-3069593762338007731</id><published>2009-10-23T23:46:00.000-07:00</published><updated>2009-11-29T12:25:22.900-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='nota'/><title type='text'>Menina</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ombros brancos e bochechas rosadas. E pernas que agrediam às meias. Pernas e meias. Guardado, é claro, certo grau de transparência: com olhar penetrante, via-se através da fina superfície que recobria sua beleza fulgurante. Falo das meias decerto; da linda menina de estuque jamais se veria algo se não sua imagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Fora moldada em duas etapas: frente e verso, cuidadosamente, de modo a preservar um espaço interior habitável por alguma subjetividade. Mas preservá-lo à custa de quê? Seu corpo de gesso constituía, pois, armadilha funesta ao espírito. Tal era a necessidade das meias: delírio louco de alma encarnada. Para fazer-se notória, precisou antes fazer-se mais exterior que o exterior. Re-volução sonhada, malgrado as reviravoltas constantes. Seu espírito vinha em forma de vestes e artifícios minuciosamente escolhidos, entrelaçando-se subjetividade e detalhe mínimo. Doravante, consumia-se primeiro sua essência. Aos gritos mudos de angústia, a subjetividade congelada lançava-se de antemão ao olhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Pernas e meias. Principalmente as meias. Suas pernas, pois, já não valiam de mais nada. Nua, a menina de estuque já não contemplava espírito algum.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6492011152784530852-3069593762338007731?l=zeroismo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zeroismo.blogspot.com/feeds/3069593762338007731/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6492011152784530852&amp;postID=3069593762338007731&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/3069593762338007731'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6492011152784530852/posts/default/3069593762338007731'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zeroismo.blogspot.com/2009/10/menina.html' title='Menina'/><author><name>gui</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-0f913kBKstg/TePd6KnmZGI/AAAAAAAAAOE/L_5-CiFhnyc/s220/pic.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6492011152784530852.post-4508097982061318608</id><published>2009-10-23T23:31:00.001-07:00</published><updated>2009-10-23T23:31:30.850-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crônica'/><title type='text'>Tempo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;p&gt;Sob o céu cinza que vela o dia frio, o vento faz perderem-se os segundos. Sopra para longe o tempo e imola os resíduos de vida sedimentados sobre a inércia do silêncio. No segredo da manhã, o sol irrompe o céu triste e dispara raios de luz que deslizam sobre a superfície das águas. Não há nada sob ela, é somente o puro abismo superficial. O mistério trespassa o continuum da vida e lhe rouba preciosos instantes infinitesimais. Se a noite vale-se do charme e do artifício da aparência, a manhã é a própria ilusão, dissolvendo o mistério na intermitência do tempo e derrogando o próprio tempo, sem deixar quaisquer resquícios de seu ritual criminoso — ela nunca acontecerá.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ninguém na praia. Acalentada pelo réquiem da tempestade, a areia fina é posta a movimentar-se, desviada fatalmente de seu destino no encontro mortal com as correntes de destruição. Voyeur não complacente, ao sol resta derramar uma lágrima, ao passo em que, lenta e timidamente, cobre seus olhos ao esconder-se por de trás das nuvens ligeiras. Ele, por sua vez, está velho, já sem destino algum. Inerte. Das costumeiras lágrimas, somente obtivera seu fulgor enferrujado pelo tempo implacável. Pós-festa, só restarão as ruínas babilônicas da beleza e da paz.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Ninguém na estrada. Sequer uma alma transiente para testemunhar o incurso do fim. Contraposição da estrada ao tempo: ao passo que o asfalto conduz a muitos destinos, o tempo, cruel e sádico, impiedoso, desvia a um só. Encontro fatal, não pode ser avistado nem mesmo nos quilômetros finais, mas nos será fiel e pontual: estará inevitavelmente lá, na justaposição dos destinos. Embaralhem-se nos caminhos, decidam livremente a sequência de estradas a seguir, esmerem-se ao planejar o percurso. Nada desvia a estratégia do tempo. Assina sua sentença, por fim, em uma deflexão diabólica. Nos metros finais, há somente o silêncio do enigma, fardo transportado ao longo de uma vida inteira. Não há perguntas, nenhum porquê, somente uma dívida não quitada da única certeza radical que se dispõe em vida, uma hipoteca com o tempo — sua condição. Nosso destino será cumprido.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;Já não há vida em lugar algum. Foi-se o tempo em que ela transbordara. Havia vida por toda a parte, em demasia. Foi-se o tempo. Não há mais vida. O segredo, entretanto, mantém-se intacto. Incólume à empreitada divina do tempo, agora ele repousa sob o signo do silêncio. E, justamente quando se acreditou que o tempo arquitetav
