quinta-feira, 15 de março de 2012

Casa de sombras

Laços de sangue espalhados pelo chão cinéreo; a pedra fria e crua recebe-os como tintas com as quais pintamos o átimo de uma relação evanescente cujo bálsamo transpira as paredes que exsudam nossos nomes em acanhadas gotas de suor e abafados gritos de horror. Exauridos sobre os lençóis, deitamo-nos separados pela distância infinda da angústia e da paixão; falta o corpo no carinho, os lábios no amor e alma na entrega; logo nós, tão logo, tão cedo em minutos eternos de meses apressados. As paredes, no entanto, dormem só e esperam-nos; o chão descansará gelado e, mais uma vez, será áspero, será tortura, choro e sepulcro, será a solidão tão terna deste amálgama de escuridão em que pulula a ausência de móveis, de cama e de sentimentos, estes bulcões negros donde se expedem as trevas e a insensatez que chamamos de sentimentos; esta nuvem obscura da qual chamamos qualquer sentimento em implorar, arrogar e amaldiçoar — aqui acorremos um ao outro, sempre em prantos, sempre em desespero, arrancando sangue e alma e dor. Sabemos: não há nada, não há ninguém; as paredes ecoam nossos passos e gemidos abafados, nós não estamos lá para por eles responder — são os anos contidos em lágrimas extravasadas; são as lembranças que irrompem e defloram a beleza, assomando no quarto escuro o frio estanceiro do solitário. São os anos em monta que se passaram esta semana em que adormeci nos longes de tuas palavras como criança, no frio que fez na infância e que dá lugar hoje ao quarto mais negro de minha vida: se lembrasse teu nome, certamente o escreveria no ar como suspiro, infundindo os poros das paredes para que guardassem sempre teu segredo — e a pedra gélida e longínqua te receberia e protegeria com a dor que nos chama e junta. No entanto, perdi-o no reverberar e colocamo-nos em sombras dançantes que emanam de uma bruma negra drapejante; dançamos ao fim de nossos abraços e de nossas confissões, entregamo-nos nestes sorrisos falseados em que se fundeia a melancolia distintiva de uma prece sem espera, de um retrete impérvio que nos faz sempre presas. Somos, isso sim, amantes fúnebres, apaixonados enervados pelo desvario e pela vertigem; um fulgor célere da mais insigne demência e da mais cândida saudade, aquela saudade negra compreensiva que nos acompanha e vorazmente abranda-nos os passos. O baldio convocado e o relacionamento astático; a aproximação era sempre uma comutação instável através de um conduto resoluto que tanto se fazia de rogado. As pernas, no entanto, não eram bambas; os braços e as carícias eram certeiras e não vacilavam — havia firmeza ali e nós o sabíamos!, tanto que a pintávamos nas paredes com sangue, tudo em vão, aquele de uma memória apressada em obnubilar e apartar tudo aos recantos mais obscuros. Mesmo que se evolasse a tinta, era importante que o fizéssemos em nossos momentos juntos: não as paredes, mas as sombras embraçavam os mistérios arcanos, menos como continentes escondidos do que como brandas estâncias envolventes; embora do sangue não provesse a segurança, ele segurava nossos momentos como quem protelava uma procissão. A dor nos adiava e segurava, o caminho era inexistente; havia, contudo, uma caminha de nuvens sombrias de todos os feitios e ora ali deitávamos na espera. Perdemos tudo e entregamo-nos ao abandono, como quem a-guarda o próximo passo — estava escrito com sangue, não estava? Onde o perdemos? Por que nos deixamos? Por que nunca voltaste? Sinto saudades. Que sejas sempre feliz.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Caderninho

Deitei-me na areia, recostei-me sobre uma pedra e, com uma caderneta e um lápis em mãos, observei as nuvens e apanhei no rosto um pouco da chuva e do vento. Senti-me bem, tão bem que me acometeu a certeza de que era exatamente aquilo tudo que deveria estar naquelas paginazinhas de papel. Como eu poderia escrevê-los se na fala só eu que sou? Como poderia mostrá-los ao mundo se não os podia dizer ou escrever? Aquela manhã deixei a praia muito triste, muito triste e frustrado e cheio de impossibilidades. Com meu caderninho em branco, restou-me abandonar no céu um sol que, em retribuição, eu acho, soprou-me um vento e me chamou na fala. Disse assim: “shfffff shffff, shffff”.

sábado, 3 de março de 2012

Josefina

Josefina lembra-me momentos passados e terrificantes, momentos difusos, tão perfeitamente difusos, cujo mero lembrar é já um resplandecer suficientemente nebuloso para fazer soçobrar toda minha vida. São, assim, não meros momentos alojados em um quartinho da memória, mas momentos que, de algum modo, ainda vivem e alimentam-se desta escuridão estacionária, como se em alguma dimensão nós estivéssemos tendo lugar. Somos, nós dois, a vida da memória, a memória viva que irrompe no real — não o mal que nubla a mente, mas o momento perfeito que sonda qualquer possibilidade e a dissuade, onde todo momento é já sempre culpado de não se ter tornado aquele momento tão vivo, tão belo e pequeno, tão perfeitamente pequeno que seria capaz de armazenar a humanidade em um lapso, um lapso tão recôndito e tão perfeito que jamais se poderia realizar, mas que seria, por si só, suficiente para justificar uma humanidade inteira, uma em fantasia, que só poderia ter lugar em colapso, uma humanidade sempre prestes a nascer e derrogar aquela outra que se firma num duplo zelo onde cuida tanto da pequena Josefina quanto de si mesma — se é que diferem em alguma instância, cogita. Não é de se estranhar, portanto, que Josefina não encontre referência alguma e que nada chame; não é mulher nenhuma, mas, antes, a impossibilidade ela mesma, a sombra do nome onde tem berço o medo e a ausência (quem sabe uma faltinha carinhosa de alguma coisa, qualquer e toda coisa!, que nunca pode ser cumprida e que se abraça em tudo que lhe é posto dizendo: não é Josefina — nem mesmo quando se trata dela?). Talvez fosse mais sensato, consequentemente, acreditar que em outros nomes caberiam o que lhe é devido; chamá-la-ia carinho, solidão, ternura e compreensão, chamá-la-ia minha, decerto. Porém, no entoar desses nomes só haveria um reverberar infindável onde se perderia a pequena menina em substituição com algo o qual Josefina nada tem a ver, nenhuma conta tem a prestar. Trata, do contrário, da idade do possível, de seu tempo, de seu lugar — ou melhor: destrata-a. Faz-me recordar: sou eu o digno de abandono, aquele que no próprio deixar dá o deferimento tácito e a despedida, deixa-se sob o poder da pequena Josefina que, de seu tempo oculto parcialmente nublado, há sempre de esquecer-me e consolar-me, visto que é para este não lugar que corro — não como reminiscência recorrente — mas como ilha de desaparecimento. Lá não há ninguém, nem mesmo a menina, mas pegadas, marcas e vultos dançantes daqueles adormecidos que no sossego nos espreitam; há a paixão e o sono da tardinha que cai como véu sobre a infância e faz o tempo virar noite, véu da Josefina que me guarda para sempre ainda menino, moleque na praia da saudade onde só há agora uma pequena pedra rasa que insiste em não ser encoberta pelas águas transparentes que afluem do outono. O meu caminho — isso a dor há de recordar — é trilha do desaparecimento, pegadas evanescentes que na areia imprimem a pressão do corpo e aliviam. No final, Josefina se coloca serena neste recanto — ela o é — e o contempla em ausentar. Para mim, no entanto, o templo estará sempre lacrado.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Mundinhos

Desculpe-me se ultimamente ando distante ou se tendo a ausentar-me por longos períodos; há este vilarejo tão cálido e seguro onde sou amigo de todos, onde são todos os seres pequenos e todas as coisas insignificantes, onde a escuridão monstra é noite mansinha e onde estão os meus pensamentos todos guardadinhos. Contudo, já não sei se me sinto bem aqui, surgiu a necessidade de fazer casa e decidi, por sentir-me tão acolhido e pequenino, trazer as coisas minhas sem requisitar. Aconteceu de eu inundar o lugarejo com saudade e brinquedos e de entender que eu jamais te poderia trazer para morar aqui — ou acaso não lembras de olharmo-nos por horas de silêncio, um que desvelava a estrada entre nós, e que, mesmo nesta mostra do caminho, irritava-nos por não conseguirmos, ao dar as mãos, trazer um para perto do outro? A maior distância do mundo, eu o vim a descobrir, era sempre o palmo.

Assim, para mostrar-te o quão maravilhosas as coisas eram aqui e o quão baixinho e tímido o sol era capaz de brilhar, decidi trazer-te as coisas da terrinha e descansá-las em teu redor, não como se eu te tivesse transformado em mundo — e talvez não o ter feito tenha sido meu erro — ou como se eu te tivesse tudo confiado e, também sem o requisitar, imputado a ti a responsabilidade de cuidar desta cidade, mas sim como uma amostra, como um poeminha de criança através do qual eu queria mostrar-te menos a poesia do que a infância. Desculpe-me, portanto, se nos perdi nestes problemas que eu mesmo criei, pois dei-lhes sustento por longo tempo, e atribuí-te alguma vez uma culpa qualquer. A verdade é que eu mesmo tratei de colocar esta estrada onde enxerguei sempre o problema na distância, nunca na ligação, e agora atribuo-o a esta última, como se algo pudesse deixar de ser problemático somente com o desviar de meus olhos — e esta estrada, de fato, foi a única coisa que coloquei, foi-me morada, solidão, distância e ligação. É tudo que mantenho e, creio, é onde nasce o sol que tudo sustenta da ruína (sem nunca deixar de ser um problema (que mantenho (onde nasce o sol que tudo sustenta da ruína)))*.

Nesta estrada, no entanto, está tudo bem comigo. Posso dizê-lo mesmo sem saber se esse bem refere uma certa paz de espírito, uma certa confluência mundana ou ainda um intensificador. Tudo está bem comigo diz: tudo está bem próximo de mim, tudo se mantém em um estado de proximidade (talvez excessiva), tudo estadia junto a mim, tudo tem seu estado junto a mim, como se aqui na estrada eu pudesse oferecer lugar, como se eu o fizesse questão de fazer, e, nessa articulação, o ser fosse o bem ele mesmo ou ainda somente pudesse ter estado nesta hiperproximidade, talvez porque eu mesmo termine por colocar tudo aqui — e também eu tenho estado junto às coisas que aqui estadiam, que aqui eu coloco, porquanto eu as coloco, creio. Assim, neste intermúndio, nesta pequenina interpolação eu mantenho próximas a distância e a ligação porque distam e ligam, dou estado de proximidade a tudo aquilo que está distante e posso, nesta estrada, não oscilar entre os mundos, mas, porque somente tem estado na proximidade, conservá-los desde que, no entanto, jamais torne a habitá-los. É em minha ausência, às minhas expensas, que eles são plenos.

* Talvez haja algo em toda pronúncia que a sustente e que se sustente através de toda entoação, como se este algo estivesse sempre ali, como se o pronunciar se desse desse pequeno sustentáculo e sempre tornasse a encontrá-lo.



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

A poesia que não disse nada mas que retornou o homem à sua casa

Carminha,

É sábado, o frio que faz e a saudade que dá. Escrevo-te para contar que estou alegre, que conto os dias e sei que estaremos juntos em tempo breve, mas que já vejo por trás desta brevidade e posso colecionar as saudades como rosas; não te entristeça que são flores que ornam meu jardim e dão perfume. Ademais, é bom o cheirinho que fica das tuas partidas tristes; é um cheiro fresco e úmido de abraços constantes e de grama chovida. Saiba também que já preparei a chuva para tua chegada: fiz berço e coloquei-a em sesta, nós te aguardamos aqui nesta terrinha longínqua que, por sinal, continua tristonha. Hoje, na praia, avistei um poste que solitário dava luz ao negrume que se avizinhava no crepúsculo, um pequeno soldadinho intrépido o suficiente para lembrar-me de meus passos e apontar-me a casa onde acho que tudo me espera, menos tu. Neste caso, digo que sou eu que te espero aqui, como o postezinho que enfrenta a repetição da noite, como se consciente de sua missão. O meu embate, entretanto, é com a tristeza aconchegante e com o abraço cálido da solidão: quando me espreitam, sei o que tenho de fazer e vou-me para o jardim de rosas, onde sei que já não sou mais aquele menino solitário e que agora tenho tuas flores para cuidar. No entanto, quando o dia cai — e a noite o veste —, acho sempre e ainda que sou este garotinho triste caminhando pelas calçadas como se voltando para casa. Os meus pés descalçam-se na aspereza da pedra e do barro e, com o pouco de maciez que lhes resta, acarinham o batido da vida. Não são (isso eu sei) mais pés de menino, mas pés duma tristeza em cujo caminhar brota o solitário e cujo destino é sempre as paredes brancas e aquelas velhas janelinhas de madeira. Sabes, Carminha, pelas inúmeras vezes que estiveste comigo, que a casa está vazia quando estou aqui dentro e que, portanto, seria torpe preenchê-la com tua presença somente para que eu pudesse morar. Há muito que volto para cá só para cuidar das flores que todos plantamos e para deitar-me na areia à espera do sol: lá de cima ele vem adormecendo comigo até nos encontrarmos em sonho. Aqui eu me relaciono com o mundo no diminutivo. As flores, garanto, estão bonitas. Embora eu nada tenha plantado, creio que tenho sido bem zeloso em dar a cada uma o pouquinho de sol e de água que coleto durante o dia. Entristece-me apenas ter de deixar este lugarzinho, mas o faço toda noitinha, quando encontro minha mãe para o chá. Tenho certeza que encontrarás a casa bem parecida como a deixaste. Não sei, no entanto, se me reconhecerás, pois acho que estou um pouco mudado. Não deixei a barba crescer nem ganhei peso; ganhei, contudo, alguns anos e estraguei a pele com o sol. Disseram-me que meus olhos estão mais tristes e que meu andar tem estado mais devagar, mas elogiaram-me também pelo bonito jardim. É bom, Carminha, é bom. É sinal de que estou desaparecendo e de que assim está ficando clara a vista das flores. É bom, Carminha, pois poderemos encontrar-nos e então conseguirás ver toda a alegria que este jardim deixou brotar em mim; é bom porque poderemos dançar à tardinha enquanto as rosas cantam aquela cantiga de ninar que tanto gosto e porque poderás, no embalo docinho do entardecer, colocar-me para dormir na mudinha serena. Eu prometo, Carminha, que mesmo depois de nos despedirmos, lembrarei do teu cheirinho e guardarei para sempre este jardim. Eu juro juradinho.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Prosa rosa em galhos finos

Há um pequeno recanto em minha janela onde os seres me são; no seu pousar, os pássaros me pássaram e repousam; em quietude a árvore me arvora e aquieta e, quando silencio, o vento me sopra e me venta em pen-


-sa-
-men-
-tos

à toa em um rosa de primavera e de sorrisos de sono. O lençol me casa e me berça a manhã no cedinho da infância; estou sozinho no azul que empresta o céu e no través dos galhos fininhos tenho destino: o mar me chama, o azul convoca. No desbrotar rosa o menino enfim nada.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Deixa, dança, dama.

Menina, vamos pintar as paredes, dançar nos corredores e fazer amor na cozinha. Como crianças, vamos brincar e reinventar: a casa, o mar e o amar. Vamos deitar, vamos sonhar — abra as cortinas e deixa o sol desnudar tudo, deixa o desejo cair e a calmaria chegar, deixa o mar, mansinho, embalar a gente como crianças na rede. Deixa brincar, não é pecado! Deixa, deixa tudo!, deixa essa vida, deixa essa casa, deixa ser tudo. Deixa a mim, menina, deixa eu te amar — vamos deixando, dançando, vamos onde o vento deixar (são coisas nossas). Me deixa, minha linda, me deixa te deixar, enquanto fico deixado em teu abraço de algodão e em teu cafuné de gatinhos; envolve minhas pernas e diz-me: te quiero mucho, mas diz-me em ronronar. Não temos nada a perder, essa vida não é nossa, não é nada, senão a deixa pra sermos felizes, a deixa pra deixar, com vontade fraca e coração nobre, de peito aberto e sol no olhar. Essas paredes, essa casa, esse amor, essa vida, deixa tudo, deixa desabar — dança, dança com esse menino que se deixou apaixonar.